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Cariocas viram ícones populares nas rodas de samba do Rio

Movidos por paixão e fidelidade ao batuque, Celynho Show, Elvis Macedo e Tetê Pagodeira fazem do samba um modo de vida

Agência O Globo - 21/06/2026
Cariocas viram ícones populares nas rodas de samba do Rio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Os versos “Eu nasci com o samba, no samba me criei / do danado do samba nunca me separei”, escritos por Dorival Caymmi no clássico “O samba da minha terra” , puderam definir a trajetória de três cariocas que transformaram o gênero musical mais brasileiro em profissão de fé.

Presenças constantes nas rodas de samba do Rio, destacam-se cada uma à sua maneira: Tetê Pagodeira , pelo gingado; Celynho Show , pelo figurino e pela dança de malandro; e Elvis Macedo , pelo conhecimento precoce da obra de sambistas de gerações muito anteriores à sua.

As melhores rodas de samba 2026

— O samba é tudo para mim. Várias vezes me mostraram que poderia me manter de pé quando eu não tinha mais forças. Não queria entrar nesse lado para não amolar, mas só de parentes enterrei 23. Em vários momentos de tristeza, como quando sofri recentemente um acidente gravíssimo de moto e quebrei o fêmur, foi o samba que me clamou — testemunha Elvis, de 22 anos.

Apesar do nome de roqueiro, o jovem é devotado ao samba de bambas como Wilson Batista, Geraldo Pereira e Noel Rosa, artistas que viveram e morreram antes mesmo de ele nascer.

Roqueiro só no nome

O nome Elvis foi ideia do pai, um capitão de corveta da Marinha que admirava Elvis Presley. Ao mesmo tempo, ele era fã de Zé Ketti, Herivelto Martins, Ataulfo ​​Alves, Jorge Veiga e Aracy de Almeida, a ponto de manter em casa uma coleção com mais de cinco mil discos desses e de outros artistas brasileiros do mesmo período.

Foi por meio desse acervo doméstico que Elvis, aos 5 anos, teve o primeiro contato com o samba de alta qualidade e se apaixonou pelo ritmo. Aos 15, aprendi a tocar cavaquinho sozinho. Em 2023, decidiu levar o instrumento a sério e passou a frequentar aulas de música.

Em paralelo, começou uma circular por rodas de samba. A primeira foi a do Samba do Trabalhador , em 2022. Desde então, não parou mais. Hoje, quem quiser encontrá-lo pode passar pelas rodas do Alfa Bar e Cultura, na Rua do Mercado; do Bip Bip, em Copacabana; ou do Terreiro de Crioulo, em Realengo, entre muitas outras.

Como preza pela qualidade, Elvis diz que frequenta, em média, dez sambas por mês. Mas a regularidade com que é visto esses encontros deixa a impressão de que o número pode estar subestimado.

— Elvis é um moleque novo, mas onde você pensa que ele está — afirma Marquinhos de Oswaldo Cruz, para quem o jovem é talentoso e “toca como antigamente”.

Elvis perdeu o pai ainda na infância, a mãe na adolescência e não tem irmãos. Por isso, costuma dizer que o samba virou sua família. No dia a dia, equilibra bandejas como garçonete na filial do Bar da Frente, em Copacabana, onde mora. É essa atividade que consta em sua carteira de trabalho.

Ao mesmo tempo, ele busca cada vez mais a profissionalização como músico. Nas rodas, nem sempre é apenas como espectador: muitas vezes ocupa a mesa, dá canjas ou toca mediante pagamento, o que já lhe garante uma renda extra.

Seu maior orgulho é, por meio da música, ter passado a conviver com ídolos como Chico Buarque, Guinga e Moacyr Luz. Este último, por sinal, comanda uma das rodas preferidas do rapaz.

— Há pelo menos cinco anos vou ao Samba do Trabalhador toda semana, mas sou apaixonado mesmo pela roda do Bip Bip, em Copacabana. É um lugar que mantém a tradição do samba, respeitando e reverenciando a música e os mestres, sem falar do repertório, que vai de Paulinho da Viola a Paulo Vanzolini, de Dona Ivone Lara a Arlindo Cruz.

