Vida e Saúde
Hantavírus: Como conhecimento indígena ajudou a desvendar surto mortal de infecção na década de 90 nos EUA
Epidemia na região dos 'Quatro Cantos' intrigou autoridades de saúde americanas em 1993; pistas dadas por anciãos Diné foram decisivas para identificar vírus até então desconhecido em humanos na América do Norte
O hantavírus, causador de uma doença misteriosa e letal começou a atingir membros da comunidade Navajo na região de Four Corners, no sudoeste dos Estados Unidos, em 1993, o pesquisador dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) obteve sem respostas. Para antigos Navajos, no entanto, a origem do problema parecia menos obscura. Ao ouvir conhecimentos tradicionais acumulados ao longo dos séculos, as autoridades de saúde chegam à causa do surto: um vírus até então desconhecido como causador de infecção em humanos na América do Norte.
Hantavírus em cruzeiro:
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A região de Four Corners, ou 'quatro cantos', em português, recebe este nome por marcar o ponto de encontro de quatro estados americanos: Colorado, Novo México, Utah e Arizona. Localizada no Platô do Colorado, uma área é conhecida por paisagens naturais como o Grand Canyon, o Painted Desert e o Zion National Park. Grande parte desse território fica dentro de cerca de 70 mil quilômetros quadrados que compõem a Nação Navajo.
Em maio de 1993, uma região passou a atrair a atenção nacional após a morte de um jovem Navajo. Corredor de maratona e até então saudável, ele viajou com a família na manhã de 14 de maio quando, de forma repentina, começou a sentir extrema falta de ar. A família acionou socorro em um posto de gasolina à beira da estrada. Quando a equipe de emergência chegou, ele já estava em ocorrência de insuficiência respiratória grave. Morreu pouco depois, em um pronto-socorro, vítima de edema pulmonar severo.
A investigação revelou um dado ainda mais alarmante: o jovem viajava para o funeral da noiva, que também havia morrido após um quadro súbito de edema respiratório. Em seguida, as autoridades identificaram outras mortes com sintomas semelhantes: febre e dores musculares, seguidas por uma piora rápida e morte em poucos dias. Em um intervalo de oito semanas, dez pessoas morreram. Um surto já estava em curso.
O que é o hantavírus,
Em 28 de maio, autoridades de saúde do Novo México pediram ajuda ao CDC. A equipe de epidemiologia impede as hipóteses iniciais de três possibilidades: um novo vírus agressivo da gripe, uma toxina ambiental ou um patógeno ainda não reconhecido.
A resposta começou a ganhar forma quando os investigadores se reuniram com anciãos e curandeiros Diné, como os Navajo chamam a si mesmos. Eles consideraram um padrão recorrente relacionado a surtos de doenças. Epidemias semelhantes ocorreram em 1918 e 1933, além de registros ainda mais antigos, anteriores à peste bubônica na Europa. Em geral, esses surtos ocorreram após anos de chuvas acima do normal.
O aumento das precipitações provocado pelo El Niño de 1992-1993 favoreceu uma grande produção de pinhões, alimento importante para roedores locais. Com comida em abundância, a população de roedores cresceu rapidamente. Na tradição Navajo, humanos e camundongos vêm de mundos diferentes e devem ser mantidos separados. A deficiência causada pelo contato excessivo entre espécies pode provocar doenças como a atingia Four Corners.
O que é osteomielite,
Anciões alertaram para o perigo de camundongos-veadeiros e cães-da-pradaria, especialmente pelo contato com seus dejetos. Recomendavam que as roupas contaminadas fossem queimadas e que os alimentos fossem vedados para evitar acesso e contaminação por roedores. Essas informações foram aos investigadores uma das primeiras pistas importantes sobre a identidade do agente infeccioso.
A relação entre o crescimento da população de roedores e o momento do surto foi um avanço crucial. Integrantes da equipe do CDC que tinham experiência internacional em casos semelhantes na Europa e na Ásia observaram semelhanças patológicas entre os pacientes da região de Four Corners e infectados no Hemisfério Oriental. Em ambos os casos, houve perda intensa de fluidos intravasculares, com hemoconcentração — aumento da concentração de células sanguíneas — e elevação de hemoglobina e hematócrito.
Combinadas ao conhecimento transmitido por Diné, essas observações levaram os cientistas a considerar a hipótese de um hantavírus até então desconhecido. Até aquele momento, surtos de hantavírus no Hemisfério Ocidental foram distribuídos apenas em roedores. Ainda assim, a equipe iniciou um amplo programa de captura e análise desses animais.
Clonazepam:
Testes genéticos e de anticorpos, somados a exames clínicos e patológicos detalhados de mais de 1.700 camundongos, confirmaram a suspeita: uma doença misteriosa foi causada por um hantavírus anteriormente desconhecido.
Após identificar o patógeno, os cientistas precisarão nomeá-lo. Na era comum batizar novas doenças ou agentes infecciosos com referência ao local de descoberta ou à época de vítimas conhecidas. Hoje, as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) desencorajam essa prática, por causa dos impactos sociais, psicológicos e econômicos que nomes associados a lugares ou situação podem provocar.
Os Navajo sentiram esse efeito durante o surto de 1993, quando a imprensa passou a chamar a doença de “doença Navajo”. Reservas turísticas foram canceladas, grandes eventos foram transferidos para outras regiões e a economia tribal, já fragilizada, foi duramente afetada. Estereótipos raciais levaram Navajos a serem recusados em estabelecimentos comerciais, e estudantes Navajo fizeram exames médicos para visitar campi universitários.
Inicialmente, os cientistas quiseram chamar o novo patógeno de “hantavírus de Muerto Canyon”, em referência ao local da descoberta. Uma tribo Navajo se opôs ao uso do nome de um lugar sagrado. O vírus então passou a ser chamado de “vírus de Four Corners”, mas os moradores também rejeitaram o nome por temerem a continuidade do estigma. Por fim, o agente causador do surto de 1993 ficou conhecido como “Vírus Sin Nombre”, ou “vírus sem nome”, em espanhol.
Para os Diné, é tabu dizer o nome de uma pessoa querida por quatro dias após sua morte ou falar algo negativo sobre ela; o silêncio é considerado a forma mais respeitosa de luto. Nesse sentido, “Sin Nombre” ganhou também um significado poético: se dar nome a algo pode conferir poder para ferir, negar esse nome seria uma forma de retirar esse poder.
O surto de Four Corners se tornou um exemplo de valor do conhecimento indígena para a ciência. Quando vidas estão em risco, o pesquisador precisa recorrer a todos os recursos disponíveis. Pessoas que vivem há gerações em relação direta com o território podem guardar pistas decisivas sobre a próxima doença infecciosa emergente — ou sobre a próxima descoberta médica. Mas isso só acontece quando a ciência está disposta a ouvir.
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