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Greve dos rodoviários: passageiros sofrem na volta para casa; sindicato não chegou a acordo com empresas

Paralisação vai continuar nesta quarta, quando acontece o segundo dia de negociações

Agência O Globo - 01/07/2026

A após a tentativa de acordo ser recusada em audiência no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-1), nesta terça-feira. Uma nova assembleia, marcada para esta quarta, dará sequência às negociações, aceitas pelas empresas de ônibus, mas recusadas pelo Sindicato dos Rodoviários. Do outro lado, passageiros que dependem desse modal na cidade sentiram o impacto da interrupção parcial do serviço: mais filas nos pontos, atraso para chegar ao trabalho ou em casa, além de transportes lotados.

A auxiliar de serviços gerais Shirlaine Marçal, de 42 anos, mora em Jardim Bangu, na Zona Oeste. Nesta terça-feira, ela precisou acordar às 3h30 para tentar, às 5h30, pegar condução até o trabalho, no Centro do Rio. O primeiro desafio foi a falta de ônibus até o Terminal de Deodoro. Depois de uma longa espera, conseguiu ajuda de uma van, que adaptou a rota para buscar o pessoal e levar até a estação do BRT. Apesar da antecedência na madrugada, ela acabou chegando atrasada ao serviço.

— Meus patrões já imaginavam que isso iria acontecer, então, não responsabilizaram ninguém. É horrível passar por isso. Eu nunca vi o Terminal Gentileza tão lotado assim. É uma fila imensa, com pouca informação para os passageiros sobre onde pegar o BRT. Está pior do que o trem. As pessoas estão entrando correndo, com risco até de caírem, se machucarem aqui — enfatizou.

Às 18h20, Shirlaine era uma das centenas de pessoas que aguardavam a vez nas filas do terminal. Funcionários anunciavam que os BRTs disponíveis eram só paradores, o que desanimava os presentes, com rostos cansados e ansiosos para chegar em casa. A estimativa dela, inclusive, era alcançar Jardim Bangu próximo às 21h.

— E eu ainda vou chegar em casa e cuidar dos filhos, do marido, da casa. Tenho que fazer janta, ver se tem roupa para lavar, lixo para jogar fora. É uma jornada que continua, só é mais cansativa devido à peregrinação até lá — concluiu.

A experiência de Shirlaine também foi compartilhada por Tamara Quintela, de 28 anos. Enfermeira especializada em higienização, ela conta que levou 1h40 da Praça da Bandeira, onde trabalha, até em casa, em Irajá — trajeto que normalmente faz em 25 minutos. Nesta terça, ela esperava repetir esse tempo, a começar pela falta do BRT expresso e das filas longas no Terminal Gentileza.

— É meio bizarro chegar aqui e ver esse monte de gente. É uma experiência que eleva nosso estresse, nosso desânimo em ir para o trabalho ou para casa. Depois, as pessoas não entendem o porquê das pessoas terem burnout. Nosso emocional também é afetado por esse deslocamento. A gente entende a causa dos rodoviários, claro, mas não temos culpa por essa situação — lamenta Tamara.

Nesta terça, ela saiu de casa às 5h40 e só às 9h45 conseguiu chegar ao trabalho.

— Estão dizendo que amanhã a frota vai estar ainda mais reduzida. É horrível viver isso. A gente acorda cansado, vai dormir cansado. Para nós mulheres, então, é ainda pior. Passamos por isso tudo e ainda temos que lidar com uma série de funções domésticas. E falo isso considerando que ainda não tenho filhos e que meu companheiro se responsabiliza por coisas em casa. De qualquer forma, é uma cabeça e um corpo sem respiro — diz.

A greve

Segundo o Sindicato dos Rodoviários, foi apresentada uma proposta pelo Tribunal e pelo Ministério Público do Trabalho para que eles adotassem o estado de greve, que suspenderia a paralisação, sem desconto dos dias parados. A proposta foi rejeitada, já que a maioria defendia a continuidade da paralisação.

O Rio Ônibus ainda apresentou proposta de reajuste salarial de 4,39% e informou que não faria nova oferta, alegando dificuldades financeiras e redução dos subsídios ao sistema de transporte. O sindicato cobra um reajuste dividido em duas parcelas, sendo uma de 8% agora e 8,3% em novembro, totalizando os 17% reivindicados pela categoria.

— O clima estava muito acirrado e os trabalhadores não aceitaram a proposta encaminhada pelo Tribunal. E na votação, eu coloquei em votação se suspenderíamos a paralisação ou se manteríamos a greve. A decisão da categoria por maioria foi a manutenção da greve por tempo indeterminado — diz Sebastião José, presidente do Sindicato dos Rodoviários.

O TRT-1 explica que, neste momento, ainda não foram apreciadas as questões relativas ao eventual descumprimento da decisão liminar. A fase atual do processo é destinada à tentativa de conciliação entre as partes. Assim, eventual descumprimento da determinação, aplicação de multa, definição do valor da penalidade e identificação de eventual responsável somente serão analisados posteriormente, caso não haja acordo e o processo tenha prosseguimento em razão da continuidade da greve.