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Grupos de WhatsApp viram “classificados” do crime com armas, drogas e veículos roubados

Comunidades com mais de 3.500 integrantes seguem ativas e reúnem anúncios de produtos roubados, documentos falsos, drogas e animais silvestres

Agência O Globo - 21/06/2026
Grupos de WhatsApp viram “classificados” do crime com armas, drogas e veículos roubados
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Uma aliança de casamento com o nome do proprietário gravado aparece à venda após um assalto na Barra da Tijuca. Logo abaixo, há o anúncio de um fuzil calibre 5,56 por R$ 55 mil. Em outra oferta, um filhote de macaco-prego, usando fralda e tomando mamadeira, é oferecido por R$ 5 mil. Já um Chevrolet Tracker Premier, avaliado em cerca de R$ 118 mil, sobe por apenas R$ 10 mil.

As postagens foram feitas em grupos de WhatsApp nas quais quadrilhas comercializam produtos roubados e serviços ilegais. Em novas comunidades, que reúnem mais de 3.500 membros e às quais O Globo teve acesso, é possível encontrar armas, veículos adulterados, documentos falsificados, contas para aplicativos de transporte, medicamentos controlados, drogas, joias e animais silvestres.

Embora alguns grupos sejam direcionados a nichos específicos, como automóveis roubados, a maioria funciona como uma espécie de compras clandestinas.

Identificados pelas bandeiras vermelhas, em referência ao Comando Vermelho, os grupos seguem regras próprias. Para permanecer nas comunidades, os participantes precisam demonstrar “seriedade”, tratar os demais com respeito e se apresentar ao entrar. Em uma das autoridades, os administradores alertam que não toleram “fanfarrões” nem divulgação de jogos de azar, sob pena de expulsão imediata.

A Polícia Civil informou que acompanha e investiga o uso de redes sociais e aplicativos de mensagens para a venda de objetos ilícitos e a prática de crimes. Segundo a corporação, o objetivo é identificar os envolvidos, reunir provas para embasar operações e responsabilizar os suspeitos perante a Justiça.

Procurada, a Meta Platforms, responsável pelo WhatsApp, informou que o aplicativo não permite o uso para fins ilegais nem para condutas que “instigem ou encorajem” práticas ilícitas ou inconvenientes. A empresa destacou que, por utilizar criptografia de ponta a ponta, não tem acesso ao conteúdo das mensagens. Também reforçou que os usuários são estimulados a denunciar condutas inapropriadas diretamente pelo menu do aplicativo.

“Feitos de tudo”

Entre as centenas de anúncios de carros e motos publicados em grupos, uma expressão aparece repetidamente: “feito de tudo”. O código é usado para indicar que o veículo tinha seus principais elementos de identificação adulterados. Placas são trocadas e o chassi — tipo de CPF do automóvel — é raspado ou modificado para dificultar o rastreamento e a identificação.

Os preços ajudam a dimensionar o alcance do mercado clandestino. Um Peugeot 208 Style 2025, zero-quilômetro e equipado com teto panorâmico, foi anunciado por R$ 8,5 mil. Pela tabela Fipe, o veículo vale R$ 81.571. Já um Chevrolet Tracker Premier 2024, avaliado em cerca de R$ 118 mil, apareceu por R$ 10 mil. Um Volkswagen Polo Track 2025 foi oferecido por R$ 7,5 mil, embora o preço de mercado seja de aproximadamente R$ 75,9 mil.

A procura é constante. “Cadê as Sahara toda feita?”, pergunta um integrante. Poucos minutos depois, outro usuário respondeu com fotos de uma Honda XRE 300 Sahara 2024. Enquanto uma unidade nova custava cerca de R$ 30 mil, o modelo era negociado por R$ 5,7 mil.

As conversas seguem a lógica de qualquer mercado convencional: há promoções, descontos e pressa para fechar negócio. Em um dos anúncios, uma BMW F 900 GS Adventure Plus 2025/2026, avaliada em cerca de R$ 81 mil, foi oferecida por R$ 11,5 mil à vista “para ir logo”.

Além dos veículos completos, há um comércio paralelo de peças automotivas e de motocicletas. Uma bateria original Honda é vendida por R$ 100 — no varejo, custa entre R$ 300 e R$ 500. Um conjunto com rodas originais, pneus Michelin, oscilantes e amortecedores aparece por R$ 1 mil, menos a metade do valor praticado em lojas especializadas.

