Vida e Saúde
Mais da metade dos jovens se arrepende de procedimentos estéticos; especialista alerta para 'dismorfia da selfie'
Pesquisa aponta que 62% dos integrantes da geração Z submetidos a intervenções estéticas buscam amenizar sinais de envelhecimento
O Brasil lidera o ranking mundial de cirurgias plásticas, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps). Ao mesmo tempo, cresce entre os jovens a procura por procedimentos voltados à aparência e ao combate precoce dos sinais de envelhecimento.
Uma pesquisa da Opinion Box aponta que 62% dos integrantes da geração Z submetidos a intervenções estéticas buscam amenizar sinais da idade. Entre os entrevistados que realizaram alterações físicas de longa duração, 52% afirmaram ter se arrependido.
Para Ludmilla Furtado, coordenadora do curso de Psicologia da Uniabeu, os dados refletem uma nova manifestação da insatisfação corporal, intensificada pelo uso constante de filtros e pelas imagens idealizadas nas redes sociais.
Popularizado como “dismorfia da selfie”, o fenômeno ocorre quando a percepção da própria aparência passa a ser influenciada por padrões digitais difíceis ou impossíveis de alcançar.
“O problema não é a selfie, mas a transformação de uma imagem editada em um ideal de beleza. O jovem deixa de buscar quem é para tentar se tornar uma versão que nem existe”, explica Ludmilla.
Segundo o levantamento, quase 70% dos jovens relacionam a felicidade à aparência. Para a psicóloga, condicionar a autoestima à imagem pode aumentar a instabilidade emocional e a vulnerabilidade a quadros de ansiedade e depressão.
O índice de arrependimento após mudanças duradouras na aparência também pode indicar uma diferença entre a intervenção realizada e a origem do sofrimento.
“Esse arrependimento revela uma ilusão: acreditar que um procedimento estético resolve um sofrimento emocional. Quando a causa da insatisfação é psíquica, mudar o rosto não altera a forma como a pessoa se vê e pode apenas deslocar o sofrimento”, afirma.
Cultura da juventude e políticas públicas
A procura precoce por tratamentos antienvelhecimento também reflete, segundo a especialista, uma cultura que associa juventude a valor e envelhecimento a fracasso. Nas plataformas digitais, a aparência frequentemente se transforma em critério de aceitação social.
A psicoterapia é uma das principais formas de tratamento para pessoas que apresentam sofrimento relacionado à própria imagem. Ludmilla ressalta, no entanto, que o problema não deve ser tratado apenas no âmbito individual.
“Os padrões de beleza são atravessados por questões sociais, raciais e de classe. Defender a saúde mental também significa ampliar o acesso ao cuidado psicológico no SUS e promover uma educação crítica sobre o corpo e a internet”, conclui.
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