Vida e Saúde
Própolis verde brasileira demonstra potencial no combate a doenças neurodegenerativas
Estudo integra doutorado do farmacêutico Gabriel Rocha Caldas e aponta novas perspectivas no controle dessas enfermidades
Conhecida popularmente pelo uso contra dores de garganta, a própolis é uma substância produzida pelas abelhas para proteger e higienizar a colmeia. Além de seu reconhecido poder antibacteriano, pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP descobriram uma nova aplicação medicinal para a própolis verde, evidenciando seu potencial no combate a doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson.
A própolis verde é obtida a partir da resina do alecrim-do-campo (Baccharis dracunculifolia), planta nativa do Brasil encontrada no Cerrado e na Mata Atlântica. As abelhas misturam essa resina à saliva e à cera, originando a própolis. No estudo, os compostos principais — Artepelin C e Bacarina — foram isolados e analisados, revelando a capacidade de induzir diferenciação neuronal, estimular conexões entre neurônios e exercer ação antiapoptótica, reduzindo a morte celular.
Os achados fazem parte da pesquisa de doutorado do farmacêutico Gabriel Rocha Caldas, orientado pelo professor Jairo Kenupp Bastos na FCFRP. Segundo Caldas, os resultados abrem uma linha promissora para a prevenção e o controle de doenças do sistema nervoso, podendo impulsionar novas pesquisas.
Processo de pesquisa
Artepelin C e Bacarina foram isolados da própolis verde por meio de técnicas cromatográficas, que funcionam como uma "peneiração química". "Utilizamos solventes e diferentes métodos cromatográficos para separar a própolis em frações menores, até isolar cada molécula pura. É como separar peças misturadas em uma caixa até restar apenas o que se deseja", explicou Caldas ao Jornal da USP.
Após a separação, os pesquisadores aplicaram modelagem computacional e experimentos com células PC12, um modelo de neurônios de rato, para entender o funcionamento dos compostos no organismo.
Resultados e aplicações
A modelagem computacional permitiu avaliar propriedades físico-químicas dos compostos, como solubilidade, permeabilidade e a capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica — membrana que protege o cérebro e a medula espinhal. "Isso nos ajuda a prever se essas moléculas podem atingir o tecido nervoso em um organismo vivo. Já os testes com células PC12 mostraram, na prática, como os compostos atuam em células neuronais", detalha o pesquisador.
Para facilitar a entrada do Artepelin C no sistema nervoso, foi realizada a acetilação, tornando a molécula mais lipofílica, ou seja, com maior afinidade por gorduras e solventes não polares.
Nos experimentos, as células tratadas com os compostos da própolis verde passaram a formar neuritos — pequenas projeções que futuramente se transformam em axônios e dendritos, essenciais para a comunicação entre neurônios. "Sem neuritos, não existe comunicação entre células nervosas", destaca Caldas.
A pesquisa também identificou aumento das proteínas sinapsina I e GAP-43, marcadores importantes do crescimento e amadurecimento neuronal. Segundo Caldas, o aumento dessas proteínas indica um estado favorável à regeneração celular, um objetivo fundamental no tratamento de doenças neurodegenerativas.
Outro destaque do estudo foi o potencial antioxidante do Artepelin C e da Bacarina, capazes de neutralizar moléculas reativas de oxigênio, geralmente presentes em excesso em quadros neurodegenerativos.
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