Vida e Saúde

Estudo dinamarquês com 1,5 milhão de crianças não encontra relação entre uso de paracetamol na gravidez e autismo

Pesquisa publicada na JAMA Pediatrics reforça a segurança do paracetamol sob orientação médica e contradiz estudos anteriores

Agência O Globo - 14/04/2026
Estudo dinamarquês com 1,5 milhão de crianças não encontra relação entre uso de paracetamol na gravidez e autismo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Um extenso estudo realizado na Dinamarca, envolvendo mais de 1,5 milhão de crianças, concluiu que o uso de paracetamol — conhecido comercialmente como Tylenol — durante a gravidez não está associado ao aumento do risco de autismo nos filhos. Os resultados, publicados nesta segunda-feira na revista científica JAMA Pediatrics, reforçam evidências recentes que afastam a hipótese de relação causal entre o medicamento e transtornos do neurodesenvolvimento.

A pesquisa analisou dados de nascimentos entre 1997 e 2022, incluindo mais de 31 mil crianças expostas ao medicamento ainda no útero. Entre elas, 1,8% receberam diagnóstico de autismo, contra 3% no grupo não exposto, sem indicação de aumento de risco. O resultado se manteve mesmo após o controle de variáveis como dose e período de uso durante a gestação.

Os achados estão alinhados com estudos recentes e revisões científicas que, ao considerar fatores genéticos e ambientais, também não encontraram associação causal entre o uso do paracetamol e o autismo.

A nova evidência contraria parte da literatura anterior, que sugeria uma possível relação. Em anos anteriores, uma revisão de dezenas de estudos apontou uma associação entre a exposição ao medicamento e distúrbios como autismo e TDAH, mas sem comprovar causa e efeito.

Pesquisadores destacam que o autismo é uma condição complexa, influenciada por múltiplos fatores — especialmente genéticos — e que associações observadas em estudos anteriores podem refletir variáveis não controladas, e não um efeito direto do medicamento.

Repercussão internacional

Autoridades de saúde dos Estados Unidos anunciaram, em setembro de 2025, que a agência reguladora FDA iniciaria uma mudança no rótulo do paracetamol, alertando para uma possível ligação com o autismo. O então presidente americano, Donald Trump, manifestou-se diversas vezes contra o uso do analgésico durante a gravidez.

— Se você está grávida, não tome Tylenol — disse Trump em uma coletiva de imprensa na época. — Não tome Tylenol. Não dê Tylenol ao seu bebê.

Trump afirmou que o medicamento “não é bom” e que o uso durante a gestação estaria associado a “um risco muito aumentado de autismo”, acrescentando que, em alguns casos “medicamente necessários”, o paracetamol ainda poderia ser recomendado durante a gravidez.

O Tylenol é considerado seguro para uso durante a gravidez e pode ter papel importante no alívio da dor e na redução da febre. Ainda assim, após o anúncio de setembro, as prescrições do medicamento para gestantes em prontos-socorros caíram 16% no período inicial analisado, segundo estudo publicado recentemente na revista JAMA Pediatrics.

— As palavras das autoridades de saúde estão afetando o comportamento — afirmou Jeremy Faust, coautor do estudo, médico emergencista do Mass General Brigham e pesquisador de serviços de saúde na Harvard Medical School.

Segundo ele, a taxa de prescrições de Tylenol em emergências caiu até 20% três semanas após o anúncio, antes de recuar para uma redução de cerca de 10%, à medida que o ciclo de notícias mudou e a temporada de vírus respiratórios se intensificou. Não houve alteração nas prescrições entre mulheres da mesma faixa etária que não estavam grávidas, nem redução no uso de outros tratamentos, como fluidos intravenosos ou opioides.

O Tylenol é um dos poucos medicamentos considerados seguros durante a gestação.

— É a opção mais segura para controle da dor e redução da febre — concluiu Faust.