Vida e Saúde

Angelita Gama: trajetória da pioneira da coloproctologia no Brasil

Médica era referência mundial no tratamento do câncer de reto

Agência O Globo - 31/05/2026
Angelita Gama: trajetória da pioneira da coloproctologia no Brasil
Prof.ª Dra. Angelita Habr-Gama - Foto: Reprodução / Instagram

Prof.ª Dra. Angelita Habr-Gama, uma das maiores referências da medicina brasileira e pioneira da coloproctologia no país, faleceu neste sábado, aos 94 anos, conforme informou o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. A médica estava internada na instituição desde 6 de maio.

Reconhecida internacionalmente, Angelita era professora, pesquisadora e cirurgiã coloproctologista. Atuava no Centro Especializado em Aparelho Digestivo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e construiu uma carreira marcada por pioneirismo acadêmico e contribuições decisivas ao tratamento do câncer de reto.

Nascida na Ilha de Marajó, no Pará, filha de imigrantes libaneses, Angelita chegou a São Paulo aos 6 anos. Graduou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) aos 19 anos, onde também se especializou em cirurgia geral e do aparelho digestivo, dedicando-se à carreira universitária e obtendo o título de doutora.

Na FMUSP, conquistou o título de livre-docente. No Hospital das Clínicas da FMUSP, iniciou como médica assistente voluntária e, ao longo da trajetória, foi chefe da disciplina de coloproctologia do Departamento de Gastroenterologia, professora titular da disciplina e diretora técnica da Divisão de Clínica Cirúrgica.

Angelita foi a primeira mulher a se tornar titular em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP, a primeira brasileira aceita pela Sociedade Americana de Cirurgia e a primeira premiada pela Sociedade Europeia de Cirurgia.

Também presidiu a Sociedade Brasileira e a Sociedade Latino-Americana de Coloproctologia, além do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva, e foi vice-presidente do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Em 2020, enfrentou 50 dias de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) após contrair Covid-19. Recuperada, rapidamente voltou a atender e operar. Ao longo da carreira, recebeu mais de 50 prêmios nacionais e internacionais e publicou mais de 200 artigos científicos em revistas indexadas no PubMed.

Angelita integrou o ranking Top 2% Scientists, elaborado pela Universidade de Stanford (EUA) e pela editora Elsevier, que reconhece os especialistas mais influentes do mundo, com base no impacto e relevância de suas pesquisas.

Em 2023, tornou-se a primeira mulher no mundo a receber a medalha Bigelow, honraria da Sociedade de Cirurgia de Boston (EUA) concedida a cirurgiões com destacada contribuição científica e no ensino da cirurgia.

Entre suas principais contribuições para pacientes com câncer de cólon e reto, destaca-se a estratégia "Watch and Wait" (Observar e Esperar), método idealizado por Angelita em 1991. A abordagem oferece alternativa ao tratamento cirúrgico radical para pacientes com câncer distal do reto que apresentam resposta clínica completa após rádio e quimioterapia, propondo acompanhamento rigoroso com consultas e exames frequentes.