Criminosos no volante

“Você tem uma conta bloqueada e não conseguiu resolver?” É assim que um dos vendedores aborda potenciais clientes específicos em trabalhar em aplicativos de transporte. A promessa é eliminar qualquer barreira. Segundo os anúncios, não seria necessário possuir CNH válida, e o veículo poderia estar com a documentação irregular.

Os criminosos oferecem ainda o cadastro de carros e motos em contas já existentes, mesmo quando os veículos não atendem às exigências das plataformas. Os preços variam conforme a situação da documentação. Para motociclistas, o serviço custa R$ 200 com documentos regulares e R$ 250 quando há pendências. Para carros, os valores vão de R$ 250 a R$ 300. Entre os requisitos para contratação nunca tiveram cadastro anterior no aplicativo e possuem o chamado “rosto limpo”.

Em nota, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) informou que a segurança de parceiros e usuários é prioridade e que não é autorizado qualquer tipo de comercialização de contas. A entidade afirmou ainda que a tentativa de uso de contas com acusações de fraude é uma prática proibida e pode gerar implicações legais para os envolvidos. Também alertamos para o risco de golpes destinados a obter dados pessoais e recursos financeiros das vítimas.

As irregularidades não se limitam ao transporte pelo aplicativo. Os mesmos grupos anunciam pessoas dispostas a assumir a autoria de multas de trânsito para evitar que os verdadeiros infratores percam pontos na carteira. Também há oferta de versões digitais do Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo (CRLV-e), acompanhadas do QR Code usado para validação. “Pare de andar sem documento”, anuncia um dos vendedores.

O catálogo se estende a documentos usados ​​em diferentes situações do cotidiano. Há atestados médicos por R$ 40; carteiras de identidade, comprovantes de residência, receitas médicas e notas fiscais de R$ 50; CNHs por valores entre R$ 100 e R$ 120; além de certificados de conclusão de curso e históricos escolares por R$ 90.

“Escritório do CV”

Uma das mensagens chama atenção pelo título: “Escritório do CV”. A publicação reúne uma extensa lista de equipamentos associados a ações criminosas. Entre os itens anunciados estão peças para fuzis e pistolas, como carregadores, coronhas, quebra-chamas, trilhos, guarda-mãos e lunetas. O catálogo inclui ainda coletes balísticos, rádios comunicadores, roupas táticas, granadas e carregadores de alta capacidade para fuzis, vendidos por até R$ 1,2 mil.

As ofertas vão de revólveres e pistolas a fuzis de uso restrito. Para demonstrar que o armamento funciona, os vendedores reuniram vídeos em que efetuaram disparos e exibiram as armas em operação.

Um revólver calibre .38 de cinco tiros é anunciado por R$ 4,7 mil, já acompanhado de munição. Uma pistola calibre .380 aparece por R$ 10 mil. Há ainda pistolas 9 milímetros por R$ 14,5 mil e modelos anunciados por até R$ 13,5 mil com dois carregadores comunicados.

Enquanto isso, um fuzil calibre 5.56 é oferecido por R$ 55 mil. Também estava disponível um Heckler & Koch G3, modelo de fabricação alemã amplamente utilizado por forças militares ao redor do mundo. Metralhadoras também aparecem nas conversas, embora os preços nem sempre sejam divulgados.

A venda de munição ocorre em paralelo. Há ofertas para os calibres 9 milímetros, .380, .38, .40, .45, 7.62, 5.56 e calibre 12. As caixas da fabricante CBC são anunciadas por valores entre R$ 500 e R$ 600, enquanto as munições para fuzis AK chegam a R$ 850.

O mercado clandestino inclui ainda os chamados “capetinhas”, bloqueadores de sinal usados ​​para impedir o rastreamento de veículos e aparelhos eletrônicos. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a comercialização, o uso, a porta e a circulação de bloqueadores de sinais de radiocomunicações são, como regra, proibidos no Brasil.

O equipamento tem uso restrito a determinados órgãos e entidades da administração pública. Sua comercialização é proibida e pode resultar em avaliações administrativas, como advertência, multa, apreensão de equipamentos e outras medidas cabíveis, sem prejuízo de eventual responsabilização civil e penal. Apesar disso, um modelo com dez antenas é vendido por R$ 150. Outro, com 24 antenas, custa R$ 3,5 mil.

Lucro com roubos

Joias e celulares ocupam outra frente importante das negociações. Em meio às ofertas de correntes, pulseiras e alianças de ouro, alguns vendedores chegam a mencionar as situações em que os objetos foram encontrados. Em um dos anúncios, uma aliança de casamento com os nomes dos proprietários gravados na parte interna é colocada à venda. O anunciante afirma que a peça foi retirada de uma vítima de assalto na Barra da Tijuca e oferece a possibilidade de resgate antes de revendê-la.

