RJ em Foco
Choque de gerações: 50+ lotam baladas enquanto jovens preferem corridas ao amanhecer
No Rio, jovens trocam a madrugada por treinos, trilhas e cafés pós-corrida, enquanto adultos acima dos 50 vivem uma nova fase de festas, dança e sociabilidade
Kika Gama Lobo, de 61 anos, costuma voltar para casa perto das 4h da madrugada, depois de mais uma noite de festa. Enquanto tira os sapatos e se prepara para dormir, encontra a filha, a influenciadora de corrida Valentina Archer, de 27, acordando para treinar antes do amanhecer.
A cena, frequente no apartamento onde as duas vivem, em Ipanema, na Zona Sul do Rio, parece inverter papéis tradicionais. Mas revela, na verdade, um curioso choque geracional em uma cidade historicamente associada tanto à boemia quanto à vida ao ar livre.
Enquanto jovens ocupam pistas de corrida, fazem filas em trilhas e transformam saúde e bem-estar em estilo de vida, o público acima dos 50 anos, sem abandonar os cuidados com o corpo, vive uma espécie de segunda juventude em festas, rodas de samba e eventos exclusivos.
— Uma das minhas filhas é corredora de rua e participa de maratonas. Dorme às 20h e acorda às 4h, tem uma vida regrada. Eu sou o oposto: bebo chope e vinho, saio e dou festa na madrugada, na companhia do meu namorado, de 65 anos. Quando ela está acordando, eu vou dormir. Eles encaretaram, e a gente está vivendo essa elasticidade do tempo — resume Kika.
A Geração Z se cuida
O que Kika observa dentro de casa se repete em diferentes pontos da cidade. Programas antes associados a uma fase mais madura da vida, como acordar cedo, priorizar o sono e controlar a alimentação, passaram a atrair cada vez mais cariocas da Geração Z, formada por pessoas nascidas entre 1995 e 2010.
Com 1,3 milhão de seguidores nas redes sociais, o influenciador e humorista Leandro Junior, de 23 anos, conhecido como LD Junior, é um dos rostos desse movimento. Ao compartilhar sua rotina de corridas, treinos e programas diurnos, ele popularizou entre os seguidores o bordão “o life é esse mesmo”, em referência a lifestyle, ou estilo de vida.
— Já vivi a fase da balada, da madrugada e das noitadas. Nada contra, faz parte. Mas percebi que aquilo não entregava resposta positiva nem para o meu trabalho, nem para a minha saúde. Quando comecei a correr, acordar cedo e me alimentar melhor, passei a ter mais disposição, criatividade e energia. Hoje sinto que sou mais feliz dessa forma — afirma.
No universo da balada do qual LD se afastou, Kika se diverte e também empreende entre contemporâneos acima dos 50 anos. Ela promove a festa Kikando, no Jardim Botânico, que já teve oito edições lotadas, com 320 ingressos vendidos em cada uma. O evento ocorre a cada quatro meses, entra pela madrugada e tem nova edição prevista para 14 de agosto.
Na pista, o público se solta ao som da disco music das décadas de 1970 e 1980. Quem quiser pode recorrer a um professor para orientar os passos. O repertório revisita nomes como Michael Jackson, Donna Summer, Tina Turner e Cher.
— Tem gente que vai de bengala, tem gente em tratamento de câncer, tem gente que se descobriu gay aos 60, 70 anos. Mas é bom que se diga: não é uma festa de velho, tem uma pegada mais ardida. Vejo a química acontecer, beijos e amassos no meio da pista. Nossa geração está entregando tudo — descreve Kika.
Para LD Junior, o interesse da juventude por programas mais leves acompanha uma mudança de imaginário. Durante anos, a vida noturna ocupou o centro das aspirações exibidas nas redes sociais. Agora, hábitos ligados à saúde, ao desempenho físico e à qualidade de vida passaram a despertar admiração semelhante.
— Durante muito tempo, ficou muito hypado o lifestyle da madrugada, da bebida e da noitada. Quando as pessoas começaram a ver que dava para se divertir, cuidar da saúde e ainda se sentir bem no dia seguinte, foram se identificando naturalmente com esse conteúdo — diz o influenciador.
