Variedades
Sequência de 'Casamento Sangrento' expande universo e transforma o terror em história de irmãs
Sequências de terror têm um problema clássico: o que fazer com a sobrevivente? A primeira vez tem tensão natural. O espectador não sabe se ela vai viver. Na segunda, tudo começa já resolvido. E aí o filme precisa encontrar outro motivo para existir além da perseguição em si. Casamento Sangrento: A Viúva, estreia da última quinta, 19, resolve isso apostando numa mudança de escala.
O jogo agora é maior: quatro famílias rivais, um Conselho com regras próprias, uma espécie de sociedade satânica que lembra, em estrutura, o que a franquia John Wick fez com seus assassinos e suas guildas. A comparação não é gratuita: os dois universos compartilham o mesmo interesse em dotar de burocracia e ritual algo que, no fundo, é pura violência organizada.
É uma aposta conhecida no gênero: transformar a sequência num filme de relação disfarçado de thriller de sobrevivência. Se funciona, aqui depende menos da escala do que da credibilidade dessa tensão entre os dois elementos.
"Começamos a falar sobre isso logo depois do primeiro filme", conta o diretor Matt Bettinelli-Olpin, ao lado do também diretor Tyler Gillett, ao Estadão. "Estava sempre ali, presente. Todo mundo foi fazendo outras coisas, e a ideia ficou em banho-maria. Nunca soubemos exatamente quando ia acontecer, ou se ia acontecer. Até que surgiu uma janela".
Na trama, Grace (Samara Weaving) descobre que sua vitória no primeiro filme veio com um preço: as famílias mais ricas e poderosas do mundo agora precisam caçá-la num novo ritual ou arriscam perder fortuna e influência. Quando ela se recusa, eles sequestram sua irmã Faith (Kathryn Newton). As duas precisam sobreviver enquanto Grace tenta alcançar o alto posto do Conselho que controla as quatro famílias rivais - o único lugar de onde poderia, enfim, encerrar o jogo.
Weaving: o grande destaque, de novo
Samara continua sendo o que sempre foi nesta franquia: a razão principal para prestar atenção. Ela tem uma habilidade rara de transitar entre o físico e o cômico sem que um comprometa o outro - reage ao absurdo com o peso certo, nem exagerado demais, nem frio demais. É ela quem ancora o filme quando a trama começa a se enrolar em sua própria mitologia.
Kathryn Newton, por sua vez, está bem - mas sobra um pouco. A promessa dramática da irmã distante, com toda a bagagem de ressentimento que o roteiro sugere, não se traduz em cenas que a deixem brilhar de forma equivalente. Ela funciona mais como parceira de fuga, menos como personagem com vida própria.
O elenco de vilões, no entanto, é o maior acerto do filme. Shawn Hatosy, conhecido do drama médico The Pitt, e Sarah Michelle Gellar, de Buffy, trazem a mistura certa de ameaça e compostura que os papéis exigem - soam como vilões de verdade, não como obstáculos genéricos. E há ainda uma participação especial de David Cronenberg que, só pela presença, adiciona uma camada de estranheza que o filme sabe aproveitar.
A irmã distante
Kathryn Newton entra na franquia como Faith, irmã de Grace com quem a relação nunca foi simples. A escolha veio de um encontro anterior: os diretores trabalharam com a atriz em Abigail, terror sobre vampiros, e foi durante aquelas filmagens que a ideia tomou forma.
"Enquanto filmávamos Abigail, ficamos pensando que Samara e Kathryn deveriam fazer um filme juntas", conta Bettinelli-Olpin ao Estadão. "Quando a ideia do segundo Casamento Sangrento voltou, foi essa conexão que definiu tudo. Ela podia ser a irmã. Esse era o núcleo emocional do filme".
A tensão entre as duas personagens não fica só na perseguição física. Faith carrega uma história de afastamento em relação à Grace, o que adiciona uma camada de desconfiança mútua à dinâmica de sobrevivência. Os diretores apostaram nisso como eixo dramático da sequência - algo mais próximo de um filme sobre uma relação do que de terror convencional.
Quando perguntados sobre referências, os diretores não citam clássicos do horror. Mencionam Thelma & Louise, Fuga à Meia-Noite e Duro de Matar 3: A Vingança. São filmes de duplas em movimento, com conflito interno e ritmo de perseguição.
"Esses filmes estão em nós", explica Gillett. "O jeito como Thelma e Louise se completam e brigam ao mesmo tempo, a energia de Fuga à Meia-Noite. Isso faz parte do nosso gosto como cineastas. Não queremos imitar essas obras, mas a sensação que elas passam é o que buscamos provocar".
A mistura é parte da identidade da franquia desde o começo: terror de sobrevivência com humor subversivo, personagens reagindo de forma reconhecível a situações impossíveis. A sequência mantém essa combinação, agora com a estrutura de dois personagens que precisam um do outro mesmo sem querer.
Escala maior, produção enxuta
A segunda parte tem mais personagens, mais famílias e um jogo com regras mais complexas do que o original. A ambição narrativa cresceu, mas as condições de produção permaneceram apertadas, e os diretores dizem que isso foi intencional.
"As filmagens foram muito corridas", conta Bettinelli-Olpin. "A equipe, a gente, todo mundo estava passando pela experiência de Grace junto com ela. Era uma maratona do começo ao fim. Essa energia está no ritmo do filme".
Essa urgência se sente na tela. A violência continua intensa - mortes, explosões, o nível de brutalidade que o primeiro filme estabeleceu -, mas sem a sensação de que o segundo quer chocá-lo mais, ou empilhar mortes só para impressionar. Há uma contenção aí que é, paradoxalmente, uma das escolhas mais acertadas.
No balanço final, Casamento Sangrento: A Viúva é um filme que entretém e que, em vários momentos, entretém bem. Mas carrega consigo o peso de querer ser mais e maior do que o original em quase tudo, e esse esforço aparece. A expansão do universo funciona em partes; em outras, soa como um filme que não confia no próprio apelo e sente que precisa se justificar.
Quem amou o primeiro vai provavelmente gostar deste, mesmo com reservas. Quem esperava que a sequência soubesse exatamente o que é e ficasse nisso pode sair com uma sensação de que faltou alguma coisa. É um filme que acerta no elenco, vacila na trama e, na maior parte do tempo, consegue ser exatamente o que promete: uma hora e meia de perseguição violenta e bem-humorada.
Questionados sobre uma possível continuação, os diretores foram diretos: não há nada desenvolvido até agora. "Não há nada no papel, nada mesmo", disse Bettinelli-Olpin. "Mas amamos esse mundo e essas personagens. Se o momento e a história forem certos, é algo que nos interessa".
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