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Flávia Teodoro Alves, poeta periférica, articula literatura e diagnóstico tardio em trajetória de resistência
Escritora, arte/educadora e performer, Flávia usa a palavra como arma para desestabilizar o sentido estabelecido e construir uma obra que é, ao mesmo tempo, diário afetivo e manifesto político.
A palavra, para Flávia Teodoro Alves, é mais do que um instrumento de expressão: é uma tática de sobrevivência e uma arma de subversão. Aos 43 anos, a poeta, arte/educadora e performer paulistana já percorreu um longo caminho desde as primeiras tentativas de compreender o mundo aos 14 anos, quando começou a escrever. Hoje, com dois livros de poesia publicados, uma dissertação de mestrado defendida e um romance inédito em busca de editora, Flávia consolida uma carreira literária que se confunde com sua própria história de resistência, autodescoberta e militância.
Da Brasilândia para o mundo: a escrita como tática de sobrevivência
Nascida em Santana, mas criada na Brasilândia, na mesma casa onde vive até hoje com os pais, Flávia é o que ela mesma define como uma “escritora periférica”. Sua escrita, visceral e intuitiva, funciona como um diário afetivo e crítico, espelhando suas vivências na Zona Norte de São Paulo. “A literatura é um veículo para processar e compreender o que acontece comigo e à minha volta”, revela. “Escrevo sobre temas que me atravessam como enigmas que preciso decodificar para seguir em frente, uma tática de sobrevivência para descobrir (ou criar) meu lugar no mundo.”
Essa busca por um lugar ao sol — ou por um lugar no mundo — encontrou novas camadas de compreensão após o diagnóstico tardio de autismo com TDAH e altas habilidades, recebido aos 40 anos. A notícia, que poderia ser um ponto de chegada, reorganizou a forma como passou a compreender sua trajetória e sua produção, iluminando sua trajetória e suas dificuldades em compreender os códigos sociais não-ditos. “Minha dificuldade me fez questioná-los profundamente”, afirma. Essa inquietação é a matéria-prima de sua poesia, que transita do pessoal ao político com uma naturalidade que só a verdadeira experiência de vida confere.
Sua estreia literária se deu com o livro “Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo” (Fábrica de Cânones, 2022), um trabalho que reuniu poemas escritos entre 2015 e 2022 e que já anunciava a potência de sua voz. A obra é marcada pela fragmentação e pelo que a poeta chama de “intuitivo”. Em versos como os de “corposciência”, onde o coração é “mais esfolado que joelho de criança traquina”, ou na desconstrução do amor romântico em “morada” (“não cabe na forma / nem na fôrma de coração”), Flávia já delineava os temas que aprofundaria em seguida. A apresentação do livro, assinada pela poeta Lilian Sais, definiu com precisão o espírito da obra: “Uma poética do contrário”, onde a revolta se apresenta como o oposto produtivo da tristeza.
Em 2023, Flávia deu um novo passo com “Toda reza é tentativa de telecinese” (Caravana Grupo Editorial), um livro-irmão do anterior, que prolonga suas temáticas e as expande. A obra reúne 40 poemas, um para cada ano de sua vida até a publicação, compondo o que a autora descreve como “a história do pós-ruína”. O título, que também é um verso, sintetiza sua visão de mundo: a ideia de que o desejo, a prece e a palavra são tentativas simbólicas de mover o mundo ao redor. A obra ganhou uma versão em espanhol, “Toda oración es un intento de telequinesis”, fruto do programa de traduções da editora, trabalho que Flávia acompanhou de perto ao lado do tradutor Juan Balbin.
Entre a sala de aula, pesquisa acadêmica e a lambe-lambe: o temperamento inquieto de uma poeta multimeios
Sua poesia, no entanto, não se limita ao papel. Formada em Educação Artística pela FAMOSP (2006) e mestra em Artes pela Unesp com a dissertação “Corpoarte: felicidade e resistência” (2017), Flávia transita entre a sala de aula como professora da rede pública, as ruas como performer e atriz — onde também assume a persona @lambe.bem — e a pesquisa acadêmica. Essa multiplicidade a levou a se autodenominar uma “poeta multimeios”. “Para dar conta do meu temperamento inquieto”, brinca. Essa inquietação também a guiou para o curso de Formação de Escritores no Instituto Vera Cruz (2019), onde pôde profissionalizar sua escrita e dar forma ao seu projeto mais ambicioso até o momento.
Esse projeto é o romance “Memórias Cintilantes de uma Cerejinha”, uma narrativa híbrida entre a ficção e a literatura fantástica, inicialmente pensada para o público juvenil, mas que se revelou uma obra crossover sobre amadurecimento e autodescoberta. “Quando criei os personagens, eu não sabia que era autista. Agora, revejo a história e percebo que ele sempre esteve nela”, conta Flávia, que reescreveu a obra sob a orientação da especialista Janette Tavano, aprofundando os conflitos e a “maluquice” sem perder o fio da narrativa. A Cerejinha, sua protagonista e alter ego, é mais uma tentativa de decodificar e criar um lugar no mundo.
Em 2024, Flávia Teodoro Alves foi semifinalista na categoria Poesia Publicada do Prêmio Loba Festival, um reconhecimento significativo por se tratar de uma premiação dedicada à literatura produzida por mulheres. “Foi muito importante ter o primeiro reconhecimento em um prêmio exclusivo à literatura produzida por mulheres, que tem como objetivo fomentar essa produção”, comemora. “Além de ter me candidatado como autora PCD, o que também me orgulha bastante.” A honraria chega para coroar um momento de afirmação de uma carreira construída com consistência, onde a palavra é, ao mesmo tempo, refúgio e trincheira. Como ela mesma define, inspirada pela escritora Elvira Vigna: escreve para “atacar o sentido estabelecido, o território demarcado. A estabilidade das ordens, das linguagens.”
Sobre a autora
Flávia Teodoro Alves (São Paulo, 1982) é uma poeta multimeios, arte/educadora, pesquisadora, performer e atriz. Vive e trabalha na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, onde é professora da rede pública há 20 anos. É mestra em Artes pela Unesp e pós-graduada em Formação de Escritores pelo Instituto Vera Cruz. Autora dos livros de poesia “Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo” (Fábrica de Cânones, 2022) e “Toda reza é tentativa de telecinese” (Caravana Grupo Editorial, 2023), este último traduzido para o espanhol. Em 2024, foi semifinalista do Prêmio Loba Festival. Sua escrita é marcada pelo fragmento, pela intuição e pelo engajamento com questões sociais, feministas e periféricas, atravessada por sua experiência neurodivergente e por sua visão política do mundo.
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