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'Só deu tempo de tirar os passageiros', diz motorista de ônibus incendiado no Rio; comerciantes relatam medo

Série de ações criminosas tomou região central do Rio após operação da PM matar homem apontado como chefe do tráfico no Morro dos Prazeres

Agência O Globo - 18/03/2026
'Só deu tempo de tirar os passageiros', diz motorista de ônibus incendiado no Rio; comerciantes relatam medo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O motorista Márcio Souza, 48 anos, da linha 111, que faz a trajetória Central - Leblon contorno que segue pela Avenida Paulo de Frontin, no sentido do Túnel Rebouças, no Rio Comprido, nesta manhã, quando, na altura da Igreja Nossa Senhora das Dores, foi abordado por dois homens portando garrafas com gasolina. Ele contou que o trânsito estava parado e que havia cerca de 20 passageiros dentro do coletivo, mas conseguiu desembarcar todos eles, antes que o veículo fosse incendiado num dos ataques de bandidos em resposta à ação da Polícia Militar em favelas controladas pelo Comando Vermelho, na área central do Rio.

— O trânsito estava parado, estava pegando uns passageiros aqui, e os dois meninos vieram andando, correndo entre os carros. Bateram no vidro da frente e pediram para abrir a porta. Só deu tempo de tirar os passageiros de dentro -- contorno o profissional, que está nessa mesma linha há seis meses.

Morreram Oito homens, incluindo Claudio Augusto dos Santos, o Jiló, apontado como chefe do tráfico no Morro dos Prazeres, e Leandro Silva Souza, que era morador da região e foi feito refém por traficantes. No final da manhã, uma série de ações criminosas tomou vias próximas às comunidades — Prazeres, Fallet, Fogueteiro, Coroa, Escondidinho e Paula Ramos — onde os policiais atuam.

O motorista Márcio Souza contou que já atuou em outros itinerários, mas nunca passou por sufoco semelhante. Casado e com filhos, disse que não chegou a hora também na família. Mas a preocupação maior, naquela hora, foi salvar os passageiros.

— A primeira coisa que pensei na hora foi salvar os passageiros. Bem material depois o patrão corre atrás. O mais importante é a vida, que é uma só — disse.

Márcio contou que abriu as portas para os passageiros descerem e em seguida o ônibus foi incendiado. Consumido pelas chamas, o coletivo ficou só na carcaça. Bombeiros foram chamados, mas não conseguiram conter o fogo. A poucos metros dali na esquina com a Rua do Bispo, havia várias viaturas da Polícia Militar que estavam dando apoio à operação.

A ação policial levou medo à região e fechou a maior parte do comércio, nas imediações da Praça Condessa Paulo de Frontin. Poucos comerciantes se aventuram a abrir as portas.

— Hoje é um dia típico, devido à ocorrência que teve mais cedo, que a gente sabe, no Fallet, devido à morte do traficante, então a gente já sabia que hoje ia ser um dia que não seria dentro do padrão — disse a comerciante Érica Soares Cavalcante, dona de uma loja de rações para animais

Erika contou que chegou a abrir o estabelecimento mais cedo, mas por conta da operação policial teve de fechar logo. Em seguida o ônibus da linha 111 foi incendiado bem em frente ao local onde ela guarda seu estoque, a poucos metros da loja, também em Paulo de Frontin. O medo era que as chamas atingissem o prédio, disse.

Apesar da situação dessa manhã, um comerciante diz que uma das principais preocupações do comércio local é com o que chamou de "Cracolândia", que se instalou embaixo do viaduto, em frente às lojas.

— De uns meses para cá fica aqui de frente vários moradores de rua fumando, cheirando, fazendo outras coisas, como queimando fio a olho nu. Isso nos incomoda muito.

Além de Paulo de Frontin, o comércio está fechado em boa parte das ruas Itapiru, do Bispo, Aristides Lobo, entre outras. A Escola Municipal Pereira Passos e o posto de Saúde Salles Neto, que ficam na praça Condessa Paulo de Frontin, também estão fechados.

Comerciantes relatam tensão

Embora não houvesse ordem de fechamento do comércio na região, uma veterinária desistiu de abrir uma loja na Rua Estrela nesta quarta-feira por causa da tensão no bairro. A loja ao lado, um petshop que oferece o serviço de banho e tosa de animais, mantém as portas abertas pela manhã para atender os clientes dos primeiros horários, mas desmarca os demais e fecha no início da tarde.

— A situação fica muito assustadora, na vale a pena manter aberta. Cancelei os clientes da tarde porque a gente não sabe o que vai acontecer. A veterinária na quis nem abrir — relaciona o proprietário, que preferiu não se identificar.

Por volta das 9h40, antes do ônibus ser incendiado na Rua Paulo de Frontin, uma vendedora relatou que os acessos do túnel e do Morro do Fallet já estavam bloqueados.

— Eu não sabia de nada. Vim de 711 e o motorista dirigiu a gente descer do ônibus porque ele não conseguiu ir até o ponto final, na Praça do Rio Comprido. Achei estranho, mas depois soube do conflito. Eu vou embora, muito perigoso. Quanto mais tarde, pior a situação pode ficar — afirmou a vendedora.

Um homem que trabalha na região contorno que chegou por volta das 8h30, de moto de aplicativo, e viu o momento em que bandidos atearam fogo em objetos para trancar a rua.

— O bagulho está doido. Tudo pode acontecer, não dá para saber ainda. A situação está muito tensa — conta ele.

Uma moradora que não quis se identificar contorno que viu na televisão o avanço da polícia na Rua Barão de Petrópolis. Com medo, ficaram com os dois filhos pequenos em um restaurante local.

— Eu estou com medo de subir com as crianças e começar a troca de tiro. Vi que eles (a polícia) estão subindo e descendo — conta.