RJ em Foco

‘Não quero ser a mulher biônica’: no Maio Amarelo, conheça o drama das vítimas de acidentes de moto no Rio

Com frota em expansão, fiscalização insuficiente e infrações sem freio, as unidades de saúde acabam sofrendo o impacto: cirurgias eletivas precisam ser postergadas, e os estoques de bolsas de sangue mínguam

Agência O Globo - 10/05/2026
‘Não quero ser a mulher biônica’: no Maio Amarelo, conheça o drama das vítimas de acidentes de moto no Rio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

“Não quero ser uma mulher biônica”. A frase foi dita por Luana Garcia da Silva Machado, de 33 anos. Vítima de um grave acidente de moto em 19 de abril, quando o veículo conduzido por um amigo bateu de frente com um ônibus na descida do Joá, na Zona Sudoeste do Rio, ela quer parar de andar no veículo de duas rodas. O piloto morreu no acidente e Luana sofreu várias fraturas. Operou os braços direito e esquerdo. Mas, mesmo estabilizado, seu fêmur esquerdo ainda depende da cirurgia. A intervenção foi colocada no chamado mapa cirúrgico três vezes. Mas os agendamentos foram adiados por emergências. A Moradora do Vidigal, na Zona Sul da capital, segue internada no Hospital Municipal Miguel Couto.

Vídeo:

'Impacto severo':

— Preciso esperar minha vez — conforma-se Luana. — Peguei muita moto de aplicativo. Você evita.

Na semana passada, um vídeo chocante mostrou um acidente envolvendo uma motocicleta na Gávea, na Zona Sul do Rio. O piloto do veículo avançou um sinal na Rua Marquês de São Vicente, uma das principais vias do bairro da Zona Sul, acertou uma criança e a arremessou cerca de meio metrô à frente. Por sorte, a menina não sofreu lesões graves e recebeu alta do Miguel Couto após passar pelos exames.

Unidades de saúde sofrem impactos

A despeito das campanhas e do movimento internacional Maio Amarelo, voltado para reduzir os acidentes e as mortes no trânsito, números mostram o crescimento das vítimas: motocicletas e similares — como ciclomotores e autopropelidos — são os grandes vilões. Com frota em expansão, fiscalização insuficiente e infrações sem freio, como unidades de saúde, que têm capacidade finita, resultam danos ou impacto: cirurgias eletivas precisam ser postergadas, e os estoques de bolsas de sangue mínguam, obrigando a realização de constantes campanhas de ação.

Acidentes em série:

— Os acidentes de trânsito deixaram de ser apenas uma questão de transporte, passando a ser uma questão de saúde pública. Ano após ano, vêm aumentando, principalmente os de moto. De cada dez acidentes de trânsito que são atendidos em nossa rede, sete são de moto — lamenta o secretário municipal de Saúde do Rio, Rodrigo Prado. — Não tem jeito. Aumentando o número de emergências, tenho que reduzir as eletivas, deixando o paciente internado por mais tempo. Às vezes, tenho sala, tenho profissionais, mas não tenho sangue para relatar o gasto numa emergência e preciso adiar uma eletiva.

Um internodo por hora

Dados do sistema DataSUS, extraídos a pedido do GLOBO pelo Grupo IAG Saúde e pela Planisa — que atuam em gestão e tecnologia para a saúde —, revelam que, numa década (2015/2025), 1.736 pessoas morreram no estado do Rio devido a acidentes com motos. No período, esses veículos acarretaram 67.180 internações nas unidades públicas fluminenses. Só em 2025, foram 10.106 internações, ou um paciente internado por hora, em média.

Em 2015, as internações por acidentes desse tipo no estado eram a metade. Apenas na cidade do Rio, em 2025, foram 1.545 hospitalizados. São Gonçalo ficou em segundo lugar, com 1.230. E todos os 92 municípios do estado tiveram pelo menos um paciente internado por acidente envolvendo motocicletas.

Vídeo:

Segundo a Secretaria estadual de Saúde, o gasto com tais internações nas redes públicas do estado, entre 2019 e 2026, alcançou R$ 97 milhões: o terceiro no ranking das causas externas, só perde para quedas e “exposição à corrente elétrica, à radiação e às temperaturas e pressão extremas do ambiente”.

