Vida e Saúde
Exame de sangue para Alzheimer avança na detecção precoce
A possibilidade de detectar alterações associadas ao processo do Alzheimer de forma simples vem mudando o cenário da identificação da doença
O diagnóstico precoce do Alzheimer tornou-se uma das frentes mais promissoras da pesquisa biomédica. Por décadas, a confirmação biológica da doença esteve restrita a métodos caros, invasivos ou de difícil acesso, como o PET cerebral e a análise do líquor. Agora, a possibilidade de identificar alterações associadas ao Alzheimer através de um exame de sangue está transformando esse cenário, tornando a investigação mais simples, acessível e menos invasiva.
Um estudo publicado na revista científica Nature Communications reforça essa perspectiva ao demonstrar que o biomarcador sanguíneo pTau217 pode identificar sinais da doença anos antes do aparecimento dos sintomas, e até mesmo antes de alterações evidentes em exames de imagem.
Conduzida pelo Mass General Brigham, um dos principais sistemas acadêmicos de saúde dos Estados Unidos, ligado à Harvard, a pesquisa acompanhou 317 adultos cognitivamente saudáveis, com idades entre 50 e 90 anos, durante uma média de oito anos. Nesse período, os participantes realizaram exames de sangue para medir o pTau217, além de PET amiloide e tau, e avaliações cognitivas periódicas.
Os resultados indicaram que, entre aqueles com níveis mais altos do biomarcador, a progressão das alterações típicas do Alzheimer foi mais rápida, mesmo quando os exames cerebrais ainda não apontavam anormalidades. Já os participantes que iniciaram o estudo com baixos níveis de pTau217 tiveram baixa probabilidade de acumular quantidades significativas de beta-amiloide nos anos seguintes.
O acúmulo de evidências sobre a eficácia de métodos não invasivos para investigar o Alzheimer ajuda a explicar o crescente interesse de pacientes e familiares pelo tema. Uma pesquisa da Universidade Northwestern, em Chicago, com quase 600 pessoas acompanhadas na atenção primária, mostrou que 85% aceitariam realizar um exame de sangue para avaliar o risco de Alzheimer mediante recomendação médica. Após receberem informações sobre os testes, 94% consideraram importante disponibilizá-los para pessoas com queixas de memória ou raciocínio.
Os dados também sugerem que o uso desses testes exigirá atenção na comunicação dos resultados. Quase três em cada quatro participantes relataram que esperariam sofrimento emocional diante de um resultado positivo. Ainda assim, cerca de 87% afirmaram que, diante de um risco maior, adotariam medidas para melhorar a saúde cerebral, como controle de doenças crônicas, mudanças alimentares e acompanhamento médico regular.
Segundo o patologista clínico Helio Magarinos Torres Filho, diretor médico do Richet Medicina & Diagnóstico e colaborador em pesquisas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), os biomarcadores sanguíneos representam uma mudança significativa na investigação da doença.
— Estamos caminhando para um cenário em que será possível identificar alterações associadas ao Alzheimer de forma mais simples, acessível e menos invasiva. Isso tem potencial para transformar a jornada do paciente, permitindo investigação precoce e planejamento do cuidado — afirma.
Magarinos destaca ainda dados de um estudo brasileiro, também publicado na Nature Communications, conduzido por pesquisadores do IDOR, em que o pTau217 se destacou como um dos biomarcadores sanguíneos mais promissores para auxiliar na investigação do Alzheimer.
O exame conseguiu diferenciar com alta precisão os pacientes que apresentavam, no líquor, alterações compatíveis com a doença. Quando analisado isoladamente, o marcador atingiu índice de acerto de 0,94 em uma escala que vai até 1. Combinado a outro parâmetro biológico, o desempenho subiu para 0,98, resultado considerado excelente.
— Isso significa que o teste se aproximou muito da capacidade dos métodos mais complexos de identificar quem já apresentava sinais biológicos ligados ao Alzheimer — conclui Magarinos.
Foto: https://depositphotos.com/
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