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Rio amplia ações para combater violência e golpes contra idosos

Casos recentes, com prejuízos de até R$ 300 mil, reforçam campanha de conscientização e prevenção em todo o estado

Agência O Globo - 11/06/2026
Rio amplia ações para combater violência e golpes contra idosos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Policiais do Programa Segurança Presente prenderam, nesta terça-feira, um homem acusado de agredir uma mulher de 73 anos no Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O atendimento contou com o apoio de assistentes sociais, responsáveis pelo acolhimento da vítima e pelo encaminhamento à rede de proteção.

O caso é mais um exemplo dos impactos da vulnerabilidade enfrentada por pessoas idosas e reforça a necessidade de ampliar ações sociais, preventivas e de proteção voltadas a essa parcela da população.

Durante o Junho Violeta, mês dedicado à conscientização e ao combate à violência contra a pessoa idosa, a Polícia Militar do Rio de Janeiro tem intensificado a orientação sobre a importância da atuação integrada entre sociedade e poder público para garantir direitos e proteção.

Casos de agressão, negligência, abandono ou qualquer outra forma de violência contra pessoas idosas devem ser denunciados pelo telefone 190 ou pelo aplicativo 190RJ. Também está disponível o Disque 100, canal que funciona 24 horas por dia para receber denúncias de violações de direitos humanos.

Além da violência física, a exposição a golpes virtuais e fraudes financeiras também preocupa as autoridades no estado do Rio. A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos intensificou as ações do Junho Violeta em diferentes municípios, com capacitações técnicas e pesquisas realizadas diretamente com o público idoso, a fim de identificar vulnerabilidades e desafios enfrentados no cotidiano.

O órgão já promoveu palestras em Mendes, São Francisco de Itabapoana, Aperibé, Nova Iguaçu, Porciúncula, Araruama e Arraial do Cabo, com foco na escuta ativa e no uso seguro de ferramentas tecnológicas como estratégia de prevenção. Nesta quinta-feira, uma nova ação foi realizada em Belford Roxo. Outra atividade está prevista para o dia 18 de junho, em Duque de Caxias.

Entre as iniciativas desenvolvidas está a dinâmica “Pelo direito de continuar sonhando”, que utiliza recursos de realidade virtual para estimular reflexões sobre projetos e desejos ainda não realizados pelos participantes. A campanha também promove a troca de cartas entre idosos de diferentes cidades, fortalecendo vínculos afetivos e ampliando a conscientização sobre direitos e formas de proteção.

Alerta para fraudes

A aposentada Gelcimar da Silva Cruz quase se tornou vítima de um dos golpes mais comuns. Um criminoso entrou em contato por telefone fingindo ser seu filho e solicitou uma transferência bancária urgente.

— Ligaram para a minha casa e, quando atendi, o rapaz me chamou de mãe e disse que precisava muito que eu fizesse um depósito para ele. Meu filho tem uma loja, ainda assim, achei estranho. Quando olhei a foto de perfil, era muito antiga, de quando meu filho estava no quartel, e o número também era diferente — contou.

Desconfiada, ela decidiu confirmar a informação diretamente com o filho.

— Meu filho e eu moramos no mesmo quintal. Ele tinha acabado de sair da minha casa; praticamente, estava no portão. Eu o chamei e perguntei se ele havia trocado o número do celular. Meu filho negou. Então, mostrei a foto e o número de quem tinha feito a chamada e percebemos que era um golpe — relatou.

Para a superintendente de Políticas para a Pessoa Idosa, Loana Saldanha, o avanço das fraudes exige ações permanentes de prevenção, informação e orientação.

— Os dados mostram que a violência, especialmente por meio de golpes e fraudes, tem se intensificado e, muitas vezes, passa despercebida. Ao mesmo tempo, a tecnologia pode ser tanto uma ferramenta de inclusão quanto um fator de risco. Por isso, essa campanha nasce com o compromisso de ampliar a informação e garantir que as equipes técnicas dos municípios e também as pessoas idosas estejam preparadas para usar esses recursos com segurança, reconhecendo ameaças e se protegendo de golpes cada vez mais sofisticados — afirmou.

Como acontecem os golpes

Segundo o Dossiê da Pessoa Idosa de 2024, o estelionato está entre os crimes mais praticados contra esse público. O levantamento aponta que 84% das ocorrências acontecem durante o dia, principalmente às terças e quintas-feiras. O estudo também identificou aumento nos casos de violência contra idosos no estado, com quase 200 vítimas de maus-tratos registradas no período analisado. Mais da metade dos episódios ocorreu dentro do ambiente familiar.

No mês passado, um grupo suspeito de aplicar o chamado “golpe do amor” contra uma idosa de 71 anos foi preso em Belém. Segundo a Polícia Civil do Pará, os criminosos usavam a imagem do ator Keanu Reeves para simular um relacionamento amoroso e convencer a vítima a realizar transferências bancárias. O prejuízo estimado foi de R$ 300 mil.

Na mesma semana, uma mulher foi presa em Goiânia após se passar por um cantor internacional e causar perdas de cerca de R$ 60 mil a uma idosa.

Segundo Daniel Blanck, advogado especialista em Direito Digital e Civil, os golpes amorosos estão entre as formas mais cruéis de violência patrimonial, porque exploram sentimentos antes de atingir o patrimônio da vítima.

— O criminoso se aproxima oferecendo afeto, companhia e atenção, muitas vezes em um momento de solidão, luto, separação ou fragilidade familiar. A vítima não é ingênua; ela é manipulada emocionalmente por alguém que estudou suas carências e construiu uma narrativa convincente para obter dinheiro — explicou.

De acordo com o especialista, esses casos podem configurar crimes como estelionato, extorsão, associação criminosa e lavagem de dinheiro. O impacto, porém, não se limita às perdas financeiras.

— Muitos idosos perdem economias de uma vida inteira, comprometem aposentadoria, vendem bens e fazem empréstimos. Quando descobrem o golpe, ainda enfrentam vergonha, culpa e medo de contar à família, o que dificulta denúncias e a recuperação dos valores — disse.

O especialista em tecnologia da informação Arthur Lebrum destaca que a popularização das redes sociais e dos aplicativos de mensagens ampliou as oportunidades para esse tipo de fraude. Segundo ele, criminosos utilizam técnicas de engenharia social para criar vínculos emocionais e induzir vítimas a realizar transferências bancárias ou compartilhar dados pessoais.

— Grande parte dessas fraudes é baseada na manipulação emocional. Os golpistas estudam hábitos, interesses e vulnerabilidades para construir histórias convincentes. Muitas vezes, assumem identidades falsas, utilizando fotos e informações de terceiros para transmitir credibilidade — explicou.

Entre os principais sinais de alerta apontados pelos especialistas estão pedidos de dinheiro, recusas frequentes a chamadas de vídeo ou encontros presenciais, histórias dramáticas envolvendo emergências financeiras e solicitações para manter o relacionamento em segredo.