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A ‘Noite Oficial dos Óvnis’: há 40 anos, caças da FAB perseguiram objetos não identificados
Episódio de 1986 mobilizou pilotos, controladores e radares militares, e segue como um dos casos mais intrigantes e bem documentados do gênero no Brasil
Parece roteiro de cinema, mas aconteceu no Brasil. Na noite de 19 de maio de 1986, o então tenente Kleber Caldas Marinho, de 25 anos, estava em seus aposentos na vila dos oficiais da Base Aérea de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando recebeu, às 22h27, o chamado para uma missão. Pelo horário, ele sabia que dificilmente se tratava de treinamento.
No hangar, o caça F-5, prefixo FAB-4848, já estava pronto. Em apenas sete minutos, a aeronave decolou. Os detalhes da operação só foram repassados ao piloto quando ele já estava no ar: a missão era interceptar objetos voadores não identificados, os óvnis, detectados por radares do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta), na região de São José dos Campos, no Vale do Paraíba paulista.
Os acontecimentos daquela noite, que incluíram momentos de tensão e caças brasileiros em condição de combate, entraram para a história como a “Noite Oficial dos Óvnis”. Quatro décadas depois, o episódio segue considerado um dos casos mais impressionantes e bem documentados envolvendo fenômenos aéreos não identificados no Brasil.
O caça pilotado por Kleber Marinho levou cerca de 15 minutos para chegar à área onde os objetos haviam sido avistados. Ele foi o primeiro dos cinco caças da Força Aérea Brasileira (FAB) acionados naquela noite a decolar e se aproximar dos alvos. Além dos registros incomuns captados pelos radares, houve relatos de controladores de voo e de outros observadores sobre luzes que realizavam manobras incompatíveis com aeronaves conhecidas à época.
Contato visual
Ao todo, 21 objetos foram mapeados naquela noite. Em contato permanente com os operadores em terra, Kleber chegou relativamente perto de um deles. O contato, porém, não foi imediato. Após uma varredura nas imediações de São José dos Campos, o F-5 foi redirecionado para o litoral.
Em entrevista concedida por telefone, o comandante Kleber Marinho, hoje com 65 anos, relembrou detalhes da missão.
— Quando já estava sobre a região do litoral, em uma área de escuridão bastante profunda, olhando para a minha direita, vi uma luz muito forte, que destoava de todo o contexto. A impressão que eu tinha é que se deslocava da direita para a esquerda, como se estivesse quase em ângulo de interceptação da minha aeronave — relatou o piloto.
Segundo ele, o Cindacta foi consultado sobre a possibilidade de haver algum avião comercial naquele corredor. A resposta foi negativa.
— Então informei que tinha um contato visual. Nesse momento, o Cindacta informou que também tinha aquele alvo no radar e que, a partir dali, era “rojão” para eu me dirigir até o alvo — afirmou.
No jargão da FAB, “rojão” significa que a aeronave entra em modo de combate, pronta para utilizar os armamentos disponíveis a bordo. Se for hostilizado, o piloto tem autonomia para revidar; caso contrário, o emprego de metralhadoras e mísseis depende de autorização expressa.
— Após o comando de “rojão”, curvei na direção do alvo, comecei a descer um pouco mais com o avião, acionei a pós-combustão e entrei em modo supersônico. Nesse momento, liguei o meu radar — a orientação inicial era mantê-lo desligado — e, na primeira varredura, ele já pegou um alvo sólido à minha frente. Na segunda varredura, confirmou aquele alvo — contou.
O objeto logo desapareceu do campo de visão. Um ajuste no radar do caça, no entanto, permitiu que ele fosse novamente detectado, desta vez em altitude maior.
— Não me recordo se cheguei a 8 milhas ou 6 milhas de distância, algo entre 9,6 km e 12,8 km, mas o fato é que, mesmo supersônico, eu não conseguia chegar mais perto. Minha velocidade não permitia uma aproximação maior do que aquela. A segunda detecção no radar confirmou algo importante: eu tinha realmente um alvo sólido à minha frente, e ele possuía um movimento regular — disse.
‘Não tem explicação’
A perseguição durou pouco. Em velocidade supersônica, o consumo de combustível aumenta de forma significativa, o que limitou o tempo de acompanhamento do objeto.
— Eu vi que não estava me aproximando mais, reduzi um pouco o motor e segui o alvo até pouco mais de 30 mil pés, cerca de 9 mil metros, já visualizando com mais dificuldade e sem contato no radar. O combustível estava perto do mínimo para voltar à base, então iniciei o regresso a Santa Cruz. E essa foi a história do Jambock 17 naquela noite dos óvnis — afirmou o comandante, em referência ao código de chamada das aeronaves do 1º Grupo de Aviação de Caça da FAB.
A missão durou 1h03. Kleber Marinho deixou a FAB ainda nos anos 1980 e construiu carreira na aviação comercial. Aposentado desde o ano passado, ele afirma que nunca mais voltou a presenciar algo parecido.
— Hoje o céu está muito povoado por satélites e outros fenômenos que, muitas vezes, são confundidos com objetos incomuns. Quem não está habituado pode interpretar de forma equivocada. Vemos satélites, estrelas cadentes, fenômenos atmosféricos, coisas que têm explicação. Mas aquilo que vi não tem explicação. Apresentava movimento regular, possuía luz própria e se deslocava de forma consistente. Isso me leva a acreditar que havia algo inteligente operando aquele objeto — declarou.
Relatórios e áudios
A repercussão da “Noite Oficial dos Óvnis” foi imediata. A notícia se espalhou rapidamente e levou a FAB a convocar uma entrevista coletiva dias depois. O engenheiro aeronáutico Ozires Silva, que voltava de Brasília após reunião com o então presidente José Sarney, pilotava um Xingu da Embraer quando também testemunhou o fenômeno.
À época, Ozires relatou ter visto “um corpo bastante mais alongado, talvez da cor de uma lâmpada fluorescente”, e afirmou ter circulado várias vezes com o avião para observar o objeto. “Sinceramente, não sei dizer o que era efetivamente”, declarou.
O fato de o episódio ter sido registrado por pilotos da Força Aérea, controladores de tráfego aéreo e radares militares contribuiu para que o caso recebesse o adjetivo “oficial”. Anos depois, documentos sobre o episódio foram disponibilizados pela FAB, junto com outros registros semelhantes, no Arquivo Nacional.
Entre os materiais disponíveis há relatórios detalhados e áudios com diálogos entre controladores e pilotos durante a série de avistamentos. Pelos registros, o primeiro alerta foi emitido às 20h15 pelo Centro de Controle de Brasília, após comunicação de São José dos Campos sobre “luzes se deslocando sobre a cidade”, com predominância de cor vermelha e variações para amarelo, verde e alaranjado.
O último registro ocorreu à 0h30, já em 20 de maio, com o pouso, na Base Aérea de Anápolis (GO), do último dos cinco caças enviados para tentar interceptar os alvos.
A FAB mantém registros de relatos sobre óvnis desde a década de 1950. Em um dos documentos, aparecem 662 casos. A análise ano a ano mostra picos de avistamentos entre 1977 e 1978, período que coincidiu com o lançamento do primeiro filme da saga “Guerra nas Estrelas” nos Estados Unidos e, posteriormente, no Brasil. Ao todo, foram 148 registros nesses dois anos, o equivalente a 22,3% da série histórica.
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