Vida e Saúde

Hantavírus: entenda o risco de disseminação da doença após surto em cruzeiro

Especialistas e a OMS afirmam que não há risco de crise global; surto matou três pessoas em navio no Atlântico

Agência O Globo - 08/05/2026
Hantavírus: entenda o risco de disseminação da doença após surto em cruzeiro
Hantavírus

Com cinco casos confirmados e três mortes registradas, o surto de hantavírus — responsável pela hantavirose — ocorrido em um cruzeiro no Atlântico não representa risco para pessoas em terra firme, conforme explicado por especialistas. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o episódio como um incidente “sério”, mas ressaltou que o risco de saúde pública é considerado “baixo”.

Apesar de ser uma doença com desdobramentos graves — a letalidade pode chegar a 50% —, a possibilidade de propagação do hantavírus é limitada. Isso ocorre porque a transmissão acontece principalmente pelo contato com secreções e excrementos de ratos selvagens, sendo a contaminação entre pessoas algo raro e exigência de contato íntimo e prolongado.

O que é o hantavírus e como ele se deixou no cruzeiro?

Segundo o médico infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor da UFMS, os passageiros afetados no navio provavelmente contraíram a doença no mesmo ambiente, devido à exposição a secreções de ratos. A transmissão entre humanos é possível, mas extremamente rara, exigindo contato muito próximo. "Por isso, não há risco de uma epidemia ou pandemia de hantavirose. O surto é um evento isolado e a transmissão entre pessoas é limitada", explica Croda.

Alexandre Naime Barbosa, chefe do serviço de infectologia da Unesp, reforça que a gravidade e a baixa transmissibilidade da doença tornam semelhantes a outros problemas graves, como o Ebola e o Nipah, que provocaram surtos localizados, mas não se transformaram em pandemias. "Quando ocorre o isolamento, como no cruzeiro, a transmissão é interrompida. Vírus que causam sintomas graves ou alta letalidade tendem a ser menos transmissíveis, pois o quadro clínico é rapidamente identificado e tratado", afirma Barbosa. Com atendimento em unidades de terapia intensiva, a tendência é que o número de óbitos diminua.

Cepa do vírus e transmissão no navio

O surto registrado no cruzeiro está relacionado à cepa “Andes”, que normalmente circula entre Chile e Argentina e é a única variante do hantavírus com registro de transmissão entre humanos — ainda que raramente. "Essa cepa também está presente em roedores. Embora possa ocorrer transmissão pessoa a pessoa, é necessário que o contaminado apresente alta carga viral", explica Barbosa.

No caso do cruzeiro, a transmissão rara entre pessoas também é considerada. Segundo o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o primeiro caso foi identificado em 6 de abril, com óbito em 11 de abril. Não houve coleta de amostras para confirmação, pois o quadro era compatível com outras infecções respiratórias.

O segundo óbito foi da esposa do primeiro paciente, que desembarcou na Ilha de Santa Helena, agravou-se durante um voo para Joanesburgo (África do Sul) em 25 de abril e faleceu no dia seguinte. A OMS não detalhou a terceira morte, de uma mulher que apresentou sintomas em 28 de abril e morreu em 2 de maio. Novos casos podem surgir, já que o período de incubação do hantavírus pode ultrapassar seis semanas.

Casos no Brasil

Entre 2007 e 2024, o Brasil registrou 1.386 casos de hantavirose, com 540 óbitos, segundo o Ministério da Saúde. A maioria das ocorrências está relacionada à limpeza de casas e galpões, principalmente em áreas rurais (54%).

Não há tratamento específico nem vacina para o hantavírus. O manejo dos casos é feito com suporte intensivo aos pacientes. Os sintomas evoluem rapidamente e, em geral, a doença se agrava com complicações cardiopulmonares e febre alta.