RJ em Foco
Investigado por integrar esquema do TCP ostentava luxo e viagens internacionais
Polícia Civil aponta mais de R$ 20 milhões em movimentações financeiras atípicas nas contas dos investigados
Durante investigações sobre um esquema atribuído ao Terceiro Comando Puro (TCP), voltado à expulsão de moradores do entorno do Morro de São Carlos, no Estácio, Região Central do Rio de Janeiro, a Polícia Civil identificou um núcleo responsável pelo suporte financeiro da organização criminosa. Segundo os investigadores, o grupo atuava na movimentação e na ocultação de recursos obtidos por meio de extorsões contra comerciantes e moradores da região.
A partir da quebra de sigilo telefônico dos investigados, os agentes descobriram que um dos suspeitos mantinha uma rotina de luxo, com viagens internacionais e passeios em destinos turísticos.
Identificado como Cristiano Portelinha, o investigado aparece em fotografias exibindo um padrão de vida considerado pela polícia incompatível com a renda declarada. Em alguns registros, ele surge pilotando jet ski e participando de passeios de quadriciclo. Em outra imagem, aparece posando em Machu Picchu, no Peru. De acordo com a Polícia Civil, as apurações identificaram mais de R$ 20 milhões em movimentações financeiras consideradas atípicas nas contas dos investigados.
Pelo menos 21 pessoas físicas e jurídicas são investigadas por suspeita de envolvimento no esquema. Nesta sexta-feira, os agentes cumpriram 43 mandados de busca e apreensão nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 60 milhões, além do sequestro de imóveis, veículos de luxo e outros bens e valores que teriam sido usados pelo grupo para ocultar patrimônio.
Entenda a operação
Segundo investigações da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco/IE), o esquema era comandado por chefes do tráfico ligados ao TCP. Quatro deles foram identificados como Leonardo Miranda da Silva, conhecido como Léo Empada; Marcílio Cheru de Oliveira, o Menor Cheru; Rafael Carlos da Silva Ferreira, o Parazão; e Anderson Rosa Mendonça, o Coelho. Este último está preso à disposição da Justiça por outros crimes.
De acordo com a polícia, Parazão é natural de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Foragido da Justiça mineira, ele teria recebido apoio do TCP para se esconder em comunidades controladas pela facção. Rafael também é suspeito de comandar o tráfico no Morro da Mineira, além de coordenar a venda de armas entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Além de Parazão, também tiveram prisões decretadas e são considerados foragidos os traficantes Léo Empada e Menor Cheru.
As investigações da Draco/IE apontam que a quadrilha não se limitava ao tráfico de drogas e ao controle armado do São Carlos. Segundo a polícia, o grupo implantou um sistema de exploração econômica contra moradores do entorno do morro, impondo medo a comerciantes e residentes por meio de ameaças, extorsões e constrangimentos.
As apurações indicam que vítimas eram forçadas a abandonar seus imóveis para que os bens fossem transferidos a pessoas ligadas ao tráfico. Esses imóveis, conforme a polícia, eram usados para ampliar o patrimônio dos criminosos e fortalecer a influência do TCP na região.
— Eles coagiam moradores da região periférica do Morro de São Carlos para que deixassem seus imóveis. Percebemos, durante a investigação, que os alvos eram moradores e comerciantes. O que apuramos é que indivíduos ligados ao tráfico exigiam o pagamento de taxas de comerciantes para que pudessem permanecer nos respectivos locais. Alguns moradores eram forçados a abandonar imóveis ou obrigados a vendê-los por preços muito abaixo do mercado. Depois, os bandidos ocupavam esses imóveis e forjavam documentos para caracterizar a posse. Algumas das residências eram destinadas a pessoas ligadas aos traficantes; outras eram alugadas; e algumas transformadas em imóveis comerciais explorados pelo tráfico — afirmou o delegado Jefferson Ferreira, titular da Draco/IE.
Segundo o delegado, o avanço de facções criminosas e milícias para áreas no entorno de regiões dominadas por esses grupos já é observado em outras partes do Rio. As investigações também apontam que empresas de fachada eram usadas para ocultar e movimentar recursos ilegais da facção.
— Temos atentado para o avanço das facções criminosas. Estamos combatendo essas expansões — disse o delegado.
A estrutura de lavagem de dinheiro, conforme a Draco, estaria diretamente ligada à cúpula do TCP e funcionaria como mecanismo para fortalecer a organização criminosa e sua expansão patrimonial. As provas reunidas apontam a atuação de chefes da facção na articulação logística com criminosos de Minas Gerais, na coordenação territorial e na estrutura financeira usada para ocultar e reinserir dinheiro do crime na economia formal.
Venda de armas
Além do suposto esquema de lavagem de dinheiro, a investigação identificou uma estrutura voltada à venda de armas, responsável pelo abastecimento de comunidades dominadas pelo TCP. De acordo com a polícia, integrantes da organização atuavam não apenas como operadores financeiros e gestores patrimoniais, mas também em funções ligadas à negociação, intermediação e aquisição clandestina de armamentos.
Durante a operação, os policiais apreenderam drogas, celulares, computadores, dinheiro e um veículo de luxo. O material foi encaminhado para a sede da Draco, na Cidade da Polícia, no Jacaré, Zona Norte do Rio.
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