Vida Esportiva

'Ele não é francês, mas virou o símbolo de Roland Garros', diz Christopher Clarey, autor da biografia de Rafael Nadal

Jornalista americano explora os bastidores da dominância do espanhol no Grand Slam de Paris, onde se consagrou como o Rei do Saibro

Agência O Globo - 29/05/2026
'Ele não é francês, mas virou o símbolo de Roland Garros', diz Christopher Clarey, autor da biografia de Rafael Nadal
Rafael Nadal - Foto: Arquivo/ Instagram

Poucos jornalistas acompanharam de perto uma das maiores fachadas do esporte: os 14 títulos de Roland Garros conquistados por Rafael Nadal, que encerrou a carreira com 22 Grand Slams. Entre eles está o americano Christopher Clarey, autor das biografias de Roger Federer e Nadal, que agora considera escrever sobre Djokovic para completar a trilogia do Big 3.

Nadal acumulou troféus, mas nunca buscou registros. Por quê?

A forma como Nadal foi criada e sua mentalidade o ajudaram a manter o foco no presente, sempre concentrado no torneio e na partida em disputa. Ele nunca gostou de falar sobre discos e afirmar que só abordaria o tema após o fim da carreira. Mesmo agora, Nadal parece um pouco confortável com o assunto, o que é curioso. Djokovic, por exemplo, sempre teve uma relação diferente com os discos.

Como explicar a relação de Nadal com Roland Garros?

A maioria dos tenistas estreia em grandes torneios como azarões, ainda em fase de aprendizado. Nadal, porém, chegou a Roland Garros em 2005, aos 18 para 19 anos, depois de superar derrotas em 2003 e 2004, já sendo apontado como favorito. Ele entrou em quadra com uma aura especial e se tornou o símbolo do torneio, algo raro no tênis. Não há outro exemplo de um jogador tão ligado à identidade de um evento. Ele não é francês, mas virou o símbolo de Roland Garros, o que é incomum no esporte.

Nadal e Federer: mais semelhanças ou diferenças?

À primeira vista, as diferenças são marcantes: Nadal é canhoto, intenso e muito físico, enquanto Federer é destro, fluido e elegante. No entanto, ao conhecê-los melhor, as semelhanças se destacam. Ambos têm uma base familiar sólida e profundo respeito pela história do tênis. Diferentes de rivalidades como Connors e McEnroe ou Agassi e Sampras, Federer e Nadal transformaram a dinâmica do confronto, estabelecendo uma relação de respeito que hoje inspira atletas como Alcaraz e Sinner.

Como mostrar o lado humano dos grandes atletas?

Os livros são independentes. Não sou amigo deles; todas as decisões são minhas, o que garante liberdade, mas também responsabilidade. Busquei mostrar que todas têm falhas, pois não acredito em retratar ninguém como um deus. No caso de Nadal, foi fundamental apresentar toda a dinâmica, incluindo as suspeitas de doping (nas quais ele nunca esteve envolvido), já que sua dominância gerava questionamentos.

Como foi o contato com Nadal durante a produção da biografia?

Nadal e sua equipe sabiam fazer o projeto, mas não houve interferência no conteúdo. Não faço parte do círculo íntimo dos atletas; sou jornalista. Mantive contato ao longo dos anos, entrevistei Federer e Nadal diversas vezes e conversei com treinadores e pessoas próximas. Isso permitiu observá-los de perto e construir uma visão própria, sem depender de versões oficiais.

Por que a parceria entre Nadal e o tio Toni foi tão bem-sucedida?

Apesar de altos e baixos, a combinação entre tio e treinador foi perfeita para formar um campeão. Toni tinha autoridade, experiência e sabia equilibrar os papéis. O diferencial foi o aspecto mental: ele compreendeu a personalidade de Nadal e ajudou a desenvolver sua força competitiva, sendo decisivo na formação desse "gigante mental".

Como foi acompanhar Nadal enfrentando as especificidades específicas?

As lesões marcaram sua trajetória. A síndrome de Müller-Weiss, condição rara no pé, trouxe dores constantes e limitações, mas também impulsionou Nadal a elevar ainda mais a intensidade e o foco. Ele passou grande parte da carreira convivendo com a dor.