Vida Esportiva
O futuro acabou? Sem veteranos, Laureus expõe nova cara do esporte mundial com domínio e protagonismo dos jovens
Ausência de ídolos históricos e queda da média de idade entre indicados mostram como atletas como Sinner, Alcaraz e Duplantis chegam ao topo cada vez mais cedo
*O jornalista viaja a convite do Laureus
A imagem mais revelada do Prêmio Laureus de 2026, que será entregue pela 26ª vez nesta segunda, em Madri (o Sportv transmite a partir das 15h), talvez não esteja em quem disputa o prêmio principal de esportista do ano — mas em quem não está. Sem Lionel Messi, Novak Djokovic ou LeBron James, astros já consolidados em suas modalidades, a premiação mais simbólica do esporte mundial apresenta um recorte claro: o futuro deixou de ser promessa e passou a ser o presente. E, mais do que isso, um presente que não pede licença: ele simplesmente ocupa.
Na prática, isso aparece na própria composição das categorias. Entre os homens indicados ao prêmio de melhor atleta do ano, nomes como os tenistas Carlos Alcaraz e Jannik Sinner, o ciclista Tadej Pogacar e Armand Duplantis, do salto com vara — vencedor da categoria no ano passado — dominam seus esportes antes mesmo dos 30 anos.
Mais do que premiar os melhores do ano, o que o Laureus expõe neste ano é o fim de uma lógica que especifica o esporte por décadas. Não há mais um tempo de esperança entre surgir e dominar. A nova geração não pede passagem, não amadureceu aos poucos nem aprende sob a sombra dos veteranos. Ela chega já. E, ao chegar, ocupa tudo, inclusive o topo.
Os números ajudam a tirar a discussão do campo da impressão. Ao agrupar os indicados a Esportista do Ano em blocos de dois anos, a curva fica nítida: entre os homens, a média de idade era de 32,8 anos em 2021 e 2022 (com vitória de Rafael Nadal, aos 34, e de um jovem Max Verstappen, aos 24); caiu para 29,0 em 2023 e 2024 (com Lionel Messi, aos 35, e Novak Djokovic, aos 36); e chegou a 25,5 em 2025 e 2026 (com Armand Duplantis, aos 25, e a definição de 2026 a ser revelada hoje). Em três ciclos, o prêmio “rejuvenesceu” mais de sete anos — uma mudança grande demais para ser propriedade exclusiva.
— Eu vejo isso como uma evolução natural do esporte — disse Daniel Dias, ex-nadador paralímpico e embaixador do prêmio, ontem, na capital da Espanha.— Hoje os atletas ocorreram mais cedo e chegam ao auge também mais cedo. Eles já estão crescendo aprendendo a lidar com pressão, vitórias, derrotas e até com a saúde mental, algo que na minha geração demorou mais a entrar em pauta.
Mais do que a idade em si, o que esses números revelam é uma mudança de lógica. O Laureus sempre foi, em alguma medida, um prêmio de consagração, território de carreiras mais longas, onde a excelência se acumulava ao longo do tempo. O que se vê agora é outra coisa: atletas como Alcaraz não chegam como promessa, mas já como protagonistas absolutos, ocupando o topo antes dos 25. A precocidade deixou de ser exceção admirada e passou a ser o novo padrão de domínio.
Essa mudança não é casual. Ela é resultado de um esporte que passou a formar seus atletas mais cedo, mais intensamente e sob uma lógica cada vez mais globalizada. Centros de treinamento mais sofisticados, acesso precoce à tecnologia e análise de desempenho, além de calendários que expõem jovens talentos rapidamente ao mais alto nível, reduzem o tempo entre surgir e competir. E, em muitos casos, entre competir e vencer.
— Eles não surgem do nada. Começam muito cedo, com seis, sete anos, e aos 12 ou 13 já é possível ver quem vai ser grande — explica a também embaixadora do Laureus e ex-ginasta Nadia Comaneci, ouro e única nota 10 do esporte aos 14 anos, numa precocidade rara há 50 anos, nos Jogos de 1976. — A diferença hoje é que eles têm todas as ferramentas. Nós tínhamos que adivinhar onde fazer, se era joelho, tornozelo. Agora é possível medir exatamente o que o corpo precisa e como evoluir.
Os exemplos foram acumulados em diferentes modalidades entre os indicados ao prêmio principal pelo que aconteceu no último ano. No tênis, Carlos Alcaraz e Jannik Sinner, aos 22 e 24 anos, respectivamente, dividiram o recente domínio dos Grand Slams, com dois títulos cada em 2025, em uma temporada que consolidou a dupla como centro do circuito. No ciclismo, Tadej Pogacar (27) ampliou sua hegemonia ao conquistar seu quarto Tour de France, enquanto Armand Duplantis segue redefinindo os limites do salto com vara, quebrando recordes com frequência e chegando ao Laureus como atual vencedor da categoria, tudo isso aos 26 anos. Em geral, todos já operam não como sucessores, mas como referências condicionais de suas modalidades.
Na categoria de revelação, o recorte é ampliado. No futebol, Désiré Doué ganhou protagonismo em um campeão masculino do PSG; no tênis, João Fonseca acelerou sua ascensão com títulos e vitórias relevantes ainda no fim da adolescência; nos dardos, Luke Littler tornou-se campeão mundial aos 17 anos, impulsionando a audiência global da modalidade; e, na natação, Yu Zidi reduziu barreiras etárias ao subir ao pódio mundial aos 13. Shai Gilgeous-Alexander, MVP e campeão da NBA, e Lando Norris, campeão mundial de Fórmula 1 em 2025 após decisão amigável, aparecem na mesma lista.
Não por acaso, o Laureus chama a categoria de revelação de Breakthrough of the Year — algo como “ruptura do ano” ou “irrupção”, em tradução mais literal. A escolha ajuda a explicar o que está em jogo: não se trata mais de ponta quem pode vir a ser grande, mas de consideração quem já atravessou a barreira e se impôs no mais alto nível. É por isso que a lista comporta, ao mesmo tempo, dois adolescentes e um MVP da NBA, não como exceção, mas como sintoma de uma mudança mais profunda.
— Hoje você consegue prolongar a carreira, mas também chega ao topo muito mais cedo — afirma Nadia Comaneci ao GLOBO. — Uma grande questão passa a ser por quanto tempo esses atletas conseguem se manter lá.
Nesse contexto, o Laureus deixa de ser apenas uma premiação e passa a funcionar como uma tabela de época. Ao reunir, em um mesmo recorte, atletas que mal obtiveram e outros que já chegaram ao topo, uma lista não apenas comemora desempenhos individuais, mas revela uma transformação mais ampla na lógica do esporte de alto rendimento.
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