Vida e Saúde
Técnica inovadora desenvolvida no Brasil reduz necessidade de cirurgia para hérnia de disco
Terapia criada por médico brasileiro mostrou eficácia em 86% dos casos, segundo estudo publicado em revista internacional
Um estudo publicado recentemente na revista científica International Society for the Advancement of Spine Surgery revelou que uma técnica minimamente invasiva, desenvolvida no Brasil, é eficaz no tratamento da hérnia de disco em pacientes que não respondem ao tratamento conservador — que inclui fisioterapia, medicação e acupuntura. A pesquisa, conduzida por especialistas do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, demonstrou que o novo método dispensou a necessidade de cirurgia em 86% dos casos.
“É uma técnica com eficácia altíssima, bastante inovadora, e é a primeira vez que alguém descreve isso no mundo para esse fim”, afirma o neurocirurgião Francisco Sampaio Júnior, pesquisador principal do estudo, médico do Hospital Sírio-Libanês e da Rede D'Or, além de criador da técnica.
A hérnia de disco, ou protrusão discal, é a principal causa de dor ciática, atingindo entre 1% e 5% da população a cada ano. Trata-se de uma dor intensa, aguda, que se inicia nas costas e irradia pela perna, conhecida como radiculopatia lombar. Essa condição está entre as principais razões que levam pacientes a procurar atendimento médico devido à dor e incapacidade.
Nesses quadros, a dor ocorre porque uma raiz nervosa na base da coluna está comprimida ou inflamada, enviando sinais dolorosos intensos ao cérebro. Quando o corpo não consegue se recuperar espontaneamente, o tratamento convencional envolve fisioterapia, medicamentos, acupuntura, correções posturais e mobilização articular. Caso não haja melhora, as alternativas costumam ser cirurgia ou injeções epidurais, que nem sempre apresentam bons resultados.
A nova técnica, denominada infiltração epidural transforaminal infraneural com corticosteroides, é indicada justamente para pacientes que não respondem ao tratamento conservador, desde que não apresentem déficit motor (fraqueza muscular).
“É indicada para hérnias discais agudas, com dor intensa e incapacitante, que não tiveram sucesso com o tratamento conservador e que não apresentam déficit motor causado pela hérnia, o que representa a grande maioria dos casos”, explica Sampaio Júnior.
O estudo avaliou 99 pacientes submetidos ao novo procedimento, sendo 45 homens e 54 mulheres.
O procedimento inicia com o posicionamento adequado do paciente para facilitar o acesso entre as vértebras. Em seguida, com o auxílio de um equipamento de fluoroscopia — uma espécie de raio-X em tempo real —, uma agulha especial é guiada com precisão milimétrica através do chamado triângulo de Kambin, uma pequena janela anatômica que permite alcançar o ponto exato da inflamação nervosa.
Ao atingir o local correto, o medicamento anti-inflamatório é administrado diretamente no foco da inflamação.
Seis meses após o procedimento, 85,9% dos pacientes relataram ausência de dor, além de melhora significativa na qualidade de vida. Muitos saíram de um quadro de incapacidade grave para um nível mínimo, voltando a realizar tarefas cotidianas, trabalhar e caminhar sem dor.
Por se tratar de uma abordagem minimamente invasiva, a recuperação é mais rápida. Ainda assim, em 14% dos casos, a cirurgia foi necessária posteriormente.
“O objetivo é evitar a cirurgia, e conseguimos isso em 86% das vezes, o que é um índice muito elevado”, destaca o neurocirurgião. “Estamos apresentando uma alternativa à abordagem tradicional, que costuma indicar cirurgia para hérnias que não respondem ao tratamento conservador.”
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