Vida e Saúde

Agonorexia: novo termo descreve efeito colateral das canetas emagrecedoras

Fenômeno é uma forma de anorexia induzida por medicamentos, mais frequente entre quem usa sem orientação médica

Agência O Globo - 13/02/2026
Agonorexia: novo termo descreve efeito colateral das canetas emagrecedoras
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Um efeito colateral preocupante dos análogos de GLP-1 — medicamentos indicados para obesidade e diabetes, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, como Wegovy e Mounjaro — tem chamado a atenção de especialistas e motivou a criação de um novo termo: agonorexia.

O fenômeno, que pode ser entendido como um quadro de anorexia induzida por esses remédios, ainda não é reconhecido oficialmente como diagnóstico, mas já serve para caracterizar um comportamento cada vez mais observado à medida que cresce o uso desses medicamentos.

O termo surgiu nos Estados Unidos e passou a ser utilizado também no Brasil por Clayton Macedo, professor e coordenador do Núcleo de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).

— É quando o medicamento ultrapassa a função de modular o apetite e a saciedade, levando a pessoa a um quadro semelhante à anorexia farmacológica. Ela deixa de sentir fome, esquece de se alimentar e desenvolve aversão à comida. Muitas vezes, exagera nos exercícios físicos e se isola socialmente, evitando eventos com oferta de alimentos. É uma combinação de fatores — explica Macedo.

O professor da Unifesp pretende publicar um artigo científico sobre o tema, definindo critérios para identificar o quadro e orientando sua abordagem na prática clínica. Segundo ele, o perfil tem sido observado principalmente — mas não exclusivamente — em pessoas que utilizam as canetas sem indicação médica:

— Temos visto muitos casos no consultório, sobretudo entre quem faz uso sem recomendação. Muitas dessas pessoas já apresentam distúrbios de autoimagem. Há também aquelas que buscam emagrecimento rápido e utilizam doses elevadas de imediato, em vez de aumentá-las gradualmente, como recomendado, o que resulta em uma supressão excessiva do apetite.

Esses medicamentos atuam no cérebro, regulando vias hipotalâmicas responsáveis pelo apetite e saciedade, além de afetar o sistema de recompensa, reduzindo o prazer associado à alimentação. Também retardam o esvaziamento gástrico, o que contribui para a sensação de saciedade prolongada.

Esse efeito é positivo para pacientes com obesidade que utilizam as medicações com indicação e acompanhamento médico, conforme aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No entanto, quando evolui para um quadro semelhante à agonorexia, diversos riscos à saúde podem surgir, alerta Macedo:

— Pode haver perda acentuada de massa muscular, desnutrição, desidratação, queda de desempenho físico, fadiga e diminuição da imunidade. É fundamental estabelecer critérios para acompanhamento adequado desses pacientes. Trabalhamos para coibir o uso indevido desses medicamentos, que não são destinados a fins estéticos. E, mesmo entre os que têm indicação, se o apetite estiver excessivamente reduzido, a dose precisa ser ajustada pelo médico.

Entre usuários sem obesidade — ou seja, sem indicação formal para o uso dos análogos de GLP-1 — os riscos são ainda maiores. Macedo ressalta que os estudos de segurança desses medicamentos foram realizados apenas com voluntários obesos ou diabéticos:

— Pessoas sem obesidade tendem a apresentar grandes variações de peso, conhecidas como “efeito sanfona”. Perdem peso e, junto, massa magra, o que é menos problemático para quem tem obesidade, mas prejudicial para quem não tem. Ao recuperar o peso após interromper o remédio, recuperam sobretudo gordura, ficando proporcionalmente com menos massa muscular.