Alagoas

CPI do IPREV na Assembleia mira caminho dos R$ 117,9 milhões aplicados no banco de Vorcaro

Deputados iniciam coleta de assinaturas para investigar operação que colocou dinheiro dos aposentados de Maceió em títulos do banco liquidado pelo Banco Central

Redação 25/06/2026
CPI do IPREV na Assembleia mira caminho dos R$ 117,9 milhões aplicados no banco de Vorcaro
Deputados Dr. Wanderley, Remi Calheiros e Ronaldo Medeiros articulam CPI na Assembleia Legislativa para apurar aplicação milionária do Iprev de Maceió no Banco Master

Os deputados estaduais Dr. Wanderley, Remi Calheiros - ambos do MDB - e Ronaldo Medeiros (PT) iniciaram a coleta de assinaturas para a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Assembleia Legislativa de Alagoas. O objetivo é investigar a aplicação de R$ 117,9 milhões do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió, o Iprev, em letras financeiras do Banco Master, instituição que entrou em liquidação extrajudicial pelo Banco Central.


A iniciativa mira uma das operações financeiras mais graves envolvendo recursos previdenciários de servidores públicos em Alagoas. O dinheiro aplicado pertence ao fundo responsável pelo pagamento futuro de aposentadorias e pensões de servidores municipais de Maceió.
Para a instalação da CPI, são necessárias nove assinaturas. Os parlamentares que articulam o pedido dizem acreditar que não haverá dificuldade para atingir o número mínimo.


Dr. Wanderley afirmou que já conversou com deputados de diferentes campos políticos e que há disposição para apoiar a abertura da comissão.


“Já conversei com colegas da oposição, entre eles o Cabo Bebeto, e todos se disseram dispostos a subscrever o pedido de abertura da comissão para apurar esse escândalo do Iprev”, declarou.


Ronaldo Medeiros também demonstrou confiança na instalação da CPI e disse acreditar que o pedido poderá ser protocolado até a próxima terça-feira, 30, na presidência da Assembleia Legislativa. Segundo ele, os trabalhos devem seguir mesmo durante o recesso parlamentar de julho.


“Estamos apresentando coletivamente a proposta da CPI porque queremos saber o que aconteceu com o dinheiro dos aposentados da Prefeitura de Maceió”, afirmou Medeiros.


O deputado petista foi ainda mais duro ao tratar das consequências da aplicação. Para ele, o prejuízo pode atingir diretamente aposentados, pensionistas e servidores da ativa.


“Os R$ 117,9 milhões aplicados irresponsavelmente no Banco Master não voltarão e isso prejudicará os aposentados e também os servidores da ativa da Prefeitura de Maceió. Fará falta ao pagamento futuro de suas aposentadorias”, disse Ronaldo Medeiros.


Remi Calheiros afirmou que a CPI deve buscar caminhos legais para esclarecer a operação, identificar responsabilidades e apontar eventuais medidas para tentar proteger o patrimônio do Iprev.


Segundo ele, a Assembleia não pode assistir de braços cruzados à possibilidade de perda milionária de recursos previdenciários.


“O pedido de formação da CPI se destina à busca de caminhos legais para apurar o escândalo da aquisição dessas chamadas ‘letras podres’ com dinheiro dos aposentados e para identificar e punir os responsáveis. Precisamos salvar o Iprev”, declarou Remi.


O parlamentar acrescentou que a comissão deverá apurar as razões técnicas e administrativas que levaram o instituto a fazer uma aplicação considerada de risco elevado.


“Queremos saber a verdade, as razões desse investimento de risco imensurável feito pelo Iprev com dinheiro dos servidores”, afirmou.


A aplicação ocorreu durante a gestão do ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC, período em que o instituto realizou aportes em produtos financeiros vinculados ao Banco Master. O caso ganhou repercussão nacional após a liquidação da instituição financeira e a prisão de Daniel Vorcaro, principal nome ligado ao banco.


Com a liquidação do Master, especialistas e parlamentares passaram a alertar para a possibilidade de difícil recuperação dos valores aplicados pelo Iprev. A preocupação é que o rombo comprometa a saúde financeira do regime próprio de previdência do município e imponha, no futuro, novas pressões sobre o caixa da Prefeitura de Maceió.


Há denúncias de que a direção do instituto teria sido alertada sobre os riscos da operação antes da concretização dos investimentos. Também foram levantadas suspeitas sobre a regularidade de atos internos que teriam autorizado a aplicação dos recursos, incluindo questionamentos sobre documentos e deliberações do conselho do Iprev.


Esses pontos devem estar no centro da CPI, caso o requerimento seja protocolado e lido em plenário.


A investigação parlamentar deve buscar respostas para perguntas essenciais: quem recomendou a aplicação? Quem avaliou os riscos? Quem autorizou a compra dos papéis? O conselho do Iprev foi corretamente informado? Houve parecer técnico consistente? A Prefeitura acompanhou ou teve conhecimento da operação? E, principalmente, quem deve responder por eventual prejuízo aos aposentados e pensionistas?


Dr. Wanderley afirmou que os parlamentares aguardaram uma definição sobre investigações em outras instâncias, especialmente no Supremo Tribunal Federal, mas decidiram agir diante da demora.


“Esperamos bastante tempo para que o Supremo autorizasse a Polícia Federal a fazer a investigação, mas como isso não está acontecendo não podemos ficar de braços cruzados. São Paulo já está fazendo isso em relação aos municípios. Então vamos também investigar o que de fato aconteceu com o dinheiro dos aposentados do Iprev”, disse.


O caso do Iprev de Maceió também é tratado em Brasília. Senadores e deputados já cobraram investigações sobre operações de regimes próprios de previdência com o Banco Master, e a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado passou a discutir a convocação de personagens ligados à cadeia de decisão que levou dinheiro público previdenciário para títulos da instituição financeira.


Em Alagoas, a CPI estadual pode abrir uma frente própria de investigação, com poderes para convocar depoentes, requisitar documentos, ouvir técnicos, dirigentes do Iprev, integrantes da gestão municipal à época, consultorias financeiras e representantes de instituições envolvidas na operação.


Ronaldo Medeiros acredita que, após o protocolo do requerimento, caberá à presidência da Assembleia seguir os trâmites regimentais, fazer a leitura do pedido e definir os próximos passos para a instalação da comissão. Aos partidos caberá indicar os integrantes do colegiado.


Se instalada, a CPI do Iprev/Banco Master deve se transformar em um dos principais fatos políticos de Alagoas no segundo semestre. O centro da apuração será o caminho percorrido pelos R$ 117,9 milhões dos servidores de Maceió até o Banco Master — e a pergunta que ainda não foi respondida de forma convincente: quem autorizou a operação e quem pagará a conta se o dinheiro não voltar?