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O som da Copa: Marcelo Lobato explica como ritmos africanos moldaram a música de diferentes países

Músico relaciona as sonoridades de Congo, Colômbia, Marrocos e Brasil e reflete sobre os encontros culturais que moldaram a música contemporânea

Assessoria 08/07/2026
O som da Copa: Marcelo Lobato explica como ritmos africanos moldaram a música de diferentes países
Marcelo Lobato - Foto: Rodrigo Ferraz

Enquanto seleções de diferentes continentes se enfrentam em campo durante a Copa do Mundo, também se evidenciam os encontros culturais que acontecem fora das quatro linhas. Há décadas, ritmos, tradições e influências atravessam fronteiras, conectam povos e ajudam a construir identidades musicais ao redor do mundo. Para o músico, compositor e produtor Marcelo Lobato, fundador do Afrika Gumbe e integrante da formação original d'O Rappa, futebol e música compartilham a capacidade de aproximar povos de diferentes origens, mesmo quando não falam a mesma língua.

"A música, assim como os jogos de esporte, tem essa função de agregar mesmo falando diferentes idiomas. Ela conecta pessoas de diferentes origens. É um entendimento mais profundo, espontâneo, sem arestas", afirma o músico. Para ele, o próprio cenário do futebol mundial ilustra esse movimento. "Hoje vemos atletas africanos e asiáticos defendendo seleções europeias e, ao mesmo tempo, jogadores optando por representar seus países de origem. É mão e contramão. A cultura também acontece dessa forma."

Essa percepção não nasceu da teoria, mas da experiência. Há mais de duas décadas, Marcelo foi convidado pelo músico panamenho Cheo para integrar o Africa Obota, grupo formado por músicos da Guiné-Bissau e brasileiros. O contato direto com aquelas sonoridades despertou uma pesquisa que acabaria se tornando parte de sua identidade musical. "Aquele som me pareceu muito familiar. Aos poucos fui entendendo a rumba zairense, o som do Senegal, da África do Sul, da Nigéria. As guitarras sincopadas, polirrítmicas e os vocais harmonizados passaram a fazer parte do meu universo."

Entre os gêneros que mais o marcaram está o soukous, originário da República Democrática do Congo. Segundo Marcelo, trata-se de uma música de caráter solar, construída sobre guitarras que dialogam entre si e vocais harmonizados que remetem à tradição afro-cubana. Essa circulação de referências não permaneceu restrita ao continente africano. Na Colômbia, por exemplo, discos africanos levados por DJs nas décadas de 1970 e 1980 encontraram ritmos locais e deram origem à champeta. "Você emprega a métrica latina, sons indígenas, acordeon e elementos eletrônicos. De alguma forma, os sons do soukous chegaram à Colômbia e foram se mesclando ao som local."

Ao falar da Nigéria, Marcelo destaca a importância de Fela Kuti para a história da música mundial. Para ele, o criador do afrobeat conseguiu unir o groove africano às influências do jazz, da música negra norte-americana e da religiosidade, transformando sua obra também em instrumento de resistência política. "Talvez o afrobeat seja hoje o gênero musical africano mais conhecido do mundo", observa.

No norte da África, é a tradição Gnawa que chama sua atenção. Marcelo enxerga na música marroquina uma sonoridade profunda, marcada por harmonias repetitivas e quase mântricas, que dialogam tanto com os cânticos islâmicos quanto com a origem do blues. "Os povos africanos tiveram que inventar meios para não perder sua essência. A espiritualidade continua presente em praticamente todos esses gêneros musicais."

Ao voltar o olhar para o Brasil, Marcelo ressalta que a riqueza da música brasileira nasce justamente da convivência entre diferentes matrizes culturais. "O Brasil é diferenciado. Tivemos influência portuguesa, moura, de diferentes partes da África, de diferentes povos indígenas e de outros povos europeus. São várias formas de suingue." Para ele, o samba continua sendo um dos principais guardiões dessa memória, especialmente longe do circuito turístico. "Ainda preserva os fundos de quintal, os terreiros, o jongo, o caxambu. Existe uma resistência muito forte." O músico também identifica essas heranças em manifestações mais recentes, como o funk carioca, que incorporou elementos rítmicos ligados às religiões de matriz africana.

Essa percepção sobre a circulação cultural também atravessa o trabalho desenvolvido no Afrika Gumbe. Apesar do nome remeter ao continente africano, Marcelo explica que a proposta do grupo nunca foi reproduzir tradições, mas estabelecer um diálogo entre ancestralidade e contemporaneidade. "A África é inusitada porque consegue unir sons ancestrais à modernidade. Apesar do nome, o Afrika Gumbe também traz um som progressivo, moderno e tecnológico."

Essa pesquisa aparece naturalmente nas composições do grupo, especialmente em faixas como "A Rede e os Peixes", presente no álbum Soro Energizado. "Ela fala do ir e vir, das trocas, das diferentes marés. De como falamos a língua-mãe de outra forma." Depois de décadas de convivência com essas referências, Marcelo afirma que elas deixaram de ser apenas objeto de estudo para se tornarem parte orgânica de sua criação artística. "Por convivermos por muito tempo com esses gêneros de música africana, tornou-se muito natural a forma de compormos".

Para Marcelo, essa talvez seja a principal semelhança entre futebol e música. Ambos sobrevivem graças ao encontro entre diferentes culturas e à capacidade de se reinventar continuamente. "As trocas geram evolução, diversidade. Combinações infinitas. O tambor é uma linguagem universal. É o fundamento, o chão. Está nos ritos, nas festas, nas danças e na comunicação." Em tempos de Copa do Mundo, quando o planeta volta seus olhos para os gramados, ele lembra que há outro encontro em andamento: o das culturas que seguem se conectando, influenciando umas às outras e criando novas formas de expressão artística.

Sobre Marcelo Lobato

Marcelo Lobato é músico, compositor e produtor, conhecido por sua trajetória marcante como tecladista, baterista e vocalista d'O Rappa. Atualmente, Marcelo é fundador da banda Afrika Gumbe e se dedica ao seu projeto solo, explorando novas possibilidades sonoras e transitando entre diferentes influências com uma abordagem experimental. Seu último EP, Carregador de Piano, mostrou um olhar autoral e intimista, evidenciando sua versatilidade. Em seu projeto solo Marcelo reafirma sua identidade musical e sua capacidade de transformar reflexões profundas em experiências sonoras envolventes.