Vida e Saúde
Aromaterapia: o que a neurociência já conseguiu explicar sobre a ação dos aromas no cérebro
Conjunto de revisões e estudos experimentais vem mostrando que certos óleos essenciais podem modular respostas reais do organismo
Durante muito tempo, falar sobre aromaterapia no contexto científico soava quase como uma contradição. Os aromas estavam associados ao bem-estar subjetivo, tradição ancestral ou experiências sensoriais difíceis de medir. Porém, um conjunto de revisões e estudos experimentais vem mostrando que certos óleos essenciais podem respostas modulares reais do organismo — com resultados que vão desde a redução de estresse e ansiedade, acompanhados de mudanças em marcadores como frequência cardíaca e pressão arterial, até alterações mensuráveis na atividade cerebral associadas a estados de relaxamento vigilante, atenção e flexibilidade cognitiva.
A resistência aos aromas não surgiu apenas da ausência de dados, mas de uma herança histórica. Desde o século XIX, o olfato foi considerado um sentido “menor” na posição científica ocidental. A partir de interpretações anatômicas feitas pelo médico francês, anatomista e antropólogo Paul Broca (1824-1880), fundou-se a ideia de que a evolução da racionalidade humana estaria associada à redução do sistema olfativo, como se o cheiro pertencesse ao domínio do instinto e não da cognição. Essa hipótese, hoje ultrapassada, contribuiu para que o olfato fosse marginalizado em áreas como a medicina, a psicologia e a neurociência por mais de um século.
Pesquisas contemporâneas demonstraram o oposto: o sistema olfativo humano é altamente moderno e profundamente integrado às redes organizacionais de emoção, tomada de decisão e regulação fisiológica. Uma simples inalação de um aroma é capaz de interagir com estruturas como amígdala, hipocampo, córtex orbitofrontal e ínsula, regiões centrais para o comportamento humano. Com isso, esse cenário está mudando de forma consistente. Hoje, a neurociência está começando a mapear como as moléculas aromáticas presentes nos óleos essenciais interagem com o sistema nervoso e podem influenciar estados emocionais e fisiológicos.
Do misticismo ao mecanismo
Uma revisão narrativa, publicada em 2025 e indexada no PubMed, intitulada “A Narrative Review of Aromatherapy: Mechanisms and Clinical Value in Physiological and Psychological Regulation”, sintetizou o que a literatura científica tem revelado até o momento sobre os mecanismos neurobiológicos envolvidos na aromaterapia. Trata-se de um marco importante porque desloca o debate do campo do “funciona ou não funciona” para uma pergunta mais profunda: quais sistemas aparentes são modulados pelos aromas e por quais vias isso pode ocorrer?
Essa revisão permitiu aos autores organizar dados sobre os efeitos fisiológicos e psicológicos dos aromas e a base neurobiológica por trás deles. Ela também indica que pesquisas futuras aprofundarão mecanismos de ação, biodisponibilidade dos compostos aromáticos e segurança a longo prazo, para estimar com mais precisão o potencial terapêutico da aromaterapia. O trabalho foi liderado por um grupo de pesquisadores afiliados a instituições como Shenzhen Traditional Chinese Medicine Hospital e Southwest Medical University, na China.
O caminho direto do aroma ao cérebro
O olfato possui uma via privilegiada de acesso ao cérebro. Quando inalamos um aroma, as moléculas odoríferas ativam receptores no epitélio olfatório, que se conectam diretamente ao bulbo olfatório. A partir de Dali, a informação segue para estruturas do sistema límbico — como amígdala e hipocampo — regiões envolvidas em emoção, memória e motivação, sem passar anteriormente pelo tálamo, filtro de outros sentidos.
Essa característica anatômica explica por que os aromas têm capacidade de evocar emoções, memórias e estados fisiológicos de forma rápida e muitas vezes inconsciente. A revisão destaca que essa ativação límbica está associada à modulação de neurotransmissores centrais para a regulação emocional e cognitiva, como serotonina, dopamina, GABA e noradrenalina.
Além dessa rota neural direta, a inalação de óleos essenciais envolve também uma rota fisiológica complementar. Parte das moléculas aromáticas inaladas alcança os pulmões, onde pode atravessar o epitélio respiratório e entrar na circulação sistêmica. Isso significa que o efeito dos aromas não se restringe a uma experiência simbólica ou subjetiva. Há também um efeito observável no organismo, em que compostos voláteis podem alcançar tecidos e interferências psicológicas. Essas duas vias, que chamamos de olfato e respiratória, ajudam a compreender por que a aromaterapia desperta um crescente interesse científico.
