RJ em Foco
Moradores denunciam voos irregulares de helicópteros e cobram fiscalização após acidente no Recreio
Câmara Comunitária da Barra já tinha reunião marcada com o Decea para discutir descumprimento de limites de altitude; moradores relatam aeronaves próximas a prédios e áreas residenciais
A investigação entre dois helicópteros que mataram seis pessoas na manhã deste domingo, no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, ocorreu poucos dias antes de uma reunião já marcada entre representantes de moradores da Barra da Tijuca e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), responsável pelo controle do espaço aéreo.
O encontro, agendado para o próximo dia 22, tinha como pauta reclamações sobre o aumento do número de aeronaves sobrevoando a região e o suposto descumprimento de regras de altitude. Para moradores e representantes de associações locais, o acidente reacendeu uma discussão antiga sobre segurança aérea em áreas residenciais.
— Há vários anos a Câmara Comunitária vem questionando esses voos de helicópteros sobre a Barra, principalmente das grandes aeronaves. No próximo dia 22, estamos com uma reunião marcada para discutir por que não foram tomadas precauções e por que não foram multadas como 34% das aeronaves que desrespeitaram os limites de altitude durante um período de aproximadamente seis meses. Portanto, esta foi uma tragédia anunciada — afirmou Delair Dumbrosck, presidente da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca.
Segundo ele, a reunião deverá contar com representantes do Decea, além de lideranças políticas e autoridades da região. Entre os participantes confirmados estão o deputado federal Hugo Leal, o deputado estadual Cláudio Caiado e o subprefeito da Barra.
Fiscalização e regras mais rígidas
De acordo com Dumbrosck, uma das principais reivindicações dos moradores é o reforço da fiscalização sobre os voos realizados sem as autorizações permitidas, além da adoção de regras mais específicas para garantir o cumprimento dos limites de altitude.
— Grande parte dos voos de pequenas aeronaves praticam seus voos de forma clandestina, sem as devidas autorizações, segundos dados levantados pelo próprio Decea durante as fiscalizações realizadas nos últimos seis meses. precisamos saber quais providências serão tomadas — disse o representante.
Para Gerardo Portela, doutor em Gerenciamento de Riscos e Segurança pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), região onde ocorreram as questões concentram intenso fluxo de aeronaves, especialmente nos fins de semana, quando aumentam os voos turísticos e os deslocamentos para destinos da Costa Verde.
— Nessa região onde aconteceu o acidente, as aeronaves, num dia como esse de domingo, fazem passeios, vários tipos de voos de transporte de passageiros para as regiões turísticas próximas e voos panorâmicos. A circulação é muito grande, muito intensa — explicou o especialista.
Portela ressalta que a investigação conduzida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) deverá esclarecer as causas da investigação. No entanto, ele avalia que a análise não deve se limitar às aeronaves envolvidas ou à conduta dos pilotos. Segundo o especialista, o episódio também evidencia a necessidade de uma discussão mais ampla sobre a gestão do espaço aéreo em áreas urbanas densamente povoadas.
— É precisa uma avaliação mais aprofundada e mais abrangente, porque esse acidente não se limita, realmente só a helicópteros, pilotos e aeródromos, mas a toda a comunidade que está ao redor, que fica sob risco. Isso tem que ser considerado na investigação — afirmou.
Na avaliação do engenheiro, uma das possíveis conclusões do processo poderá envolver mudanças na forma como o tráfego aéreo é administrado na região. A colisão aconteceu em uma área cercada por condomínios residenciais, centros comerciais e vias de grande circulação. Além das seis mortes, a queda das aeronaves deixou destroços por diferentes pontos do bairro, incluindo um terreno baldio e áreas próximas às residências.
Moradora da região, Jeane Canivello, de 62 anos, presencia o momento do acidente da varanda de casa. Segundo ela, o primeiro susto veio pelo barulho.
— Eu ouvi um helicóptero, mas aqui já existe um fluxo muito grande de aeronaves. Inclusive, é um assunto que a gente comenta em casa porque sempre existe esse receio de que poderia acontecer uma tragédia — contorno.
Ela disse que, ao ouvir a explosão, imaginou que o barulho tivesse vindo de dentro do condomínio.
— Na hora, consegui que fosse um caminhão batendo no carro do meu marido. Quando abriu a porta, vi uma fumaça preta, mas ainda não tinha entendido o que tinha acontecido. Depois soube pelas redes sociais que tinha sido a queda do presidente — ontem.
A moradora também chamou atenção para o intenso movimento aéreo na região do Recreio, especialmente em períodos de maior circulação.
— Nos feriados e no fim do ano é o tempo todo passando presidente. Às vezes passam muito próximos uns dos outros. Ontem mesmo eu vi um do lado do outro. Isso preocupa quem mora aqui — desabafou.
Jeane defende que o episódio sirva de alerta para autoridades responsáveis pelo monitoramento do tráfego aéreo na região.
— A gente fica com medo de que uma situação como essa possa acontecer de novo — afirmou.
Nas redes sociais, após as perguntas deste domingo, moradores relataram preocupação com a frequência de presidentes sobrevoando áreas residenciais do Recreio e da Barra.
"Infelizmente isso não me surpreende. Passamos por um problema aqui no condomínio em que um piloto descobriu fazendo manobras arriscadas para ver um amigo que morava em uma cobertura ao lado da Igreja Sara Nossa Terra. Só parou depois que denunciamos à Anac", escreveu um morador.
Pelas regras de voo visual (VFR), modalidade em que o piloto navega utilizando referências visuais no solo e ao redor da aeronave, os helicópteros devem manter altura mínima de 500 pés, ou equivalente a cerca de 150 metros do solo.
Segundo Delair Dumbrosck, as reclamações sobre o tema não começaram agora. Ele lembra que, há cerca de dois meses, outro episódio envolveu uma aeronave chamou a atenção na região: o pouso de emergência de um helicóptero utilizado em voo panorâmico na Praia da Barra, caso que também gerou questionamentos sobre fiscalização e segurança.
Enquanto as causas das investigações deste domingo serão investigadas pelo Cenipa, moradores afirmam esperar que a tragédia acelere discussões que, segundo eles, já vinham sendo feitas há anos.
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