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Palácio Tiradentes faz 100 anos: conheça a história do prédio no Centro do Rio que já abrigou a Câmara dos Deputados e a Alerj
Inaugurado em 3 de maio de 1926, o prédio foi construído onde funcionava a cadeia em que Joaquim José da Silva Xavier ficou preso até ser enforcado
O prédio de estilo eclético, com três mil metros quadrados e 45 metros de altura, destaca-se entre marcos do Rio Antigo como o Paço Imperial, construído na primeira metade do século XVIII. Mais novo do que o vizinho, o Palácio Tiradentes completou 100 anos na última quarta-feira e também tem muita história para contar. Sede original da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), que deixou o endereço em 2021, o aniversariante ocupa um espaço que remonta às origens da atividade parlamentar no Brasil. Mesmo em instalações anteriores, os rumos do país já eram debatidos por ali desde o período colonial.
Música e meio ambiente:
Tiradentes:
Inaugurado em 3 de maio de 1926, o Tiradentes ganhou projeto dos arquitetos Archimedes Memória, cearense, e Francisco Couchet, franco-suíço.
— Pode ser considerado o primeiro parlamento formal da República. Até então, o Legislativo funcionava em prédios improvisados e inadequados. Nunca teve uma sede própria, pensada para essa função — explica o historiador e funcionário da Alerj, Douglas Liborio.
As obras da sede da Câmara dos Deputados se iniciaram em um momento de busca por identidade nacional.
— Era um período em que se discutia o que era ser brasileiro. Ao mesmo tempo, o parlamento queria construir sua própria identidade. A solução encontrada foi transformar o palácio em uma espécie de nação em miniatura — diz Liborio.
O conceito foi levado ao pé da letra.
— A Câmara convocou os estados para doarem materiais, mobiliário e elementos decorativos. O arquiteto fazia os desenhos e os enviava para cada estado, que produzia as peças e as enviava. O plenário, por exemplo, foi executado pelo Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Já outros espaços receberam contribuições de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia e do Rio — detalha o historiador. — Cada ambiente carrega um pedaço do Brasil. O revestimento de mármore das galerias veio do Rio, os tecidos do Salão Nobre são da Bahia, e salas administrativas foram executadas por instituições de outros estados — completa ele.
Doce balanço a caminho do mundo:
Um passeio pelo prédio, que hoje funciona como um centro de memória e é aberto para visitas guiadas, revela fatos curiosos. Os elevadores são os mesmos há cem anos, assim como as mesas e cadeiras instaladas no plenário. Nas primeiras, chama atenção a presença de cinzeiros embutidos, herança de um tempo em que o debate político se dava em meio a baforadas no ambiente fechado.
No espaço reservado aos parlamentares, o visitante é convidado a esticar o pescoço, olhar para o alto e admirar a cúpula, com 12 metros de diâmetro e 350 toneladas. No centro, o vitral que representa a posição das estrelas no céu do Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1889, quando foi proclamada a República, é uma criação de César e Gastão Formenti. Ao seu redor, oito telas reproduzem momentos históricos como a chegada da esquadra portuguesa, comandada por Pedro Álvares Cabral, em 1500, a definição dos limites territoriais do país e a instauração da monarquia.
Cadeia Velha
Ainda no período colonial, na mesma área onde hoje fica o Palácio Tiradentes, a Casa de Câmara e Cadeia foi construída na primeira metade do século XVII. O prédio, que ficou conhecido como Cadeia Velha, serviu, através dos tempos, como Cadeia pública, Casa de Vereança, Senado da Câmara, Tribunal da Relação e Câmara Imperial. Foi lá que o inconfidente mineiro Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, passou preso seus últimos dias e, em 18 de abril de 1792, ouviu a sentença que o condenou à forca. Com a chegada da família real portuguesa, em 1808, o local foi usado para hospedar parte da corte, que deixou a Europa fugindo das tropas napoleônicas.
Trinta anos após sair de linha,
A Cadeia Velha foi abaixo em 1922. Hoje, Tiradentes é representado, diante do edifício centenário que batiza, por uma estátua de 4,5 metros de altura, fabricada com bronze derretido de canhões apreendidos na Guerra do Paraguai (1864-1870). A imagem da figura de barba farta e cabelos longos, pouco fiel ao homenageado, costuma ser confundida por muita gente com Jesus Cristo, a ponto de ter quem se benza diante do monumento.
Sede da Câmara Federal até a transferência da capital para Brasília, o palácio foi palco das cerimônias de posse de todos os presidentes da República, de Washington Luís (1926-1930) a Juscelino Kubitschek (1956-1961), além da promulgação das constituições de 1934 e 1946. Em 1960, passou a abrigar a Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara e, após a fusão com o Estado do Rio, em 1975 tornou-se a sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
Ao longo de um século de trajetória, suas escadarias foram cenário de episódios marcantes, como a Marcha dos 100 mil, contra a ditadura militar, em 1968, e o vandalismo promovido por ataques de black blocs, nas manifestações de 2013. Naqueles mesmos degraus, em 1929, o deputado pernambucano Manoel de Souza Filho foi assassinado por um colega, o gaúcho Ildefonso Simões Lopes, durante uma discussão. O assassino foi absolvido por legítima defesa.
No plenário, mais capítulos da história: ali foram diplomadas, em 1933, Almerinda Faria Gama e Carlota Pereira de Queiroz, as primeiras mulheres eleitas para o parlamento brasileiro. Em tempos mais recentes, entre 2017 e 2018, dez deputados da Alerj foram presos pela Polícia Federal sob a acusação de embolsar propinas para apoiar o governo e favorecer empresários de ônibus. Uma das operações que levaram os representantes do povo à prisão foi batizada de Cadeia Velha.
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