RJ em Foco
Após 27 anos, última viagem dos trens do Rio operados pela SuperVia acontece nesta sexta-feira
Nas viagens feitas pela reportagem, foi constatado que trens fabricados entre as décadas de 1970 e 1980, apelidados pelos usuários de “caveirões”, ainda sacolejam com passageiros ao cruzar os trilhos
Vinte e sete anos e seis meses após assumir a concessão dos trens que ligam o Rio a outros 11 municípios, a SuperVia faz hoje, pela última vez, o transporte dos cerca de 300 mil passageiros que utilizam diariamente o serviço. Seu ato de despedida será uma composição que sairá às 23h01 da Central do Brasil para Japeri. A partir de amanhã, a empresa vai ser vencedora pela TrensRJ, operadora criada pela permissionária Nova Via Mobilidade, consórcio de fundos de investimento investidor da licitação realizada pelo estado em fevereiro.
Os donos do crime:
Caso Henry:
A equipe de reportagem do GLOBO percorreu por três dias seguidos os cinco ramais da malha ferroviária — há ainda três extensões — e encontrou problemas que se multiplicaram ao longo dos anos. Em novembro de 1998, por exemplo, no início da gestão da SuperVia, apenas na estação Jacarezinho, do ramal Belford Roxo, havia a presença de tráfico. Agora, pelo menos 13 estações sofrem algum tipo de influência do crime organizado.
Com uma malha ferroviária que passa às margens de 179 comunidades controladas por grupos de criminosos, apenas o Grupamento de Policiamento Ferroviário da Polícia Militar atua no sistema. Só em março de 2026, segundo dados apurados por meio da Lei de Acesso à Informação, 26 partidas foram canceladas ou interrompidas por motivos relacionados a problemas de segurança pública.
Nas viagens feitas pela reportagem, foi constatado que trens fabricados entre as décadas de 1970 e 1980, apelidados pelos usuários de “caveirões”, ainda sacolejam com passageiros ao cruzar os trilhos. Também há atrasos, viagens demoradas, escadas rolantes defeituosas, falta de limpeza e sinais de vandalismo, como marcas de apedrejamento nos vidros das cabines dos maquinistas.
Praça Onze Maravilha:
Linha Vermelha - Deodoro: de 'queridinho' à decadência
Até outrara feita como o "queridinho" da rede de trens do Rio, com composições novas e com intervalos curtos, o Ramal Deodoro foi suspenso durante a pandemia, momento em que seus passageiros passaram a ser atendidos pelo Ramal Santa Cruz, "rebaixado" a parador, à época. Uma nova grade foi implantada pela SuperVia em 2024, com o retorno de Deodoro, mas a nova realidade foi bem diferente da que já existia no passado.
Esse ramal atende 18 estações, 12 delas de forma exclusiva, já que os expressos não param nelas. Os intevalos, que já foram de 6 minutos (segundo o site da Supervia) no passado, atualmente chegam a bater 20 minutos.
Atualmente, sua frota é composta por composições de quatro vagões — enquanto o Santa Cruz e o Japeri operam com oito — e os trens, apesar de equipados com ar-condicionado, nem sempre são os mais novos da frota.
— De manhã, venho no (ramal) Japeri até o Engenho de Dentro, onde (o ramal Deodoro) enche de gente para descer no Méier. Esses quatro carros são muito sufocantes: se fossem oito, não íamos passar tanto aperto como tem sido — avalia o porteiro Almir Oliveira, que mora em Ricardo de Albuquerque e trabalha no Méier.
'Sem Alma':
Um modelo de trem fabricado em 2005 é uma figurinha carimbada no trajeto entre a Central do Brasil e Deodoro, com o sistema de som à moda antiga (o maquinista é quem anuncia as estações, no gogó, como no passado) e as lâmpadas à mostra, já que o sistema de iluminação é alvo de vandalismo. Fora da composição, a vida também não é fácil: no Méier, o acesso à plataforma é feito por escadas rolantes, que nesta semana passou pelo menos três dias inoperantes, voltando a funcionar na manhã desta quinta-feira.
Usuário diário do sistema, Almir elogia melhorias ocorridas ao longo do tempo, como a refrigeração dos vagões e a segurança maior, já que os trens não fazem viagens com portas abertas, cena que, num passado não muito distante, era corriqueira. Mas suas reclamações vão do preço alto da tarifa até a paralisação do sistema em dias de chuva.
— Se chover, para funcionar. Aqui no Méier, a água sobe (aponta para a parede, com água acima das rodas) e em Deodoro também, que tem um rio que enche — completo o porteiro.
Linha Verde - Santa Cruz
Na Central do Brasil, de onde partem as linhas expressas sentido Santa Cruz, o cenário chama atenção. Sacos de lixo, caixas de papelão e estruturas improvisadas se espalham pelo chão, dificultando a passagem dos passageiros, quase sempre apressados no vai e vem da estação. Nas pilastras, sujeira acumulada e pichações reforçam a sensação de descaso, enquanto a poeira cobre parte das composições.
