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Policial penal é afastado temporariamente após tentar entrar com caixa de caneta emagrecedora sem registro da Anvisa em presídio do Rio

Inspetor foi barrado no scanner ao entrar no Evaristo de Moraes com anabolizantes, hormônios e uma caixa de retatrutida, substância ainda não autorizada no Brasil; caso expõe avanço do mercado clandestino das 'canetas' no estado

Agência O Globo - 18/05/2026
Policial penal é afastado temporariamente após tentar entrar com caixa de caneta emagrecedora sem registro da Anvisa em presídio do Rio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Às 8h40 da manhã de 29 de janeiro deste ano, um scanner instalado na entrada do Presídio Evaristo de Moraes, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio, interrompeu a rotina de controle de acesso da unidade prisional. Na mochila de um inspetor de Polícia Penal, o equipamento identificou anabolizantes, hormônios e uma caixa de identificada como “retatrutida 40mg”, substância sem registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que sequer foi oficialmente lançada no mercado mundial.

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Como nasce o medo:

O caso levou ao afastamento provisório do policial penal e à abertura de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) pela Secretaria estadual de Administração Penitenciária (Seap).

Segundo registros internos da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) obtidos pelo GLOBO, a tentativa aconteceu durante o procedimento padrão de revista realizado na portaria do presídio, na Rua Bartolomeu de Gusmão. Servidores e prestadores de serviço passavam por scanner corporal e inspeção de bolsas quando o equipamento acusou a presença de materiais suspeitos dentro da mochila do inspetor.

De acordo com o relato, o procedimento ocorreu na presença do diretor da unidade e de outro policial penal lotado na portaria. Após a abertura da mochila, foram encontrados frascos de Durateston Plus Gold, gonadotropina coriônica humana, drostanolona propionato e uma caixa da caneta emagrecedora identificada como “retatrutide 40mg”.

Ao ser questionado sobre o material, Bernardo afirmou que estava “em processo de separação” e alegou que as substâncias seriam destinadas a uso próprio.

O episódio acabou transformando o servidor em mais um personagem de uma cadeia clandestina, como mostrou a , que movimenta medicamentos de emagrecimento como mercadoria de alto valor no Rio, um mercado que mistura contrabando internacional, revenda informal, clínicas irregulares e roubos milionários em farmácias.

Após a apreensão, o inspetor foi informado de que seria conduzido à 17ª DP, em São Cristóvão, para apuração da origem, legalidade e procedência das substâncias encontradas. O material foi apreendido e o caso gerou um registro de ocorrência policial.

Dias depois, em 2 de fevereiro, a Seap publicou no Diário Oficial o afastamento provisório do servidor. Em 24 de fevereiro, a secretaria instaurou oficialmente um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para investigar o caso. Um novo despacho, publicado em março, manteve registrado o afastamento referente ao período entre 29 de janeiro e 5 de março.

Documentos da corregedoria obtidos pela reportagem mostram ainda que o policial penal foi convocado neste mês a comparecer à 4ª Comissão Permanente de Inquérito Administrativo, na Cidade Nova, acompanhado de advogado, para prestar esclarecimentos.

A presença da retatrutida chama atenção de investigadores e autoridades sanitárias porque a substância virou uma espécie de nova joia do mercado clandestino do emagrecimento. Diferentemente do Ozempic, Wegovy e Mounjaro — que possuem versões autorizadas pela Anvisa — a retatrutida ainda não tem registro sanitário no Brasil nem lançamento oficial aprovado internacionalmente. Mesmo assim, ela já circula em grupos clandestinos de venda no Rio.

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Em resposta ao GLOBO, a Anvisa afirmou que medicamentos sem registro não podem ser comercializados “em nenhuma hipótese”, já que não tiveram qualidade, eficácia e segurança avaliadas pelas autoridades brasileiras. A agência alertou ainda que produtos vendidos fora de farmácias regularizadas são considerados clandestinos e não oferecem garantias sobre composição, armazenamento ou conservação.

Dados obtidos pelo GLOBO junto à Receita Federal mostram que o número de apreensões saltou de 115 unidades em 2024 para 1.026 em 2025, um aumento de quase nove vezes. Só até abril deste ano, outras 1.771 unidades já haviam sido retidas no Rio.

A Polícia Federal também identificou avanço acelerado do mercado. Em 2025, foram apreendidos 794 medicamentos. Em 2026, até agora, já são 796, número que supera todo o ano anterior sem que 2026 tenha chegado à metade.