Vida Esportiva

Menos jogos, maior ênfase nos clássicos: como os Estaduais tentam se adaptar ao novo calendário do futebol brasileiro

Federações escolheram formatos diferentes, mas mantiveram intactos os jogos que mexem com as rivalidades locais

Agência O Globo - 08/01/2026
Menos jogos, maior ênfase nos clássicos: como os Estaduais tentam se adaptar ao novo calendário do futebol brasileiro
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A bola já rola pelos Estaduais. O pontapé inicial foi dado na última terça-feira no Cearense, no Catarinense e no Paranaense. No fim de semana, outros também darão a largada, como o Paulista, o Carioca, o Mineiro e o Gaúcho. O início já nos primeiros dias do ano não é a única novidade. A temporada de 2026 marca um novo momento para os torneios mais tradicionais do futebol brasileiro. Antes protagonistas do calendário até fim de março, agora terão a concorrência da Série A do Brasileirão, que começa no dia 28. E ainda sofreram redução para 11 datas em sua maioria.

São tempos de readaptação para os Estaduais. Principalmente aqueles com clubes da elite nacional. A maioria das federações precisou mudar os formatos. As principais mudanças podem ser vistas nos Campeonatos Carioca, Catarinense, Paranaense e Paulista. Nos três primeiros, a fase de classificação era disputada todos contra todos. Agora, os 12 participantes foram divididos em dois grupos de seis, que jogarão entre si.

Este, aliás, se tornou o formato mais comum, dadas as poucas possibilidades que o limite de datas permite. Mas algumas federações conseguiram fazer diferente.

O Paulista buscou inspiração na Champions League. Saem os grupos e entra a fase de liga, com cada uma das 16 equipes disputando oito partidas antes do mata-mata. No fim, avançam os oito que fizerem mais pontos.

Alguns Estaduais sofreram mudanças mais sutis, trocando uma primeira fase de três grupos por uma com dois — são os casos do Gaúcho e do Paraense. Outros conseguiram manter a fórmula de todos contra todos, como o Pernambucano e o Baiano.

Com a necessidade de encurtar seus torneios, as federações apostaram nos clássicos para mantê-los atrativos. Os novos formatos reduziram jogos entre grandes e pequenos, o que deu ainda mais destaque aos choques de maior rivalidade.

Em Santa Catarina, a divisão dos grupos garantiu que a primeira fase tenha os duelos de Avaí contra Figueirense e Criciúma, assim como Chapecoense x Joinville. O Gaúcho não deixará de ter Internacional x Grêmio e Caxias x Juventude.

Apesar da mudança de formato, Remo x Paysandu e São Raimundo x São Francisco estão garantidos no Pará. Assim como em São Paulo, a redução de 12 para oito jogos na fase de classificação não impedirá os confrontos entre os quatro grandes e nem o sempre quente Guarani x Ponte Preta.

O Rio é a exceção. Nem todos os clássicos irão ocorrer na primeira fase.

A aposta nas rivalidades é clara. As federações tentam preservar o interesse do torcedor e, consequentemente, dos patrocinadores e das TVs. Ao mesmo tempo, buscam evitar que os clubes da Série A priorizem o Brasileiro e poupem os titulares em toda a fase de classificação.

“O futebol, hoje, é cada vez mais estratégia. E o Paulistão segue sendo vitrine, termômetro e palco de grandes jogos desde o início da temporada. Das oito rodadas da primeira fase, teremos clássicos em seis delas: apenas a primeira e a última não contarão com clássicos. A nova fórmula é mais emocionante, onde cada jogo importa muito”, defende a federação paulista: “Renovamos acordos com os detentores e atraímos novos patrocinadores. Isso mostra confiança e otimismo do mercado em um produto bem organizado, atraente e emocionante”.

De acordo com o mercado publicitário, o novo calendário não afetou o interesse dos patrocinadores. As cotas foram vendidas, assim como os acordos de televisionamento. Ao menos nesta primeira temporada. O interesse do público, principalmente depois que o Brasileiro começar, deve ditar o caminho nos próximos anos.

— Desde 2021, comercializamos os ativos do Campeonato Mineiro. Mais uma vez, não sobrou nenhuma cota comercial. Além dele, conseguimos vender, de forma inédita, produtos de outros três estaduais. Não resta dúvida de que o produto ainda tem sua força regional. Não acredito que isso se perderá — afirma Renê Salviano, CEO da agência Heatmap:

— São investimentos totalmente diferentes. E estadual sempre foi e sempre será uma forma direta de diálogo com uma comunidade direcionada. Tudo isso a um custo totalmente viável quando se trata do esporte número um do país.

O publicitário aponta para um diferencial dos estaduais em relação às competições nacionais. Sua visibilidade local tende a ser mais interessante para marcas regionais ou para as maiores que querem se comunicar com um público local.

— Ocorrer concomitantemente aos campeonatos nacionais não agrega aos campeonatos regionais. Entretanto, os campeonatos regionais são tradicionais, é parte do nosso futebol, da nossa cultura, o povo brasileiro gosta, e isso não vai mudar. Rivalidades regionais são anualmente testadas nesses campeonatos — pontuou Fábio Wolff, sócio da agência Wolff Sports.

Com estas mudanças, os maiores prejudicados acabaram sendo os clubes menores, já que farão menos duelos contra os grandes — justamente aqueles que lhes garantem visibilidade para patrocínios pontuais e, em alguns casos, boas bilheterias.

Responsável pelo novo calendário, a CBF tentou compensar. Aumentou o número de vagas por estado na Copa do Brasil, que paga milhões em premiações por cada fase disputada, e na Série D, garantindo um calendário maior e mais times. Além disso, remodelou os torneios regionais, ampliando os participantes daqueles que já existiam e criando a Copa Sul-Sudeste.