Vida Esportiva

Em seu primeiro Dia das Mães, Jade Barbosa celebra conexão com a filha Eva e mira Los Angeles-2028: 'Estou vivendo o que sonhei'

Ginasta, que perdeu a mãe quando tinha 9 anos, ressignificou a data após dar à luz

Agência O Globo - 10/05/2026
Em seu primeiro Dia das Mães, Jade Barbosa celebra conexão com a filha Eva e mira Los Angeles-2028: 'Estou vivendo o que sonhei'
Jade Barbosa - Foto: Reprodução/internet

A pequenina Eva, de 5 meses, ressignificou o Dia das Mães para Jade Barbosa, de 34 anos. Desde os 9, a ginasta tem uma relação agridoce com a data festejada hoje. Foi nessa idade que ela perdeu a mãe, Janaína, após um aneurisma cerebral, e passou a comemorar com as outras matriarcas da família, além do pai, César, que assumiu a dupla função. Hoje, no seu primeiro Dia das Mães com a filha no colo, ela celebra também a alegria do irmão Pedro, seis anos mais novo, que há oito meses se tornou pai de Flora.

— Eva e Flora transformaram, preencheram, deram vida à família. Desde que perdemos nossa mãe, ficou algo que não conseguimos nomear. Porque o luto tem um tempo, mas o vazio volta: no Dia das Mães, em casamentos, em Olimpíadas... Agora esse lugar, mesmo vazio, floresceu. Tem uma beleza nisso — reflete Jade, que diz sentir a presença da mãe “em todos os lugares”.

Abraço garantido

A ginasta precisou lidar com a perda desde cedo. Mas encontrei maneiras de encarar a vida. Na época da escola, o pai se fazia presente nas festas do Dia das Mães. Não era fácil, mas a dupla conseguiu se adaptar com o tempo.

César era pai e mãe e mostrava isso nos detalhes do dia a dia: maquiava a filha para competições, pintava suas unhas, fazia pulseiras de miçanga e até costurava uniformes de ginástica.

— Também fazia roupas para as Barbies, limpava minhas bonecas e as penteava comigo. Fez tudo o que minha mãe faria. Parece que ela sabia que teria algo e escolheu um homem maravilhoso para cuidar de nós. Pai e mãe têm missão eterna: educar, estar e permanecer. E é essa referência que quero dar a Eva — diz uma atleta.

Jade é uma mãe em construção e não se preocupa em achar um molde para criar a filha. Mas sabe bem que caminho deseja percorrer, baseado numa filosofia do técnico Francisco Porath Neto:

— Chico nos fala assim nas competições: “O abraço no fim da série está garantido.” Ou seja, pode dar tudo certo ou errado, mas ele abraça no fim, está ali. É assim que quero ser. Independentemente do resultado ou da situação, estarei lá para a Eva.

Dupla jornada

Há um mês Jade concilia o papel de mãe com o esporte. Ela já voltou aos treinos de ginástica e leva Eva, que mama exclusivamente no peito e em livre demanda, junto para o ginásio. São ao menos três atividades por semana, além da musculação, retomada um mês após o parto e com supervisão.

A ginasta se preparou para dar à luz pelo método natural. Após 28 horas de trabalho de parto, porém, a obstetra aconselhou uma cesárea.

— Ela nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Treinei até a 38ª semana, segui todas as orientações, mas não tive parto normal. Aguentaria mais, só que para Eva não era mais legal — conta Jade. — Percebi como mãe que a gente sempre tenta fazer o melhor, mas muitas vezes não sairá como esperamos. Temos de ser resilientes.

A fala é um mantra, afinal, Jade é acostumada à perfeição. Sua modalidade prêmio sem detalhe. E ela sempre se cobrou muito. Mordia a trave, literalmente, quando algo não dava certo.

Essa mudança de rota levou Jade a outras necessidades de recuperação. E ela entende que seu momento agora é o de fazer apenas o que consegue executar, sem forçar a barra. Aumenta o trabalho físico aos poucos, descobre caminhos dentro das liberações médicas e já consegue superar os abdominais tensos, por exemplo:

— Só faço o que não faço. No início, na academia, me pendurei no espaldar só para ver. Não tinha força para abdominal. Mandei mensagem para o músculo, e cadê ele? Hoje já faço oito. Antes fiz séries de 12 com caneleiras e, no teste físico, 40. Mas estou feliz com oito. Esta não é a primeira vez que reaprendo a fazer tudo.

Na nova fase, Jade conta com o apoio da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), que pela vez acompanha um atleta que retorna do pós-parto para a carreira em alto rendimento. Ela diz que se sente “respeitada” e espera que seu caso ajude a definir protocolos para outras mulheres de sua modalidade que planejam embarcar na maternidade.

Jade acredita que seu timing foi perfeito. Ela teve bebê no primeiro ano do ciclo para os Jogos de Los Angeles-2028 e aposta que terá tempo hábil para se preparar com tranquilidade até lá.

— Deus foi generoso. Antes de Paris-2024, não sabia se continuaria. São tantos sentimentos, é difícil planejar. Mas eu quero. Fiz uma cirurgia no joelho, antes de engravidar, justamente para tentar mais uma competição — explica a atleta. — Estou vivendo o que sonhei.

Prazeres e desafios

Acostumada a se dedicar à ginástica desde os 5 anos, Jade comemora ter agora mais tempo com a família. Ela curte cada minuto com Eva, gosta de dar banho e do momento da amamentação.

Mas, apesar da beleza desses rituais, vivem desafios, como todas as mulheres. Sofreu com leite empedrado, questão já superada, e não dorme adequadamente. Eva “apaga” só por quatro horas. Nos dois primeiros meses, adoração apenas no colo.

— Descansar para o dia seguinte? Não sei como fazer ainda. Tem dia que é punk e penso: “tudo bem, está difícil, e farei o que posso” — pondera um atleta do Flamengo. — Sempre me imaginei sendo mãe, mas em outro momento, quando não seria mais ginasta. Antes as meninas se aposentavam aos 18.

A maternidade é mais um recomeço para Jade, que ao longo dos anos conviveu com contusões e cirurgias. A última vez foi em dezembro de 2024, para corrigir uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho direito.

— Los Angeles é possível, e gostaria de fazer parte da equipe novamente. Não tenho competição como meta. Se pudesse, voltaria para o Mundial. Mas a recuperação também é importante pela qualidade de vida.

Ela se referiu ao Campeonato Mundial por Equipes, em Jacarta, na Indonésia, em outubro. As três primeiras equipes de cada naipe garantem vaga para a Olimpíada. O Mundial de 2027, em Chengdu, na China, com disputas individuais, também é classificatório.

Enquanto a reestreia não chega, Jade segue a rotina. Neste domingo, está em Natal (RN) acompanhando o Troféu Brasil. Volta ao Rio ainda hoje para completar a festa em família. Ela quer “o melhor dos dois mundos”:

— Quando Eva fez um mês, fui ao ginásio com ela. Só para respirar o meu ambiente. Precisava me sentir em casa de novo. Voltei outras vezes. Sentava lá e estavam olhando... Comemorarei este dia onde quero estar: no ginásio e com ela.