Em alguns trens, as para-brisas estão marcadas pelo impacto de pedras, e as janelas riscadas e pichadas dentro dos vagões completam o retrato de exclusão. Nem mesmo a sinalização do vagão feminino parece ter acompanhado as mudanças da lei: há composições sem adesivação adequada e, em outras, os avisos antigos com horários já ultrapassados parecem rasgados ou desgastados pelo tempo. Em meio ao caos cotidiano, um ou outro fiscal ainda circula pelas plataformas.
No entanto, quando o trem parte, já não é mais possível fiscalização notarial ou segurança nas paradas seguintes. Pela manhã, quando os passageiros se movimentam no horário de pico para ir ao trabalho, o que chama atenção é a superlotação e a demora nos intervalos dos trens.
Larissa Silva, de 24 anos, é recepcionista e pega o ramal Santa Cruz todos os dias para ir e voltar do trabalho. No trajeto de Cosmos até a Central do Brasil, precisa sair de casa às 5h40 para garantir que chegue às 7h ao trabalho. Entretanto, a cautela de sair cedo nem sempre impede atrasos. Isso acontece, segundo ela, por causa dos intervalos irregulares das composições.
— Eu pego mais cedo para chegar aqui no horário do trabalho, só que demora muito. Às vezes chego 7h30 no trabalho por causa do trem — destaca ela, que também atribui a demora à superlotação: — O trem não dá vazão, demora a sair porque não consegue fechar a porta pela quantidade de gente. Aí fica um tempão abrindo e fechando a porta até conseguir.
Na hora de voltar para casa, acompanhada da colega de trabalho Geisa Lucindo, de 38 anos, as duas preferem aguardar na Central até conseguirem um lugar para sentar na composição. Essa espera, em alguns dias, já ultrapassou duas horas.
— Muitas vezes, estamos sentadas esperando o trem sair, mas a previsão muda e o que sai é o do outro lado da plataforma. Aí é uma correria: quem estava sentado precisa mudar para o outro trem e vai amassado. É um desespero, e isso acontece muito. Uma vez saímos do trabalho às 16h e só conseguimos seguir para casa às 19h30 — conta.
Entre as reclamações dos passageiros na volta para casa também estão a falta de fiscalização nas estações e a pouca iluminação, que reduz a visibilidade e aumenta a sensação de insegurança. Entre as estações consideradas mais perigosas pelos usuários da linha estão Padre Miguel, Senador Camará e Santíssimo.
Nova legislação:
Linha Azul - Japeri
Composições cheias, longas viagens em pé, defeitos constantes e o fim de partidas extras da estação de Queimados. Essas são algumas das principais queixas dos usuários de trens deste ramal.
Ontem, o GLOBO viajou em uma composição que saiu de Japeri às 6h22 e só chegou à Central do Brasil às 7h59. O trajeto durou 97 minutos, 22 a mais do que em 1998, quando o estado concedeu o transporte ferroviário à iniciativa privada.
— Antigamente, havia trens saindo de Queimados pela manhã, mas acabaram com isso. Eu saía de casa às 6h e conseguia viajar sentada. Agora, levanto mais cedo, saio às 5h30 e embarco para Japeri. Só assim para conseguir um lugar no trem — conta a diarista Maria José, de 62 anos.
Nos fins de semana, a situação não é muito diferente. Com intervalos maiores e sem trens diretos, o percurso, dizem usuários, pode durar ainda mais tempo.
‘Ela parecia não acreditar’,
Linha Roxa - Belford Roxo
Na última terça-feira, o GLOBO viajou do Centro do Rio para Belford Roxo e passou por trechos que cortam comunidades onde há tráfico às margens da malha ferroviária, como a favela do Jacarezinho.
A viagem começou às 19h45. O trem, com destino à cidade da Baixada, era antigo, fabricado entre as décadas de 1970 e 1980. Apesar de reformado e com o ar-condicionado funcionando, era muito barulhento.
Governador em exercício:
Nesta composição, apelidada de “caveirão” pelos usuários, os assentos são coletivos, com bancos destinados a três e cinco pessoas. No trecho entre as estações Mercadão de Madureira e Barros Filho, a sensação de quem viaja sentado nos últimos bancos é de estar dentro de um liquidificador. Em certos momentos, os assentos, aparentemente não estando totalmente estabelecidos, tremem e as pessoas chegam a ser impulsionadas para o alto à medida que a velocidade aumenta.
Linha Laranja - Gramacho
Os trens do ramal Gramacho/Saracuruna cortam territórios controlados por duas facções criminosas: Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP).
Ontem, O GLOBO voa no ramal, embarcando por volta das 9h05. A primeira comunidade que aparece logo após a saída de Gramacho é o bairro Corte Oito, onde fica a favela da Mangueirinha. O local tem territórios controlados pelo CV.
Pé-Sujo e Pé-Limpo:
Após a estação de Duque de Caxias, vêm Vigário Geral, Parada de Lucas e Cordovil. Faz parte do Complexo de Israel e tem áreas sob o domínio de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, um dos chefes do TCP.
A última comunidade cortada pela via férrea é a de Manguinhos, sob domínio do CV. Durante a viagem, concluída às 9h52, não houve registro de tiroteios.
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