Ansiedade, humor e regulação do sistema nervoso
Entre os achados mais consistentes revisados estão os efeitos ansiolíticos e moduladores do estresse de certos óleos essenciais, especialmente aqueles ricos em monoterpenos e ésteres. O linalol, por exemplo, presente na lavanda, demonstra interação com receptores GABAérgicos, o que ajuda a entender a redução da excitabilidade neuronal e a sensação de calma relacionada em diferentes estudos clínicos.
A revisão também aponta evidências de efeitos antidepressivos leves a moderados, associados à influência dos aromas sobre circuitos dopaminérgicos e serotoninérgicos. Importante ressaltar: não se trata de substituir tratamentos médicos, mas de compreender como os estímulos olfativos podem atuar como moduladores do sistema nervoso autônomo e do eixo estresse–emoção, especialmente em contextos de ansiedade, fadiga mental e sobrecarga cognitiva.
Em um estudo clínico anterior com 140 participantes, a inalação do óleo essencial de lavanda a cada oito horas, durante quatro semanas, mostrou-se capaz de prevenir a depressão, a ansiedade e o estresse das mulheres no pós-parto, reduzido de forma específica as escores dos testes para essas condições. As pontuações das escalas utilizadas foram menores até três meses após o início da intervenção, em comparação ao grupo controle, indicando que a inalação da lavanda produzida produz efeitos sustentados ao longo do tempo.
Apesar dessas promessas, ainda não há consenso de resultados científicos claros sobre por quanto tempo essas modulações neuroemocionais persistem após o termo do estímulo aromático. Essa é uma lacuna relevante para pesquisas futuras, uma vez que muitos estudos se concentram em efeitos imediatos ou de curto prazo, coletados durante ou logo após a inalação ou aplicação tópica dos óleos essenciais.
Aromas e função cognitiva: o cérebro em tempo real
Um segundo eixo relevante dessa discussão emerge de estudos que conectam a aromaterapia à neurofisiologia mensurável. O artigo, publicado no Journal of Medical Signals & Sensors, traz dados interessantes ao usar a eletroencefalografia (EEG) para avaliar as alterações nos padrões de ondas cerebrais (como theta, alpha e beta) associadas à atenção, relaxamento vigilante e à flexibilidade cognitiva após a inalação do óleo essencial de lavanda. É importante destacar, contudo, que esse estudo, assim como os demais aqui relatados, foi antecipado com amostras pequenas de participantes, característica comum em pesquisas experimentais dessa natureza, o que exige cautela na generalização dos resultados.
Os resultados revelam mudanças significativas na atividade cerebral, especialmente o aumento das ondas theta, alfa e beta, padrões relacionados a estados de atenção, relaxamento vigilante e flexibilidade cognitiva. Em termos práticos, os participantes apresentaram melhor desempenho em tarefas cognitivas, demonstrando que o óleo essencial de lavanda pode facilitar a flexibilidade cognitiva em tarefas que desbloqueiam atenção sustentada e alternância de foco mental.
Em consonância com esses achados, um estudo anterior demonstrou que o óleo essencial de lavanda aumenta as ondas Theta e Alpha, além de diminuir a estimulação autonômica, como a pressão arterial e a frequência cardíaca, evidenciando seus efeitos relaxantes através da inalação.
Em outro estudo-piloto com jovens saudáveis, a difusão ambiental do óleo essencial de lavanda durante o sono promoveu melhoria tanto na percepção subjetiva da qualidade do sono quanto em intervalos objetivos: observou-se redução da atividade alfa no estado de vigília e aumento das ondas delta durante o sono de ondas lentas. Esses resultados indicam que esse aroma pode atuar como uma intervenção terapêutica em potencial para distúrbios do sono.
Esses achados encontrados para superar a visão simplista de que os aromas “sedam” indiscriminadamente o sistema nervoso. Ao contrário, a neurociência evidencia que eles podem reorganizar a dinâmica dos padrões de ativação cerebral, favorecendo estados mentais específicos de acordo com o contexto e com a natureza do estímulo olfativo. Novas pesquisas, com amostras mais amplas, são permitidas para consolidar essas evidências.
A literatura atual confirma que aromas não curam doenças por si só, mas podem atuar como reguladores do sistema nervoso, influenciando humor, atenção, resposta ao estresse e percepção de bem-estar. Em um mundo marcado por hiperestimulação, ansiedade crônica e fadiga mental, compreender esses mecanismos deixam de ser um luxo acadêmico e passa a ser uma ferramenta relevante de saúde integrativa.
*Fernando Gomes é Professor Livre-Docente de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)
*Daiana Petry é Neurocientista, aromaterapeuta e perfumista botânica da Universidade do Sul de Santa Catarina (UniSul)
*Este artigo foi republicado por The Conversation sob licença Creative Commons.
Foto: https://depositphotos.com/
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