Vida e Saúde

Tamanho é documento? Especialistas falam sobre micropênis e possibilidades de tratamento

Embora pouco discutida, a condição não é tão rara: afeta cerca de 0,5% dos homens, o equivalente a aproximadamente 170 mil pessoas no Reino Unido

Agência O Globo - 06/02/2026
Tamanho é documento? Especialistas falam sobre micropênis e possibilidades de tratamento
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O desconforto com o próprio corpo acompanhou Michael Phillips desde a infância. Para evitar constrangimentos, ele fugia dos vestiários da escola, evitava relacionamentos na vida adulta e até usar banheiros públicos se tornava motivo de ansiedade. Hoje, aos 38 anos, o norte-americano acredita ter “o menor pênis do mundo”: mede cerca de 0,38 polegada (pouco menos de 1 centímetro), aproximadamente a largura de um botão de camisa.

‘Baly Tadala’:

Pequenas mudanças, grandes efeitos:

“Isso também afeta a sua capacidade de usar o banheiro”, contou o marchand de arte neste mês, ao relatar que sempre prefere cabines fechadas, já que usar mictórios é inviável devido à dificuldade de direcionar o jato de urina. Durante a juventude, ele não procurou ajuda médica por acreditar que ainda poderia se desenvolver após a puberdade. “Eu sempre acreditei que talvez fosse um retardatário”, disse. Quando finalmente consultou um médico, já adulto, havia perdido a janela de oportunidade para um tratamento hormonal que poderia ter estimulado o crescimento do órgão.

Ao expor detalhes íntimos de sua história em um programa de TV no Reino Unido, Michael disse esperar que outros homens busquem ajuda mais cedo. O micropênis é definido, do ponto de vista médico, como um pênis que mede menos de 7,5 centímetros em ereção — bem abaixo da média de 13,3 centímetros. Embora pouco discutida, a condição não é tão rara: afeta cerca de 0,5% dos homens, o equivalente a aproximadamente 170 mil pessoas no Reino Unido.

Reconhecida como condição médica desde a década de 1940, ela deveria ser avaliada ainda ao nascimento, quando o diagnóstico é feito se o pênis esticado mede menos de 1,9 centímetro. Na prática, porém, muitos casos passam despercebidos. O tabu em torno do tema faz com que homens convivam em silêncio com o problema por anos.

Sal de mesa, sal marinho ou sal do Himalaia:

Segundo o urologista e andrologista Shafi Wardak, do Royal Berkshire NHS Foundation Trust, o impacto emocional pode ser profundo, afetando “autoimagem, confiança e relacionamentos sexuais”. Ansiedade e depressão são frequentes, afirma o psicólogo clínico Rob O’Flaherty, que atende homens angustiados com o tamanho do pênis.

“Muitas vezes, eles evitam situações em que o pênis possa ser visto, escondendo-se o máximo possível”, explica. Alguns deixam de namorar. “Os homens tendem a ter pensamentos negativos sobre si mesmos, como ‘não sou homem o suficiente’, ‘sou inadequado’, ‘sou inútil’, ‘vou ficar solteiro para sempre’. Isso pode levar, em alguns casos, a pensamentos suicidas ou de automutilação.”

Especialistas diferenciam o micropênis do transtorno dismórfico peniano, em que o homem se angustia excessivamente com o tamanho do órgão sem que haja uma alteração médica real. Este último afeta cerca de 1% a 2% dos homens. No micropênis, o problema é orgânico, geralmente causado por níveis baixos de testosterona durante o desenvolvimento no útero e após o nascimento.

A melhor hora do dia para sair para caminhar:

A testosterona é essencial para o crescimento peniano: seus receptores estimulam as células do órgão a se desenvolverem. Quando o hormônio é insuficiente, o crescimento não ocorre plenamente. As causas podem incluir disfunções da hipófise, síndrome de Kallmann — em que os hormônios da puberdade não são ativados — ou falhas genéticas que impedem o corpo de produzir ou responder à testosterona. Estudos também investigam fatores ambientais. Uma revisão de 2022 apontou possíveis associações entre a exposição pré-natal a substâncias que interferem nos hormônios, como bisfenóis usados em plásticos, e o aumento de casos de micropênis, embora a hipótese ainda não seja comprovada.

Quando diagnosticado precocemente, o tratamento hormonal pode ser eficaz. “Se identificado cedo, um micropênis muitas vezes pode ser tratado com sucesso com terapias à base de testosterona”, diz Wardak. O problema é que muitos pais e até profissionais de saúde acreditam que o quadro se resolverá espontaneamente na puberdade. Erros de medição ao nascimento também são comuns. “Medir o comprimento do pênis esticado exige experiência, e em muitos casos isso não é feito corretamente”, afirma o endocrinologista pediátrico Faisal Ahmed, da Universidade de Glasgow.

Estudos mostram que injeções mensais de testosterona por três meses, sobretudo em bebês e crianças pequenas, podem aumentar o comprimento peniano em mais de 100% em alguns casos. Outra opção são injeções de gonadotrofinas, usadas quando o problema está nos sinais da hipófise, capazes de gerar aumentos de cerca de 50%. Os efeitos colaterais incluem sinais temporários de “mini-puberdade”, como odor corporal e surgimento precoce de pelos.

O grande limite é o tempo: o pênis tem basicamente duas janelas de crescimento — no útero e nos primeiros anos de vida até a puberdade. Depois disso, os receptores hormonais deixam de responder. Na idade adulta, resta apenas a cirurgia.

No Reino Unido, o cirurgião urológico Don Lee coordena a única unidade do sistema público dedicada a esses casos. Ele relata que muitos pacientes chegam após anos de sofrimento silencioso, alguns bem-sucedidos profissionalmente, mas emocionalmente fragilizados. “O que mais me impressiona é quantos dizem não saber que havia tratamento”, afirma.

Há dois tipos principais de cirurgia. Em alguns homens, parte do pênis está “escondida” sob a pele e pode ser liberada para ganhar comprimento suficiente para a relação sexual. Em casos mais graves, é possível construir um novo pênis, procedimento complexo realizado em cerca de dez a 12 pacientes por ano. A cirurgia envolve retirar tecido do antebraço ou da coxa para formar o órgão, criar uma nova uretra e, em uma etapa final, implantar um dispositivo hidráulico que permite a ereção.

Os riscos, porém, são significativos: perda parcial ou total do novo pênis, problemas urinários e necessidade de reconstruções adicionais. “Uma parcela significativa decide não seguir adiante”, diz Lee. “Mas, entre os que passam por todo o processo, temos muitos homens satisfeitos.”

Michael Phillips pesquisou essa alternativa, mas nos Estados Unidos o custo varia entre US$ 80 mil e US$ 120 mil, e ele foi informado de que a relação sexual ainda seria difícil. Por isso, prefere usar sua história como alerta. “Se as pessoas perceberem isso mais cedo e puderem ir ao médico mais jovens, terão mais ajuda do que eu consegui”, disse.

Para os especialistas, a principal mensagem é clara: o tratamento não se resume ao tamanho. “Para muitos, acolhimento, apoio e informação honesta podem ser tão importantes quanto qualquer intervenção médica”, resume Wardak.