RJ em Foco
Invasão gringa: um terço dos estúdios lançados por imobiliária na Zona Sul do Rio foi comprado por estrangeiros
Crescimento da procura internacional por imóveis compactos para aluguel de curta temporada impulsiona lançamentos e atrai investidores europeus, latino-americanos e árabes para bairros turísticos da cidade
Compactos e funcionais, os estúdios têm preço convidativo, porém, não chegam a encabeçar as listas dos objetos de desejo daqueles que sonham em comprar um imóvel. Isso, claro, em condições normais. Mas, se a fórmula incluir uma cidade como o Rio, repleta de belezas naturais, atrações culturais e megaeventos... a coisa muda de figura. Além disso, a possibilidade de conjugar o uso pessoal em certos períodos com o aluguel por temporadas ao longo do ano, ampliando o espaço em fonte de renda, e o combo fica completo. Brasileiros de vários cantos descobertos o filho há tempos, mas não estão sozinhos: o mercado imobiliário carioca detectou uma bem-vinda “invasão” de estrangeiros nesses pequenos notáveis.
Praça Onze Maravilha:
Passagem:
Responsável por administrar nove mil estúdios disponibilizados para aluguéis de curta temporada em 64 empreendimentos no Rio, a Lobie, especializada na gestão desse tipo de imóvel, viu o percentual de estrangeiros entre seus clientes saltar de cerca de 2% há três anos para quase 18% em 2026. São 1.620 estúdios nas mãos de gringos. A maior fatia do bolo fica com os europeus: 41% do total. Em seguida vêm nossos vizinhos latino-americanos (32%), seguidos por cidadãos dos EUA (14%) e dos Emirados Árabes Unidos (10%, sendo 7% só de Dubai). O restante é pulverizado entre clientes de outras nacionalidades.
— A gente viu o fluxo de estrangeiros aumentar dramaticamente nos últimos anos. O Rio é uma vitrine internacional do Brasil, tem apelo muito forte para eles, que já conhecem esse modelo de aluguel de curto prazo, em que o imóvel pode ser rentabilizado e, quando o proprietário quiser usar, basta desbloquear os dados. É um modelo consolidado lá fora. Essa nova oferta de estúdios segue um padrão globalmente aceito, e o Rio está atraindo muita demanda — explica Ernesto Otero, CEO da Lobie.
Mudança na lei
Pesquisa recente feita pela Patrimóvel indicada na mesma direção: dos 54 estúdios negociados pela imobiliária entre novembro do ano passado e abril deste ano em Copacabana, Ipanema e Leblon, 32% foram comprados por estrangeiros, conforme publicado no blog do colunista Ancelmo Gois, do GLOBO. Entre os clientes, espanhóis, romenos, suíços, franceses, ingleses, neozelandeses e, principalmente, argentinos.
Que situação é essa?
— A gente vem lançando estúdios nos últimos dois, três anos. Desde que a legislação mudou, a demanda dos compradores estrangeiros surpreendeu. Os novos empreendimentos já permitem, em convenção, o aluguel por curto período — diz Vitor Moura, sócio-presidente da Patrimóvel. — Em linhas gerais, os compradores de fora frequentam o Rio uma ou duas vezes por ano e, quando não estão usando, colocam o imóvel para alugar.
Em 2010, o argentino Federico Fariza deixou a pequena cidade de Goya, em Corrientes, embarcou em um cruzeiro e teve seu primeiro contato com o Rio de Janeiro. Foi rápido, mas deu vontade de voltar. Dois anos depois, aqui ele estava para o réveillon. Daí para se mudar de vez foi um pulo. Primeiro Búzios, depois a capital. Desde 2019, Fariza trabalha por aqui como corretora de imóveis e não demorou a perceber, como seus compatriotas que fizeram negócios com o Patrimóvel, a chance de investir na compra de estúdios recém-lançados para locação.
— Recebi meu estúdio, no Centro, no ano passado, e pensei em estender meus investimentos para Copacabana, Ipanema e Leblon — contate o corretor. — O interesse (de estrangeiros) cresceu porque o Rio se tornou um destino de investimento global altamente competitivo. Há uma demanda enorme por hospedagem de qualidade via plataformas digitais. Além disso, as facilidades atuais de financiamento para estrangeiros tornaram o processo muito mais simples.
A procura de estrangeiros por estúdios foi bloqueada também pela Cury Construtora, que conta com 2.267 unidades deste tipo lançadas no Rio. Do total, 4% foram negociados diretamente com clientes de fora do Brasil.
— Não era assim há dois ou três anos. Tio até que criar formas específicas de comercialização para esse público. A própria análise de crédito com documentos estrangeiros adaptação — revela Adriano Pereira Affonso, diretor comercial da construtora.
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O Opportunity Imobiliário, responsável por empreendimentos com foco em Copacabana e Ipanema, confirma o movimento do mercado.
— Posso dizer que, da nossa carteira, mais de 20% dos compradores são estrangeiros, uma grande parte composta por europeus de perfil bem variado, com diversas profissões declaradas — atesta Marcelo Naidich, gestor do fundo cuja coleção de empreendimentos reunidos sob a marca Be.in.Rio terá cinco lançamentos só este ano, num total de 212 unidades e Valor Geral de Vendas (VGV) esperados de R$ 265 milhões.
Câmbio
Além do hype criado em torno da cidade nos últimos anos, o valor convidativo dos imóveis — especialmente para quem trabalha com euro e dólar — também tem espaço.
— As pessoas se interessam e, quando comparam o preço do imóvel com os valores praticados no país delas, não fazem nem conta, acaba saindo muito barato. Essa facilidade do câmbio torna o mercado brasileiro totalmente acessível — analisa Gabriel Pecly, responsável pela área de Novos Negócios da Balassiano Engenharia.
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Pecly identifica ainda, no perfil dos específicos, a incidência de casais em que um dos parceiros é estrangeiro:
— Eu diria que esse perfil é o que mais compra da gente. Um é estrangeiro e o outro, brasileiro. Tem vínculo afetivo que influencia na decisão.
Para Claudio Castro, diretor da Sérgio Castro Imóveis, a chegada de investidores estrangeiros é bem-vinda. Ele não vê risco de acontecer por aqui o que se inspirou em cidades europeias — a exemplo de Barcelona, na Espanha — , onde a febre de aluguéis por temporada gerou críticas pelo impacto nos preços praticados pelo mercado local:
— O Rio não é Barcelona. Temos um parque imobiliário muito degradado. A entrada de investidores estrangeiros está ajudando a reformar esses imóveis. Isso está mudando a cara do mercado.
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