Um malandro na roda

Vestido a rigor como a entidade Zé Pelintra, para uns, e como típico malandro carioca, para outros, Célio Roberto Justino , o Celynho Show, de 56 anos, chama atenção nas rodas de samba pelo figurino: terno branco sempre impecável, gravata vermelha e lenço da mesma cor no bolso.

Nos pés, usa sapato bicolor, em branco e vermelho. O chapéu branco, com faixa rubra, completa ou visual. A bengala é o charme extra que ajuda na coreografia.

— Aos 10 anos começou essa minha paixão pelo Zé Pelintra e pela malandragem. Gostava de chapéu, terno e sapato branco, mas não entendia o motivo. Ficava dançando na frente do espelho com as roupas do meu avô — conta.

O samba entrou em sua vida aos 16 anos, quando passou a desfilar como mascote pela Acadêmicos do Engenho da Rainha, escola do bairro onde nasceu e que atualmente disputa a Série Prata, na Intendente Magalhães, em Campinho. Foi ali que incorporou os trejeitos de malandro.

As rodas de samba vieram logo em seguida. Celynho começou pelas da Lapa, que nos anos 1980 ainda não eram tão importantes como hoje. Depois, foi desbravando outros bairros.

— Renatinho Partideiro, que era meu vizinho, me convidou ao Cacique de Ramos, e aquilo virou programa de todos os domingos. Depois descobriu o Pagode da Tia Doca, em Madureira, e passou a dividir a preferência entre os dois — afirma o ex-funcionário do Clube de Aeronáutica.

Celynho garante frequentar 30 rodas de samba por mês, média de uma por dia. Atualmente, o Samba do Trabalhador, no Andaraí; as rodas do Armazém do Senado, no Centro; e as da Gamboa disputaram sua preferência.

Mais do que espectador, ele também se tornou atração em algumas delas. Celynho costuma ser contratado para levar sua dança de malandro em festas de aniversário, terreiros de cultos afro-brasileiros e rodas dedicadas a Zé Pelintra, especialmente fora do Rio de Janeiro.

O molejo também fez fama de outra figurinha carimbada das rodas de samba cariocas. Franzina, de cabelos brancos e óculos de grau, Tereza Cristina Gonçalves , de 68 anos, divide a rotina entre a criação de dois netos, de 12 e 15 anos, e os pagodes da vida.

Um vídeo gravado de forma despretensiosa, com imagens dela dançando com a irmã em uma festa de família, foi publicado nas redes sociais e rapidamente alcançou 60 mil visualizações. Bastou para animar a fazer novas postagens. Nascia ali a personagem Tetê Pagodeira , como passou a ser conhecida na internet.

Fama nas redes

Um sambista popular em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, orgulha-se especialmente de um vídeo em que aparece ao lado do músico Chacal do Sax e que já foi visto por mais de oito milhões de pessoas.

Uma delas foi a rainha de bateria da Mangueira, Evelyn Bastos, que repostou a imagem. A soberana da verde e rosa se encantou com o gingado da veterana. “Nota 10 pra ela exalando ancestralidade, amor e toda a força do nosso samba!”, elogiou na publicação.

Dona Tetê se apaixonou pelo samba ainda jovem, quando desfilou pela Lins Imperial, escola de samba da região onde nasceu, o Complexo do Lins. Com duas crianças pequenas para criar, fruto de dois relacionamentos que duraram um pouco, ela conta que precisou dar uma sossegada.

Depois de se aposentar pela prefeitura, onde trabalhou como gerente de pessoal, e com os filhos já crescidos, decidiu voltar à batucada.

— Tem gente que se aposenta e vai procurar uma atividade de qualquer forma para preencher o tempo. Eu escolhi o samba — diz, soltando uma gargalhada.

Ela faz tanto sucesso que já virou madrinha de três rodas. São justamente o que mais gosta de prestigiar: Samba da Feira, em Campo Grande; Batuque de Favela, em Realengo; e Quintal da Cris, na Vila da Penha.

— O samba é meu alicerce. Minha base de apoio. Quando danço, esqueci tudo de ruim. É a melhor terapia — defina.