Vida e Saúde
Ame ou odeie: por que o carnaval provoca emoções tão conflitantes? A psicologia responde
Período de festas desperta diferentes sentimentos; mais que uma preferência pessoal, a reação à folia pode revelar como o cérebro reage a estímulos
O carnaval dificilmente passa despercebido porque ativa estímulos intensos: som alto, corpos expostos, multidões e horários alterados. Do ponto de vista da psicologia, quando uma experiência desperta reações tão opostas, é sinal de que ela toca núcleos profundos do funcionamento emocional.
Carnaval e beijo na boca:
Pronto para a folia?
Segundo a psicóloga e psiquiatra Lidiane Silva, o carnaval não ativa apenas preferências pessoais, mas também expõe o modo como o cérebro e o sistema nervoso de cada indivíduo regulam estímulos, vínculos e limites. Não se trata apenas de “gostar” ou “não gostar”, mas de como cada um processa o excesso, a proximidade e a perda de controle do ambiente.
— Do ponto de vista neuropsicológico, o carnaval é um evento de hiperestimulação. Sons altos, multidões, contato físico, cheiros intensos, consumo de álcool, ruptura de rotinas e suspensão simbólica de regras ativam fortemente o sistema límbico, especialmente os circuitos de recompensa e excitação — explica a médica.
Para a especialista, quem tolera bem esse excesso tende a liberar com mais facilidade dopamina (prazer e busca), endorfina (euforia) e ocitocina (vínculo coletivo), tornando as festas desse período experiências de catarse, pertencimento e liberdade emocional.
Já pessoas com sistema nervoso mais sensível ao excesso podem ativar outra via: hiperexcitação do eixo do estresse, com aumento de cortisol e noradrenalina. Nesses casos, o cérebro interpreta o ambiente como imprevisível e invasivo, e o resultado não é prazer, mas sobrecarga, irritação, ansiedade e vontade de se afastar.
— Sob a ótica comportamental, quem ama o carnaval costuma ter maior tolerância à perda temporária de controle externo, busca por novos estímulos e prazer social compartilhado. Quem detesta, em geral, valoriza previsibilidade, limites claros, espaço pessoal e silêncio — exemplifica.
Lidiane ressalta que ambos os perfis são saudáveis, mas o conflito surge quando um é tratado como superior ao outro: o erro não está em amar ou odiar, mas em "negar que essa reação nasce do corpo, do cérebro e da história emocional de cada um, o que influencia e muito no gosto pessoal".
A psicóloga clínica Andréia Batista também destaca que o carnaval provoca emoções tão polarizadas, seja de amor ou rejeição, porque não é apenas uma festa popular: no Brasil, ele se transforma em um evento cultural de alta intensidade emocional, mobilizando corpo e espaço coletivo.
Nesse contexto cultural, a experiência ganha características marcadas pela expressividade corporal, musicalidade, contato físico e vida coletiva nos espaços públicos, funcionando para muitos como "uma descarga emocional socialmente autorizada":
— O corpo se movimenta, a emoção circula, a rotina se suspende. Isso pode gerar sensação de pertencimento, liberdade e vitalidade. Para outras pessoas, porém, o mesmo cenário é vivido como invasivo. O corpo entra em estado de proteção, não de celebração.
Por isso, o carnaval raramente provoca indiferença. Ele toca camadas profundas da experiência humana: como lidamos com o excesso, com o contato, com o corpo do outro e com a perda momentânea de controle do ambiente. Amar ou rejeitar o carnaval é, muitas vezes, uma resposta legítima de autorregulação emocional diante de uma experiência cultural intensa.
— Mais do que uma festa, o carnaval funciona como um espelho psicológico coletivo. Ele não cria reações, ele amplifica aquilo que cada sistema nervoso já carrega — afirma a psicóloga.
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