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Vila Mimosa completa 30 anos: reduto histórico da prostituição carioca sofre com queda de público e tenta sobreviver

Queda no vaivém da Região Central a partir da pandemia, além de questões de abandono e de insegurança, impacta a área

Agência O Globo - 12/07/2026
Vila Mimosa completa 30 anos: reduto histórico da prostituição carioca sofre com queda de público e tenta sobreviver
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Foi um rebuliço. Em 1996, na gestão do prefeito Cesar Maia, o histórico reduto de prostituição, instalado no coração do Rio de Janeiro desde o início do século, acabou arrancado de lá por ordem oficial. Decretava-se o fim da tradicional Zona do Mangue, imortalizada por nomes como os poetas Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes, além dos artistas plásticos Lasar Segall e Di Cavalcanti. Eles capricharam na verve, mas, para quem tira seu sustento desse universo, a realidade sempre foi bem mais complexa. A ideia inicial, em meados dos anos 1990, era simplesmente levar as estimadas 1.800 garotas de programa até a cidade vizinha de Duque de Caxias. Para surpresa de ninguém, o projeto não foi tão longe: as mulheres, e a estrutura que as cercava, acabaram alocadas na Rua Sotero dos Reis, em São Cristóvão, bem perto do recanto original. Completados 30 anos, lá estão até hoje, no point de meretrício conhecido como Vila Mimosa.

A mudança não foi tranquila. Havia um prazo a ser cumprido e, em caso de desobediência, 250 policiais entrariam em ação, como revelou o GLOBO na época. A área tornou-se alvo do interesse do desenvolvimento urbanístico e ganhou novos empreendimentos imobiliários. Um deles, o Centro Administrativo São Sebastião, sede da prefeitura, ganhou até apelido carinhoso que remete aos tempos de outrora: Piranhão. Na Vila Mimosa, colada à Praça da Bandeira, a vida das profissionais do sexo continua — mas não parece nada fácil.

Em uma recente terça-feira à tarde, Cátia (nome fictício), na esquina da VM, como o lugar é conhecido, comenta que está com a conta bancária bloqueada. Um cliente, com quem ela havia passado mais de uma noite dias antes, contestou o Pix de R$ 900 feito para pagar os serviços. Ela ligou para o banco, reclamou e nada feito. Cátia conta que entrou na prostituição no fim da década de 1990, movida pela necessidade de criar dois filhos sem o pai das crianças. A garota carioca diz ter conhecido uma Vila Mimosa em tempos de efervescência, mas acabou procurando outros lugares, indo para “a pista”, porque hoje crê não ter condições de concorrer “com novinhas sem roupa”.

— É muito ruim não ter nada dentro de casa. Eu trabalhava na Barra como garçonete, com 17 anos. Um dia, uma mulher me disse: “vou te levar a um lugar em que você vai ganhar muito dinheiro”. Me lembro certinho do dia seguinte, quando cheguei em casa com duas sacolas de mercado depois do programa. Meu filho ficou feliz porque tinha Danone. Quando cheguei à VM, fiquei horrorizada. Mas hoje gosto da vida que eu levo. Meus filhos têm 23 e 25 anos. Estou com 39, tentando sair, mas é difícil viver com pouco. O que eu ganho é um dinheiro rápido. Não é fácil, mas é rápido — afirma ela.

Passadas três décadas, a Vila Mimosa, instalada no galpão de um frigorífico abandonado, sobrevive na Rua Sotero dos Reis como um universo à parte da vida ao redor, entre oficinas e pequenos comércios. A queda no vaivém da Região Central a partir da pandemia, além de questões de abandono e de insegurança, impacta a área. De dia, a música nos bares na área do galpão ainda não chega àquele volume que irrita as garotas, que sequer conseguem conversar com os clientes. De noite, há homens jogando sinuca e bebendo. Relatos de deterioração em algumas casas espantam as profissionais.

— Preferi vir trabalhar na rua. Tenho mais liberdade de dormir onde eu quiser. Já fui da Vila, mas não gosto do barulho nem do cheiro. Agora no frio aqui está bom. Os homens gostam de conchinha — diz Talita, que faz ponto perto da Rua Ceará e, com o marido preso, usa o dinheiro para criar o filho dos dois.

Na VM, a maior parte dos clientes é das classes C e D. Os valores cobrados podem partir de R$ 20, o programa com alguém em situação de maior vulnerabilidade, de dependência química ou necessidade financeira. A média fica entre R$ 60 e R$ 120, por meia hora, fora o aluguel do quarto (R$ 30) e o preservativo (R$ 1). Entre todas, é unânime a opinião contra homens mais jovens: são conhecidos por beber, se drogar e desrespeitá-las, tocando em seus corpos antes de o programa começar e buscando sexo sem camisinha. Hoje, há maior conscientização a respeito de métodos contraceptivos e de medidas urgentes pós-exposição ao sexo desprotegido, além de visitas constantes de enfermeiros, médicos, agentes de saúde.

A VM de hoje sobrevive em ritmo menos acelerado do que o dos anos 2000, quando caiu no gosto do público cult, virou point e aparecia com frequência em letras de MCs badalados. Segundo a Associação de Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa, mais de mil mulheres trabalham no local. O alto número não é aparente porque a maioria adere a um rodízio: vai em determinados dias da semana, de quarta a domingo. Nos últimos 20 anos, mais possibilidades de estudo e trabalho, a religiosidade, o esvaziamento do Centro e a desvalorização de parte da Zona Norte impulsionaram a dispersão das profissionais e, consequentemente, dos clientes.

— Muitas saíram da prostituição porque tiveram mais oportunidades. O Bolsa Família ajudou. Além de terem conseguido estudar, passam mais tempo com a família. Uns anos atrás, teve até uma que passou numa prova da área da saúde e devolveu o benefício — diz Cleide Almeida, representante da associação, onde costumam ser oferecidos cursos de capacitação.

A documentarista Chris Alcazar passou anos frequentando a Vila Mimosa para gravar o documentário “Quando vira a esquina”, da produtora TvZero, disponível no streaming. Nesse projeto, conheceu dezenas de garotas com histórias parecidas de filhos para criar após o abandono de maridos, da família ou de ambos. Na Vila, criam as personagens que garantem seu sustento.

— A história delas se repete de maneira assustadora. São mulheres pobres, periféricas, a maioria negra, mães solo: 99% das que conheci são mães solo. Aquilo ali é um recorte do país — diz a roteirista. — Percebo que lá nenhum homem quer ser visto. Elas vestem uma fantasia, performam. E eles tiram as máscaras. Mas não querem aparecer.