Vida e Saúde

O que é looksmaxxing? Prática de exageros estéticos se populariza entre jovens e acende alerta para a saúde

Movimento cresce entre adolescentes e jovens, impulsionado por redes sociais e por discursos de autoafirmação ligados à aparência

Agência O Globo - 16/06/2026
O que é looksmaxxing? Prática de exageros estéticos se populariza entre jovens e acende alerta para a saúde
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Nas últimas semanas, o caso de Ronan, influenciador que se define como looksmaxxer, ganhou repercussão após ele ser impedido de embarcar em um voo depois de passar por uma cirurgia estética na Tailândia. Segundo relatos, comissários avaliaram que ele aparentava estar debilitado e preferiram convidá-lo a se retirar da aeronave. Ronan ainda levou alguns dias para conseguir voltar para casa.

Entenda

Ronan já é uma figura conhecida nas redes sociais. Em seu perfil, ele publica as cirurgias plásticas que realiza, uma após a outra, mostrando não apenas o resultado de cada intervenção, mas também o processo clínico e a recuperação. Em algumas imagens, seu rosto chega a ficar inexpressivo. No Instagram, ele se apresenta como adepto do looksmaxxing.

— No movimento looksmaxxing, chama atenção a tentativa de alcançar padrões estéticos muitas vezes irreais, frequentemente amplificados por redes sociais, filtros digitais e imagens altamente editadas. Em alguns casos, observa-se uma busca contínua por mudanças, mesmo quando já existe um resultado estético satisfatório — explica o cirurgião plástico André Maranhão, diretor do Departamento de Eventos Científicos da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

O looksmaxxing é um movimento que atinge especialmente adolescentes e jovens que dizem buscar o “máximo da aparência física”, considerada por eles a forma mais atraente possível para as mulheres. O termo e seus padrões têm raízes em grupos autodenominados incel, sigla para “involuntariamente celibatários”, e em outros ambientes associados à chamada machosfera.

Entre os critérios valorizados pelo movimento estão linhas de maxilar muito marcadas, olhos com formato específico — como os chamados “olhos de caçador”, levemente inclinados para cima — e um físico musculoso. A busca por esse padrão inclui práticas intensas de exercícios, dietas radicais e, em alguns casos, intervenções estéticas e cirúrgicas.

Embora não seja um fenômeno recente, com registros nas redes sociais há pelo menos dez anos, o looksmaxxing ganhou força especialmente no TikTok. Para “pontuar” dentro dos critérios estabelecidos pelo próprio grupo, jovens e adultos recorrem a tratamentos estéticos, produtos vendidos como milagrosos e até a cirurgias plásticas, como no caso de Ronan.

Os adeptos classificam o primeiro estágio das práticas como softmaxxing, termo usado para definir “melhorias leves”, consideradas naturais, reversíveis e mais acessíveis. Elas vão do uso de cosméticos e mudanças no corte de cabelo e barba à adoção de rotinas de exercícios e dietas.

Já os procedimentos mais avançados são chamados de hardmaxxing e incluem intervenções estéticas invasivas, como preenchimentos e cirurgias. Em alguns vídeos, homens chegam a ensinar práticas de automutilação, como bater no próprio rosto com martelo ou forçar a região dos olhos com instrumentos, o que aumenta o alerta de especialistas.

Cenário no Brasil

No Brasil, a morte recente do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, acendeu um alerta na opinião pública sobre a busca de jovens por corpos considerados irreais e sobre o uso de anabolizantes e outros produtos. O atleta havia impressionado colegas ao relatar que ganhou 20 kg em apenas dois dias.

Apesar de ainda não estar amplamente difundida no país, a tendência já preocupa pais, mães e profissionais de saúde.

— A cirurgia plástica possui limites anatômicos e biológicos. Existe um ponto em que novas intervenções deixam de agregar benefício e passam a aumentar riscos, podendo comprometer a naturalidade, a função e até a segurança do paciente. O papel do cirurgião plástico não é apenas executar procedimentos. Temos a responsabilidade de avaliar se a cirurgia realmente trará benefício ao paciente. Quando identificamos expectativas incompatíveis com a realidade, insatisfação persistente após múltiplas cirurgias ou sinais sugestivos de transtorno dismórfico corporal, a conduta mais ética pode ser justamente não operar. A avaliação da saúde emocional faz parte da boa prática médica — completa Maranhão.

O médico destaca ainda que a maioria dos homens que procura cirurgia plástica busca resultados discretos, naturais e compatíveis com a própria identidade.

Fora do Brasil, especialistas também alertam para o risco de a prática deixar de ser vista como uma preocupação equilibrada com a aparência e se transformar em compulsão, com comportamentos perigosos para a saúde e para a integridade física dos jovens.

À primeira vista, o looksmaxxing poderia ser interpretado apenas como uma onda de vaidade masculina, fenômeno que tem crescido no mundo. No entanto, parte da prática se apoia em discursos de comunidades incel, que defendem a ideia de que o interesse feminino é exclusivamente, ou em grande medida, baseado na aparência física dos homens. Essa narrativa pode estimular ressentimento e ódio contra mulheres, especialmente entre jovens no início da vida sexual, fase em que muitos começam a lidar com experiências de rejeição.

O professor de psicologia Andrew Thomas, da Universidade de Swansea, destacou a importância de suporte especializado em seu estudo “A psicologia do acasalamento dos Incels (Celibatários Involuntários): Infortúnios, Equívocos e Representações Erradas”, publicado na revista científica The Journal of Sex Research.

“Nossas descobertas destacam a importância de um suporte personalizado à saúde mental para incels, pois eles parecem apresentar erros de pensamento específicos relacionados às relações sexuais que podem impactar seus relacionamentos interpessoais. Esses podem ser direcionados por meio de intervenções baseadas em terapia cognitivo-comportamental para ajudar a corrigir esses erros na leitura da mente e interromper o viés de confirmação que alimenta suas crenças tóxicas”, afirmou o pesquisador, em entrevista ao site da própria universidade.