Vida e Saúde

Por que 25% das pessoas não sentem ressaca após beber?

Algumas pessoas relatam acordar bem mesmo após noites de consumo elevado de álcool

Agência O Globo - 17/02/2026
Por que 25% das pessoas não sentem ressaca após beber?
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Matthew Slater, de 34 anos, gostaria de saber como é sentir uma ressaca. Mesmo após consumir uma garrafa de vodca, ele garante que acorda bem no dia seguinte.

— A menos que me conheçam, as pessoas geralmente não acreditam em mim — relata. — É quase senso comum que, ao ingerir muito álcool, o corpo reaja negativamente.

Daniel Adams, de 23 anos, também nunca experimentou os sintomas clássicos de ressaca. Recentemente, após consumir grande quantidade de cerveja e doses de álcool, ele acordou cedo e ainda foi correr seis quilômetros, enquanto seus amigos sofriam com dor e náusea.

Esses casos ilustram um fenômeno reconhecido pela ciência: pessoas "resistentes à ressaca". Nos últimos 15 anos, pesquisadores vêm tentando entender por que algumas pessoas sofrem intensamente após beber, enquanto outras parecem imunes.

Estimar o número exato de resistentes à ressaca é difícil, pois os estudos dependem de relatos subjetivos. O que é uma dor insuportável para um pode ser irrelevante para outro.

Um estudo pioneiro publicado em 2008 revelou que quase um quarto dos participantes não apresentou ressaca após consumo elevado de álcool. Jonathan Howland, professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, explica que o fenômeno foi identificado por acaso, quando se analisava o impacto da bebedeira no desempenho profissional.

Diversas variações do estudo foram realizadas, incluindo universitários de Boston e cadetes da marinha sueca. Os voluntários passavam a noite em laboratório, recebiam doses suficientes para atingir cerca de 0,12 de concentração de álcool no sangue e eram monitorados por profissionais de saúde. Pela manhã, respondiam a questionários sobre tontura, sede e enjoo.

Outros estudos, com diferentes perfis de participantes, confirmaram a média: cerca de 25% das pessoas não sentem ressaca.

— O mesmo número se repetia em diferentes pesquisas — destaca Howland.

Mas por que isso acontece? A resposta ainda não é definitiva. Uma das hipóteses envolve a genética, que influencia a velocidade do metabolismo do álcool. Quem metaboliza mais rápido tende a sofrer menos com ressacas, segundo a neurocientista Ann-Kathrin Stock, da Universidade Técnica de Dresden.

Stock ressalta que a genética pode ser mais determinante em algumas populações. Pessoas de ascendência asiática, por exemplo, costumam relatar ressacas intensas, devido à baixa quantidade de uma enzima que processa o álcool.

Outra teoria sugere que sistemas imunológicos mais frágeis tornam o indivíduo mais suscetível à ressaca, já que o álcool pode provocar inflamação generalizada — daí a sensação de doença após o consumo excessivo.

Além disso, pessoas resistentes à ressaca costumam relatar baixos níveis de ansiedade. Já quem está estressado ou deprimido tende a sofrer mais com os efeitos do álcool, conforme aponta Stock.

Muitos aspectos da ressaca ainda permanecem um mistério. Não se sabe, por exemplo, se quem tem ressacas piores está mais vulnerável a outros efeitos negativos do álcool, ou se a resistência faz com que a pessoa beba mais. Segundo Damaris Rohsenow, professora da Universidade Brown, faltam recursos para aprofundar as pesquisas em laboratório.

Enquanto isso, pessoas como Matthew Slater seguem despertando curiosidade. Apesar de seus amigos sentirem inveja de sua resistência, ele mesmo se pergunta se beberia menos caso também sofresse com os sintomas de uma ressaca.