Alagoas

Atendimentos do Samu por crises psicológicas sobem 3,4% em Alagoas

Arnaldo Santtos / Ascom Samu 14/01/2026
Atendimentos do Samu por crises psicológicas sobem 3,4% em Alagoas
Em 2025, foram 3.034 registros de atendimentos desta natureza pelo Samu - Foto: Arnaldo Santtos

Nos últimos dois anos, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em Alagoas tem registrado um crescimento contínuo nas chamadas relacionadas a problemas psicológicos e psiquiátricos. Em 2024, foram 2.934 atendimentos — média de 8,03 por dia. Já em 2025, esse número subiu para 3.034 registros, o que representa uma média diária de 8,31 ocorrências. O aumento de 3,4% entre os dois períodos revela uma tendência preocupante, ainda mais considerando que esses dados se referem, apenas, às duas Centrais do Samu no estado: Maceió e Arapiraca.

 

No dia 7 de janeiro deste ano, por exemplo, o Setor de Estatística, registrou 13 ocorrências desse tipo — um indicativo de que a demanda por cuidados emergenciais em saúde mental está crescendo a cada ano. Ainda assim, especialistas alertam que os números oficiais são subnotificados, já que muitos casos são atendidos diretamente por outras unidades de saúde, públicas ou privadas, sem registro no sistema do Samu.

 

Surtos

 

Dois casos atendidos no dia 7 sinalizam a gravidade da saúde mental da população. O Samu atendeu uma senhora de 63 anos, no bairro de Fernão Velho, que apresentou um surto emocional e estava confusa. A equipe conseguiu amenizar a situação e conduziu a paciente para o Hospital Portugal Ramalho (HPR), que é referência no atendimento psicológico/psiquiátrico.

 

No mesmo dia, foi registrado outro atendimento de uma senhora de 47 anos, no bairro do Clima Bom, com histórico de internação psiquiátrica e com problemas emocionais de relacionamento com familiares e tinha ingerido – excessivamente - medicamento controlado. Ela estava consciente, mas sonolenta. A equipe a levou para o Hospital Ulisses Pernambucano.

 

O cenário reflete uma realidade nacional alarmante. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é um dos países com as maiores taxas de ansiedade do mundo, afetando quase 10% da população — cerca de 19 milhões de pessoas. O quadro se agravou após a pandemia, com maior prevalência entre jovens e mulheres, impulsionado por fatores como desigualdade social, violência e estigma em torno das doenças mentais. Apesar disso, muitos ainda não buscam tratamento por medo, vergonha ou falta de acesso.

 

Sintomas e sinais

 

Irritabilidade, insônia, inquietação, dores de cabeça, diarreia e sensação de estar perdendo o controle representam os sinais indicativos de que a pessoa esteja com o sintoma de ansiedade. Segundo os especialistas, a pessoa pode apresentar também comportamento de evitação, ou seja, fugir do problema. Esse comportamento é mais prejudicial porque é preciso saber a origem dos sinais, enfrentá-los e superá-los. É o denominado Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), ou seja, quando se sabe a causa é mais fácil resolver o problema.

 

Se os sinais e sintomas da ansiedade ou de depressão são frequentes, é prudente procurar ajuda para evitar que a ansiedade passe para um agravo mais complexo, que é a depressão e/ou mais grave ainda: a tentativa de suicídio. Muitas instituições dão suporte psicoterápico às pessoas que estão em processo agudo de ansiedade, que estão em depressão ou que tentaram o suicídio.

 

“Os números estão bem claros: há um aumento sensível e preocupante nos atendimentos psicológicos e psiquiátricos. Mas. nossos profissionais estão preparados para lidar com essas situações com competência e empatia”, destaca o coordenador geral do Samu em Alagoas, médico Mac Douglas Oliveira de Lima.

 

A capacitação contínua é um fator fundamental. Por meio do Núcleo de Educação Permanente (NEP), todos os profissionais da linha de frente — desde condutores até médicos socorristas — participam de cursos de Atendimento Pré-Hospitalar (APH) Básico e Avançado, que incluem módulos específicos sobre saúde mental, destaca Mac Douglas.

 

“Essa formação permite que identifiquemos sinais de gravidade ainda na regulação da chamada, adotando medidas seguras desde o momento em que chegamos à cena”, explica o médico socorrista Raphael Carvalho, pós-graduado em psiquiatria e responsável por ministrar o módulo sobre atendimentos psiquiátricos no NEP.

 

Carvalho ressalta que, em situações críticas — especialmente com risco de suicídio —, o reconhecimento precoce dos sinais e a abordagem humanizada são essenciais. “Evitar julgamentos, manter o paciente sob vigilância contínua e garantir a segurança da equipe são princípios fundamentais num atendimento que respeite a dignidade do indivíduo”, afirma.

 

Psicoterapia

 

Para quem estiver em sofrimento psíquico, a busca por ajuda é urgente, possível e fundamental. Em Maceió, o Centro de Promoção à Saúde, Educação e Amor à Vida (Cavida), organização não governamental, oferece acolhimento e psicoterapia gratuita. É só entrar em contato pelo (82) 98879-2710. Em âmbito nacional, o Centro de Valorização da Vida (CVV)  atende 24 horas pelo número 188, com escuta qualificada e apoio emocional.

 

Além disso, a rede pública de saúde oferece acompanhamento psicoterápico gratuito em diversos pontos, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e nas unidades básicas de saúde. Submeter-se a um processo psicoterapêutico não é sinal de fraqueza — é um ato de coragem e cuidado consigo mesmo.

 

Janeiro Branco

 

Neste mês de janeiro, a campanha Janeiro Branco reforça essa mensagem. Com a cor branca simbolizando um “quadro em branco” para recomeços saudáveis, a iniciativa mobiliza instituições públicas e privadas em todo o país para promover a conscientização sobre a importância da saúde mental.

 

A ideia é incentivar a sociedade a refletir, dialogar e tratar a mente com a mesma prioridade dada ao corpo — prevenindo transtornos como ansiedade e depressão antes que se tornem crises.

Em Alagoas, o Samu segue na linha de frente, não apenas salvando vidas, mas também acolhendo as pessoas em crime emocional. E lembra: pedir ajuda é o primeiro passo rumo à cura.