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Operário que morreu durante montagem de palco para show de Shakira deixa mulher e dois filhos

Nesta segunda-feira, investigadores realizaram uma perícia no local; eles buscam indícios de eventuais erros de segurança na montagem da estrutura

Agência O Globo - 27/04/2026
Operário que morreu durante montagem de palco para show de Shakira deixa mulher e dois filhos
- Foto: Reprodução

Morto durante a montagem do palco para o show da cantora colombiana Shakira, marcado para o próximo sábado, na Praia de Copacabana, Gabriel de Jesus Firmino tinha 28 anos e era natural de Magé, na Baixada Fluminense. Ele deixa a mulher, de 26 anos, e dois filhos, um menino e uma menina. O serralheiro trabalhava há mais de três anos na MG Coutinho Serviços Cenográficos, contratada para a instalação dos elevadores que farão parte da estrutura do evento.

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Perícia e investigações

Um dia após a morte, a 12ª DP (Copacabana) realizou, na manhã desta segunda-feira, outra perícia no local para apurar as causas e as circunstâncias do acidente. O trabalho começou às 10h desta segunda-feira e durou cerca de uma hora. Durante esse período, a montagem da estrutura ficou suspensa. Os investigadores querem descobrir ainda eventuais responsabilidades pelo acidente e pretendem averiguar se houve algum erro de segurança por parte da empresa responsável pela organização do evento, a BonusTrack. Caso a hipótese se confirme, a companhia pode responder por omissão.

O delegado Ângelo Lages, titular da 12ª DP (Copacabana), que acompanhou o trabalho da perícia, explicou que havia dois elevadores, um ao lado do outro. O serralheiro Gabriel de Jesus Firmino morreu na tarde de domingo, quando soldava uma das estruturas. A vítima, segundo o delegado, estava com uma parte da cabeça e parte do tronco debaixo do elevador 1, onde realizada o trabalho de soldagem, e com parte do tronco e pernas sob o elevador 2.

Quando a estrutura de número 1 subiu, a parte de ferro que fica embaixo dela imprensou o operário na plataforma do elevador de número 2, esmagando-o. A vítima chegou a ser levada para o Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, mas não resistiu.

— Agora a gente vai precisar saber quem deu a ordem para o elevador 1 subir. Diz o operador lá que ele (o operário que morreu) foi quem deu a ordem. A gente não sabe se foi culpa exclusiva dele. Mas, pela norma reguladora de segurança do trabalho, esse tipo de equipamento não pode ser operado com o funcionário dentro, segundo um perito me informou. Então, ele deveria ter feito a solda, saído e ter mandado operar (o elevador), por uma questão de segurança — disse o delegado, acrescentando que a distância de um equipamento para o outro era de seis centímetros. — Ele ficou imprensado nesse espaçamento e chegou a gritar por socorro. Foi uma morte muito cruel.

Uma moradora do bairro relatou ter ouvido gritaria no local logo após o acidente.

— Entre 14h30 e 15h quando ouvimos uma gritaria vinda daquela área do palco. Em seguida, começou uma grande movimentação de polícia e bombeiros. As viaturas da polícia vieram até na contramão. Os colegas do rapaz estavam desesperados. Falaram que um elevador caiu em cima dele. Eles estavam muito tristes — contou a moradora Maria José Santos Ramos da Silva, de 52 anos.

O acidente:

O caso é investigado pela 12ª DP (Copacabana). Uma perícia preliminar foi realizada ainda no domingo, e outras análises ainda serão conduzidas para complementar a apuração. A Polícia Civil informa que, paralelamente, os agentes realizam diligências para esclarecer as circunstâncias da morte de Gabriel de Jesus Firmino.

De acordo com Lages, a investigação pretende avançar no sentido de comprovar se o que aconteceu foi um acidente ou se um homicídio culposo.

— O fato é muito recente. Ontem (domingo), já foi feita uma perícia. Só que já estava escuro, e o trabalho foi dificultado. Então, hoje (segunda-feira) voltamos para fazer uma perícia complementar e tentar entender essa dinâmica. Gabriel morreu de uma forma muito trágica, e eu me solidarizo com a família. Precisamos apurar o que de fato ocorreu aqui. Se houve uma negligência, imprudência, imperícia, ou seja, uma inobservância de um dever de cuidado que gerou um homicídio culposo ou se houve uma situação de culpa exclusiva da vítima. Ou seja, de ele ter se colocado em risco e ter acontecido o que ocorreu — detalhou.

Após a perícia, o local foi desinterditado, e a retomada da montagem do palco foi autorizada pela polícia.

Gabriel estava responsável pela construção dos quatro elevadores que farão parte do show. O serralheiro era funcionário da MG Coutinho Serviços Cenográficos, conhecida como Cenoart, há mais de três anos. De acordo com o delegado, a empresa terceirizada foi contratada pela BonusTrack para a montagem do sistema elevatório. Em caso de homicídio culposo, a investigação vai delimitar de qual empresa é a culpa.

Até o momento, apenas um produtor executivo da BonusTrack prestou depoimento. Ele compareceu à delegacia para comunicar o caso. Testemunhas oculares do acidentes e representantes da MG Coutinho Serviços Cenográficos também serão ouvidos.

— A investigação precisa ainda do laudo do Instituto Médico Legal, porque as lesões que o corpo apresenta são importantes para delimitar o que, de fato, aconteceu — afirmou o delegado.

Em nota, a organizadora do show lamentou a morte do funcionário e afirmou que os brigadistas prestaram o primeiro atendimento após o acidente. A BonusTrack diz ainda que está "prestando todo apoio, acolhimento e solidariedade à empresa responsável, sua equipe e aos familiares da vítima".

Segundo a organização, o palco que está sendo montado é o maior dos shows do "Todo Mundo no Rio". A estrutura, de 1,5 mil metros quadrados terá quase o dobro do tamanho daquele usado por Madonna em 2024. Procurada, a MG Coutinho Serviços Cenográficos ainda não retornou.