Vida Esportiva

Relatório ignorado e crise estrutural: o que explica o 'apagão' da Itália na Copa do Mundo

Documento elaborado por Roberto Baggio em 2011 apontava falhas estruturais, mas foi ignorado pela federação

Agência O Globo - 01/04/2026
Relatório ignorado e crise estrutural: o que explica o 'apagão' da Itália na Copa do Mundo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A ausência da Itália em mais uma Copa do Mundo — a terceira consecutiva — não é fruto do acaso ou de um ciclo pontual de maus resultados. O colapso de uma das mais tradicionais potências do futebol europeu tem raízes profundas, diagnosticadas há mais de uma década em um relatório de 900 páginas elaborado por Roberto Baggio e ignorado pela federação italiana.

O documento, apresentado em 2011 após meses de análise, mapeava problemas estruturais no futebol do país e sugeria mudanças para evitar o declínio. Nada foi implementado. Como resultado, a Itália vive um cenário de repetidos fracassos, com eliminações traumáticas para seleções como Suécia, Macedônia do Norte e, mais recentemente, Bósnia, consolidando o maior jejum da história recente da Azzurra em Copas do Mundo.

Queda da Serie A e perda de protagonismo

Parte da explicação passa pelo enfraquecimento da Serie A nas últimas duas décadas. Clubes que dominaram a Europa nos anos 1990 e 2000 perderam espaço para novas potências financeiras, como PSG, Manchester City e Chelsea. A liga italiana não acompanhou o ritmo de investimento e modernização, o que impactou diretamente a qualidade dos jogadores formados e o nível competitivo interno.

Esse declínio refletiu na seleção, historicamente construída a partir da força dos clubes locais. A base sólida deu lugar a um sistema menos competitivo e menos capaz de desenvolver talentos de elite, especialmente no setor ofensivo.

Se a Itália ainda mantém tradição em goleiros e defensores, o mesmo não se pode dizer do ataque. A sucessão de nomes históricos — como Baggio, Totti, Del Piero e Inzaghi — não teve continuidade. A atual geração carece de protagonistas globais, e os números confirmam essa queda de produção.

Na última década, apenas dois italianos foram artilheiros da Serie A. Em contraste, no início dos anos 2000, esse número era significativamente maior. O espaço cada vez mais ocupado por estrangeiros — hoje cerca de 68,5% dos jogadores da liga — também limita o desenvolvimento de talentos locais.

Além disso, há críticas ao modelo de formação de base. Segundo especialistas, jovens são inseridos precocemente em estruturas pouco profissionalizadas, muitas vezes conduzidas por familiares, o que compromete o desenvolvimento técnico e tático.

Outro fator é a dificuldade de adaptação ao futebol moderno. O tradicional catenaccio, marca histórica do futebol italiano, permaneceu enraizado por tempo demais, enquanto outras escolas evoluíram para modelos mais dinâmicos e ofensivos. A resistência a essas mudanças contribuiu para a perda de competitividade internacional, especialmente em um cenário cada vez mais veloz e técnico.

Instabilidade no comando e falta de direção

A sucessão de treinadores também evidencia a ausência de um projeto consistente. Nomes experientes passaram pela seleção, mas sem continuidade ou resultados duradouros. Mesmo conquistas pontuais, como a Eurocopa de 2020, não foram suficientes para mascarar a fragilidade estrutural.

Sem uma linha clara de desenvolvimento, a Itália alterna ideias e modelos sem consolidar uma identidade competitiva.

O relatório de Baggio, hoje visto como um alerta precoce, simboliza o maior erro recente do futebol italiano: reconhecer os problemas, mas não agir. A demissão do ex-jogador, frustrado com a falta de resposta da federação, marcou o abandono de uma oportunidade de reforma profunda.