Os valores se multiplicaram nos cálculos do IAG Saúde e da Planisa, chegando a R$ 850 milhões na década comprovada. Os consultores estimam o custo médio da internação de cada vítima de moto em R$ 12.340,99.

Cifras à parte, há o sofrimento dos pacientes. Gerente de um restaurante em Botafogo, Irismar Pereira Neves, de 56 anos, voltou ao trabalho para sua casa no Itanhangá, na madrugada do fim do mês passado, quando os pneus de sua moto derraparam próximo à Rocinha. Na queda, sofreu uma pancada sem circulação e precisou drenar a articulação. Ele também fraturou o tornozelo direito e precisará de cirurgia.

— Pilotava há três anos. Nunca houve acidente. Respeito ao trânsito. Os bombeiros falaram que tinha óleo na pista. De moto, vou fazer trabalho para casa em 16 minutos. De ônibus, são mais de duas horas. Mas você vende uma moto e um andar de ônibus. A dor para drenar o transporte foi muita — conta Irismar, internado numa enfermaria de Miguel Couto, onde, segundo o diretor Cristiano Chame, cinco dos sete pacientes foram vítimas de moto na última quarta-feira.

Palácio Tiradentes faz 100 anos:

O impacto das vítimas de motos é tanto que, nos dois hospitais municipais do Rio, o Andaraí e o Barata Ribeiro, na Mangueira, foram criados alas da ortopedia exclusivas para esses pacientes, com 62 leitos no total.

1 paciente, 20 bolsas de sangue

A 39 quilômetros de Miguel Couto, no Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), em São Gonçalo, referência no atendimento de traumas com alta complexidade, a situação não muda. Lá, a internação de vítimas de trânsito aumentou 30% nos quatro primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período de 2025. A situação se torna ainda mais grave se considerarmos que 80% deles estavam pilotando ou na garupa de uma moto.

— No domingo passado (retrasado), teve um paciente de moto que consumiu 20 bolsas de sangue (cada uma tem cerca de 450 gramas). Esses pacientes muitas vezes são graves e recentes de sangue, cirurgias e até meses de internação — diz Marcelo Pessoa, coordenador do Centro de Trauma do Calor.

O mecânico Luiz Henrique Araújo Siqueira, de 21 anos, está internado no CTI da unidade desde 21 de janeiro. Com traqueostomia, ainda não tem previsão de alta. Ficou um mês desacordado: os médicos decidiram um milagre ele estar vivo. A irmã Larissa contou que o jovem foi fechado por um caminhão na BR-101, em Rio Bonito, batendo na moto de um amigo, que estava na frente e que Luiz tinha acabado de retornar.

Um gigante 'cinquentão' em águas cariocas:

— O meu irmão teve que retirar o baço, teve reunião no pâncreas, especialmente o braço esquerdo. Perdi as contas das cirurgias que ele precisou fazer — explica Larissa.

Também internado no Heat, outro motociclista, Diogo dos Santos Nunes, de 34 anos, sofreu quatro acidentes de moto e um como carona de um carro. No primeiro, em 2017, cortei o fêmur e foi afastado pelo INSS. Agora, sofreu várias fraturas ao se acidentar na BR-101, perto do Porto do Rosa, em São Gonçalo.

— Abriu o sinal, e os carros demoraram a sair. Tentei medo. Só que os freios estavam em ruínas. Eu tinha duas opções: ou jogava a moto em cima da calçada, onde havia muita gente, ou no meio dos carros. Joguei no meio dos carros — relata.

Diogo tem habilitação de piloto, diferentemente de Luiz Henrique Leandro dos Santos, de 20 anos, que há três meses entrega lanches de moto e trabalha sem carteira assinada. Ele estava voltando para casa quando sofreu um acidente na RJ-106, próximo ao bairro Maria Paula, em São Gonçalo. Derrubado por outra moto, corte de três dedos e teve fratura exposta no pé.

— Estava de capacete, mas de chinelo. Não farei mais isso e vou tirar a carteira — promete.

Cadê o guarda?

