Vida e Saúde

‘Sou bipolar’: cresce tendência de jovens se autodiagnosticarem com ajuda da IA

Psiquiatras alertam para risco de transformar angústia em transtorno

Agência O Globo - 15/02/2026
‘Sou bipolar’: cresce tendência de jovens se autodiagnosticarem com ajuda da IA
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Uma nova tendência tem preocupado psiquiatras infantojuvenis: adolescentes chegam aos consultórios afirmando ter transtornos como bipolaridade, TDAH ou transtorno de personalidade borderline, muitas vezes baseando-se em pesquisas online ou em respostas fornecidas por inteligência artificial.

A psiquiatra Silvia Ongini observa que esse fenômeno se tornou cada vez mais comum. Segundo ela, muitos jovens acabam transformando angústias típicas da adolescência em rótulos médicos.

— Estou cansada de ouvir: “Sou bipolar”, “Sou borderline” ou “Tenho TDAH”, sem que haja um diagnóstico médico formal. Vejo muitos adolescentes tentando explicar a própria identidade por meio de uma patologia — afirma.

Angústia vira rótulo

Especialistas destacam que o autodiagnóstico não é algo totalmente novo — antes, jovens buscavam respostas em livros ou revistas. A diferença é que, atualmente, as redes sociais e as ferramentas de IA tornaram esse processo instantâneo e amplamente disseminado.

Para Ongini, há um risco de “patologização” da adolescência. Em vez de vivenciar as angústias existenciais próprias da idade, muitos adolescentes acabam enquadrando essas experiências como transtornos psiquiátricos.

— Se pesquisam sobre angústia na internet, frequentemente encontram respostas como ansiedade, depressão ou bipolaridade — explica.

Ao mesmo tempo, ela reconhece que há um aumento real de transtornos mentais entre jovens, além de casos ainda subdiagnosticados.

IA como “segunda opinião”

O psiquiatra Pedro Kestelman, presidente da Associação Argentina de Psiquiatria Infantojuvenil, relata que adolescentes frequentemente recorrem à IA para checar aquilo que ouvem no consultório.

Ele cita o caso de um paciente de 13 anos que, após receber explicações médicas, abriu um chat de IA para confirmar as informações.

— A IA respondeu de forma parecida com o que eu disse, e ele ficou satisfeito — relata.

Kestelman ressalta, porém, que diagnósticos baseados em questionários automatizados precisam ser contextualizados por uma avaliação clínica completa.

Pode haver lado positivo

A psiquiatra Juana Poulisis, especialista em transtornos alimentares, vê um aspecto construtivo nessa tendência. Para ela, o fato de adolescentes chegarem informados pode facilitar o início do tratamento — desde que a IA seja utilizada como ferramenta preliminar, e não como verdade absoluta.

— Hoje os adolescentes estão muito informados. Isso é positivo. O médico vai refinar o diagnóstico — afirma.

Ela alerta, contudo, para o risco da popularização de certos rótulos, como ansiedade e déficit de atenção. É fundamental diferenciar sintomas de transtornos clínicos que exigem tratamento específico.

Busca por identidade

Para Ongini, há também uma dimensão simbólica nesse fenômeno. Se antes os adolescentes buscavam identidade em tribos urbanas, música ou estilo, hoje parte dessa identificação passa pelo “o que eu tenho”.

— Estão buscando o “quem sou eu” no “o que eu sofro”. Quando a identidade se constrói apenas a partir do sofrimento, isso pode se tornar problemático — avalia.

A psiquiatra observa ainda que pais também chegam com autodiagnósticos feitos após buscas online, enquanto outros casos — como atrasos importantes de linguagem — acabam passando despercebidos.