Os iPhones estão entre os produtos mais procurados. Um modelo 16 Pro Max com 256 GB foi anunciado por R$ 4,4 mil, cerca da metade do valor praticado no mercado. No texto, o vendedor ressalta que o aparelho “pode reiniciar, pode atualizar”, numa tentativa de demonstração que estaria apto para uso. Outro anúncio oferece um iPhone 14 com 256 GB por R$ 1,8 mil. Em lojas e marketplaces, aparelhos equivalentes costumam custar entre R$ 4 mil e R$ 5,5 mil.

A demanda é frequente. Em uma conversa, um membro identificado como “Prosperidade” procura iPhones bloqueados das linhas 11, 12, 13, 14 e 15, além de aparelhos desbloqueados mais antigos. "Quem tem? Valor justo. Sem preço de maluco!", escreve.

Além da Apple, há descontos de descontos de smartphones Samsung, Motorola e Oppo, frequentemente comercializados em lotes. Quem adquire esses aparelhos pode ser enquadrado no crime de receptação.

Entorpentes a quilo

Os grupos também funcionam como ponto de venda para diferentes tipos de drogas. Os anúncios costumam ser acompanhados de fotos e vídeos nos quais os vendedores manuseiam os entorpecentes e destacam características como aparência, cor, textura e suposta pureza dos produtos.

As ofertas se concentram principalmente em derivados de cannabis, cocaína, drogas sintéticas e lançamento-perfume. Em uma das mensagens, um integrante anuncia: “200g de ice melt, maconha top verdinha, muito litro de black lança”.

Entre os produtos oferecidos está a chamada “flor”, nome dado aos botões da planta da cannabis, anunciado por até R$ 8 mil o quilo. Também aparecem diferentes variedades de maconha, vendidas por valores entre R$ 550 e R$ 1,4 mil o quilo, além da chamada “Colômbia Gold”, anunciada por R$ 8,2 mil o quilo.

Os anúncios incluem ainda os resultados mais concentrados da cannabis. O “gelo seco” ou “gelo”, produto obtido a partir da degradação da resina da planta e comercializado em placas, aparece por valores entre R$ 1,2 mil e R$ 2,1 mil a cada 100 gramas. Em outro anúncio, um vendedor oferece “gelo bruto” por R$ 7,7 mil.

A cocaína também é anunciada em grupos. Em uma das publicações, um quilo da droga é oferecido por R$ 14,5 mil. Há ainda ofertas de lançamento-perfume, substância inalante frequentemente associada ao consumo recreativo em festas e eventos.

Sem receita

As negociações não se restringem a produtos tradicionalmente ligados ao mercado ilegal. Entre os anúncios encontrados pela reportagem estão produtos usados ​​para elegância que desativam a prescrição médica.

Um dos vendedores anuncia caixas de Mounjaro, medicamento à base de tirzepatida utilizado no tratamento do diabetes tipo 2 e absolutamente procurado para perda de peso, por valores a partir de R$ 1,2 mil. Outro oferece uma caixa fechada de tirzepatida com quatro ampolas por R$ 1,1 mil.

Há ainda anúncios de Lipoless 60 mg — conhecido informalmente como “Mounjaro do Paraguai” e sem registro no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — por R$ 1,3 mil por ampola, além da venda de substâncias químicas em grandes quantidades. Adrenalina, anfetamina, cafeína e lidocaína aparecem por valores entre R$ 600 e R$ 1,3 mil o quilo. Também há ofertas de tetraciclina, antibiótico vendido por R$ 3 milhões o quilo.

Macaco-prego e filhote de jiboia em promoção

Nem mesmo os animais ficam fora do catálogo. Em um dos vídeos obtidos pela reportagem, um vendedor oferece um filhote de macaco-prego por R$ 5 mil. O animal aparece usando fralda, tomando mamadeira e apoiado nos ombros do anunciante. Espécie nativa do Brasil, o macaco-prego só pode ser comercializado com autorização dos órgãos ambientais e comprovação de origem legal.

Outro anúncio oferece um filhote de jiboia com cerca de 50 centímetros por R$ 1 mil, com retirada no Complexo do Salgueiro. Nas imagens compartilhadas no grupo, a cobra é exibida enquanto é manuseada pelo vendedor.

A venda de animais silvestres sem autorização configura crime ambiental. A legislação brasileira proíbe a comercialização, aquisição, transporte ou manutenção desses animais quando não houver licença dos órgãos competentes.