Dirigir na contramão e sobre calçadas, furar sinal vermelho e parar em faixas de pedestres são infrações rotineiras cometidas por motociclistas. Na tarde da última sexta-feira, uma criança foi atropelada por uma moto quando atravessava a Rua Marquês de São Vicente, na Gávea. Uma menina, acompanhada de outras pessoas, estava na faixa de pedestres; o motociclista que atingiu a criança avançou o sinal vermelho.

Renato Aragão pode perder mansão?

Na terça-feira, O GLOBO percorreu 55 quilômetros de trechos de sete bairros (Copacabana, Botafogo, Centro, Vila Isabel, Tijuca, Maracanã e Méier). Estacionar esses veículos sobre calçadas é outra prática comum. Ao longo do percurso, foram encontrados apenas três guardas municipais parados ao lado das motos, no Posto Seis, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, e uma viatura da corporação circulando na mesma via.

— Continuamos sem guardas nas ruas. Quando muito, tem uma viatura circulando, mas a presença de agentes de trânsito é pouca ou quase nenhuma — reclama Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana.

— Não tenho conhecimento de nenhum guarda operando no controle de trânsito de Botafogo — diz Regina Chiaradia, presidente da associação de moradores do bairro.

Mesmo em cruzamentos com sinal apagado, como o da Rua Professor Manoel de Abreu com a Rua Felipe Camarão, no Maracanã, a equipe do GLOBO não encontrou um agente de trânsito.

'Sinal de crime armado',

— Quando a situação for complicada, coloque cones para desviar o trânsito de Felipe Camarão, em vez de colocar um guarda — lamenta o entregador Luiz Paulo Souza Cruz.

A prefeitura garante que a Guarda aplicou 168.174 multas de trânsito de janeiro a abril deste ano, sendo o estacionamento irregular na calçada a infração mais flagrada. “Todo o efetivo da corporação está habilitado a coibir irregularidades, com foco na fluidez do trânsito e na civilidade”, afirma.

Os relatos sobre irregularidades e infrações no trânsito aumentaram até no Disque-Denúncia. No total, passaram de 648, nos quatro primeiros meses de 2025, para 823 no mesmo período deste ano (27%). Em relação às motos subiram de 276 para 325 (17,8%). Elas incluem denúncias de pegas, manobras perigosas — como a de “dar grau”, gíria que se refere a empinar a moto —, motoristas de aplicativo circulando com habilitação vencida, transporte escolar com crianças em pé e no colo e a condução de veículos por violências armadas e por crianças.

Vivi para contar

'A cada final de semana, a gente acaba enxugando sangue'

Marcelo Pessoa*

“Temos observado um aumento crescente do número de motoristas acidentados e passageiros de motocicletas em nossa emergência. Diante de um sistema de saúde já sobrecarregado, no fim da semana passada, recebemos 76 vítimas desses acidentes. Muitas ficam um longo tempo internadas, consumindo recursos. E são pessoas que acabam tirando a oportunidade de pacientes que chegam em nossa emergência por outras patologias.

O quadro está ficando muito complexo de ser administrado. Como conduzir uma moto ou ser como passageiro desses veículos é uma escolha, reforçando a importância da prevenção. Há um número cada vez mais elevado, hoje em torno de 40%, de pacientes vítimas com menos de 18 anos. Alguns utilizam drogas e álcool, e apresentam sinais de intoxicação. Há quem perca a vida na sua fase mais produtiva ou fique com sequelas, mobilizando recursos de familiares e da sociedade como um todo. A cada três vítimas de moto, uma fica com sequela. E algumas vezes chegam a permanecer seis meses internadas.

A situação é tão dramática que, no setor, costumamos comentar que já falamos da situação de ficar enxugando gelo. Diante desse trânsito tão violento, agora a cada final de semana a gente acaba enxugando sangue.

Nos fins de semana, em função desses acidentes, nosso estoque de sangue chega no seu ponto crítico. É um cenário triste. Por isso, gostaria de convidar voluntários a participar de nossas campanhas de doação de sangue (as próximas ocorrências na Igreja Novos Começos, a Lagoinha, em Piratininga, Niterói, dias 14 e 15, das 10h às 18h; e no Shopping Partage, em São Gonçalo, no fim do mês)".

*Coordenador médico do Centro de Traumas do Hospital Estadual Alberto Torres (Heat)