“Na melhor fase da vida”
Nos fins de semana, os pontos de encontro da geração mais jovem se espalham pelas pistas da Lagoa Rodrigo de Freitas, pelos calçadões de Copacabana e Ipanema e pelo Aterro do Flamengo ao amanhecer. Entre um treino e outro, surgem novas amizades, paqueras e até relacionamentos. Não por acaso, muitos brincam que os grupos de corrida se tornaram o novo Tinder da Geração Z.
O médico Roberto Katz, de 69 anos, pertence a outra turma — e faz questão de afirmar isso.
— Curto baladas, adoro dançar e vou a festas onde posso paquerar mulheres. Gosto de me vestir bem, de um bom vinho e de uma cervejinha — apresenta-se. Ele conta que já foi a quatro edições da festa Kikando e que, em uma delas, precisou disputar o último ingresso disponível.
— Estamos na melhor fase da vida. Finanças arrumadas, filhos criados, muitos de nós divorciados, saúde em dia e sem grandes preocupações com trabalho. Então, curtir a vida nos momentos vagos é o objetivo. Já vivemos mais de 50% do nosso tempo — observa Katz.
Curtir a vida também é lema da atriz e professora Leda Ribas, que completa 94 anos este ano. No início do mês, ela viralizou ao estrear, no Instagram, a série “Coisas que jovens há mais tempo podem fazer no Rio”. No primeiro episódio, recomendou o Armazém Cardosão, tradicional botequim com música ao vivo em Laranjeiras.
No vídeo, Leda aparece dançando e sentada, aproveitando o ambiente. Depois da publicação, o número de seguidores do perfil saltou de menos de 300 para mais de 10 mil em apenas um dia.
Leda conta que a ideia de produzir conteúdo foi dos netos João Filipe Rocha, responsável pelas gravações, e Daniel Rocha, que edita os vídeos. Eles também administram o perfil da avó.
— Eu sou muito ativa e gosto de me divertir. Adoro um samba, adoro um bar. Costumo ir ao Cardosão às terças-feiras, que é o dia do jazz. O que eu não gosto é de ficar em casa. Tenho filhos e netos, mas não preciso de ninguém. Sou absolutamente independente — afirma.
Para LD Junior, a busca por qualidade de vida não significa abrir mão da diversão.
— Às vezes as pessoas acham que uma corrida é só uma corrida, mas não é. Você conhece pessoas, faz amizades, cria conexões. Depois vai tomar um café, senta para conversar. O jovem está procurando conexão de verdade. Não é só sair por sair — avalia.
Atividade física e azaração
A tendência também é percebida pelo guia de turismo Gabriel Cardoso, criador da página Laudo de Cria. Acostumado a conduzir grupos por trilhas do Rio, ele observa que a internet ajudou a transformar esses programas em verdadeiros fenômenos de público.
— Hoje a trilha do Vidigal, por exemplo, vive lotada. Tem fila para subir de mototáxi, fila para entrar na trilha, fila para tirar foto lá em cima e fila para descer — relata Cardoso.
Segundo ele, o mesmo movimento é observado em locais como Pedra Bonita, Pedra da Gávea, Morro da Urca e Parque Lage, onde exercício físico, paquera e produção de conteúdo para as redes sociais se misturam.
A mudança de hábito levou a piauiense Andreia da Silva a planejar a comemoração de seu aniversário de 31 anos, no próximo dia 24, de uma forma diferente. Moradora da Tijuca, na Zona Norte do Rio, ela decidiu trocar a ideia de uma festa junina por um desafio: convidou amigos para correr 31 quilômetros em homenagem à idade que está prestes a completar.
Alguns convidados prometeram encarar o percurso completo. Outros participarão apenas de parte do trajeto.
— O importante é estar junto, e eu acho que consigo, ainda mais com companhia — diz a aniversariante.
Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carlos Eugênio Soares de Lemos explica que os estilos de vida de cada geração podem ser influenciados por diferentes percepções sobre o tempo.
— Muitos jovens têm a percepção de que têm pouco passado, mas muito futuro. Muitos idosos, por outro lado, têm a percepção oposta, então há um certo sentimento de urgência. Os jovens, por sua vez, são pressionados por determinado padrão estético; há a corrida por um corpo atraente, que possa servir como capital sociocultural — analisa o especialista.
Ele ressalta, porém, que gerações não são blocos homogêneos.
— Na verdade, existem vários tipos de juventudes e velhices — conclui.
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