Vida e Saúde

Técnica inovadora desenvolvida no Brasil reduz necessidade de cirurgia para hérnia de disco

Terapia criada por médico brasileiro mostrou eficácia em 86% dos casos, segundo estudo publicado em revista internacional

Agência O Globo - 06/01/2026
Técnica inovadora desenvolvida no Brasil reduz necessidade de cirurgia para hérnia de disco
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Um estudo publicado recentemente na revista científica International Society for the Advancement of Spine Surgery revelou que uma técnica minimamente invasiva, desenvolvida no Brasil, é eficaz no tratamento da hérnia de disco em pacientes que não respondem ao tratamento conservador — que inclui fisioterapia, medicação e acupuntura. A pesquisa, conduzida por especialistas do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, demonstrou que o novo método dispensou a necessidade de cirurgia em 86% dos casos.

“É uma técnica com eficácia altíssima, bastante inovadora, e é a primeira vez que alguém descreve isso no mundo para esse fim”, afirma o neurocirurgião Francisco Sampaio Júnior, pesquisador principal do estudo, médico do Hospital Sírio-Libanês e da Rede D'Or, além de criador da técnica.

A hérnia de disco, ou protrusão discal, é a principal causa de dor ciática, atingindo entre 1% e 5% da população a cada ano. Trata-se de uma dor intensa, aguda, que se inicia nas costas e irradia pela perna, conhecida como radiculopatia lombar. Essa condição está entre as principais razões que levam pacientes a procurar atendimento médico devido à dor e incapacidade.

Nesses quadros, a dor ocorre porque uma raiz nervosa na base da coluna está comprimida ou inflamada, enviando sinais dolorosos intensos ao cérebro. Quando o corpo não consegue se recuperar espontaneamente, o tratamento convencional envolve fisioterapia, medicamentos, acupuntura, correções posturais e mobilização articular. Caso não haja melhora, as alternativas costumam ser cirurgia ou injeções epidurais, que nem sempre apresentam bons resultados.

A nova técnica, denominada infiltração epidural transforaminal infraneural com corticosteroides, é indicada justamente para pacientes que não respondem ao tratamento conservador, desde que não apresentem déficit motor (fraqueza muscular).

“É indicada para hérnias discais agudas, com dor intensa e incapacitante, que não tiveram sucesso com o tratamento conservador e que não apresentam déficit motor causado pela hérnia, o que representa a grande maioria dos casos”, explica Sampaio Júnior.

O estudo avaliou 99 pacientes submetidos ao novo procedimento, sendo 45 homens e 54 mulheres.

O procedimento inicia com o posicionamento adequado do paciente para facilitar o acesso entre as vértebras. Em seguida, com o auxílio de um equipamento de fluoroscopia — uma espécie de raio-X em tempo real —, uma agulha especial é guiada com precisão milimétrica através do chamado triângulo de Kambin, uma pequena janela anatômica que permite alcançar o ponto exato da inflamação nervosa.

Ao atingir o local correto, o medicamento anti-inflamatório é administrado diretamente no foco da inflamação.

Seis meses após o procedimento, 85,9% dos pacientes relataram ausência de dor, além de melhora significativa na qualidade de vida. Muitos saíram de um quadro de incapacidade grave para um nível mínimo, voltando a realizar tarefas cotidianas, trabalhar e caminhar sem dor.

Por se tratar de uma abordagem minimamente invasiva, a recuperação é mais rápida. Ainda assim, em 14% dos casos, a cirurgia foi necessária posteriormente.

“O objetivo é evitar a cirurgia, e conseguimos isso em 86% das vezes, o que é um índice muito elevado”, destaca o neurocirurgião. “Estamos apresentando uma alternativa à abordagem tradicional, que costuma indicar cirurgia para hérnias que não respondem ao tratamento conservador.”