Vida e Saúde
Ayahuasca psicodélica mostra potencial como terapia para depressão em estudo
Pesquisa foi realizada com 34 participantes e os resultados foram publicados na revista Nature
Um novo estudo aponta que a dimetiltriptamina (DMT), um dos principais componentes psicoativos tradicionalmente presentes nos rituais amazônicos da ayahuasca, pode representar uma alternativa promissora no tratamento da depressão.
A pesquisa, publicada neste mês na revista Nature, envolveu 34 participantes adultos. Destes, 17 receberam uma injeção de um composto sintético de DMT desenvolvido pela Small Pharma (atualmente Cybin UK), patrocinadora do estudo, enquanto os outros 17 receberam placebo. Todos foram acompanhados por psicoterapeutas durante o processo.
Os resultados indicaram que, apenas duas semanas após a administração da substância, os participantes que receberam DMT apresentaram redução significativamente maior nos sintomas depressivos em comparação ao grupo placebo.
Tommaso Barba, doutorando no Imperial College London e um dos autores do estudo, ressalta que a pesquisa é preliminar e limitada pelo número de participantes. “Ainda há muito a ser estudado, mas os resultados são promissores”, afirmou Barba.
Diferentemente da ayahuasca tradicional, consumida em forma de chá preparado com plantas psicodélicas e enzimas que retardam a metabolização dos compostos – o que frequentemente provoca náuseas e vômitos –, a formulação sintética utilizada no estudo proporciona uma experiência psicodélica intensa e breve, de cerca de 30 minutos, sem induzir vômitos.
A terapia assistida por psicodélicos, à semelhança dos rituais com ayahuasca, envolve um facilitador que orienta os participantes durante a experiência, com o objetivo de ajudá-los a processar emoções e experiências. No caso da pesquisa clínica, esse acompanhamento é feito por psicoterapeutas, diferentemente dos rituais tradicionais, que utilizam cânticos e práticas espirituais.
Em 2019, a Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória dos Estados Unidos, aprovou o Spravato, um spray nasal à base de cetamina para depressão resistente – tornando-se o primeiro tratamento psicodélico aprovado pela FDA para depressão. Outros ensaios clínicos com substâncias como a psilocibina (presente nos chamados "cogumelos mágicos") e a MDMA também estão em andamento. Recentemente, a FDA recusou-se a aprovar a terapia assistida por MDMA para o tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), alegando preocupações éticas e dúvidas quanto à confiabilidade dos dados apresentados.
Apesar dos avanços, os pesquisadores destacam que ainda há desafios a serem superados na terapia psicodélica. Embora o tratamento com DMT seja mais rápido do que outras alternativas, ele exige aplicação em ambiente clínico, via injeção e sob supervisão de um terapeuta, o que pode não ser viável ou atraente para todos os pacientes.
Barba reforça que nem todos desejam passar por experiências psicodélicas intensas e potencialmente desconfortáveis. Ele também enfatiza que a terapia não deve ser vista como solução única para a depressão, mas sim como parte de um processo terapêutico, envolvendo acompanhamento profissional e disposição para enfrentar mudanças significativas.
“Por exemplo, se a DMT ajudar o paciente a perceber que seu trabalho contribui para a depressão, ele provavelmente precisará tomar decisões importantes, como pedir demissão, para alcançar uma melhora real”, exemplifica o pesquisador.
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