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Julgamento do caso Marielle tem comparação de ex-miliciano a mafioso italiano que delatou PCC

Depoimento de Orlando Curicica forneceu aos investigadores informações sobre o domínio territorial dos Brazão em Jacarepaguá e a corrupção na Delegacia de Homicídios (DH)

Agência O Globo - 24/02/2026
Julgamento do caso Marielle tem comparação de ex-miliciano a mafioso italiano que delatou PCC
Julgamento do caso Marielle tem comparação de ex-miliciano a mafioso italiano que delatou PCC - Foto: Reprodução / Agência Brasil

O vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, defendeu a condenação dos supostos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, durante sessão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira. Em sua argumentação, Hindenburgo comparou o ex-miliciano Orlando Araújo, conhecido como Orlando Curicica, ao mafioso italiano Vicenzo Pasquino, que colaborou com a Justiça ao revelar conexões entre o PCC e a máfia calabresa 'Ndrangheta.

Segundo o vice-PGR, o depoimento de Orlando trouxe à tona detalhes do chamado “mercado de homicídios” no Rio de Janeiro, semelhante ao papel de colaboradores que contribuíram para desvendar a estrutura de organizações criminosas na Itália. Hindenburgo destacou que Orlando, testemunha-chave no caso Marielle, revelou informações cruciais sobre o funcionamento de grupos de extermínio e o sistema de corrupção que envolvia o Estado do Rio de Janeiro.

O vice-procurador ressaltou ainda que os irmãos Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, e Chiquinho Brazão, ex-deputado federal, eram líderes intelectuais de uma organização criminosa responsável por crimes como extorsão, usura e grilagem, além de terem planejado o assassinato de Marielle e Anderson em 2018.

Antecipando os argumentos das defesas dos réus, Hindenburgo enfatizou a relevância do depoimento de Orlando Curicica, apontando que ele possuía conhecimento privilegiado dos fatos, mesmo tendo sido excluído dos esquemas ilícitos. “Orlando tornou-se, assim, a exemplo de muitos que ajudaram a desvendar os meandros de organizações criminosas – e a Itália é seguramente o melhor exemplo –, um ‘pentito’, de cujo testemunho possuem verdadeiro horror os líderes dessas organizações, precisamente pelo fato de revelarem as suas estruturas, seus participantes e o seu modo de funcionamento”, afirmou.

O depoimento de Orlando forneceu aos investigadores informações sobre o domínio territorial dos Brazão em Jacarepaguá e sobre a corrupção na Delegacia de Homicídios (DH). “Orlando fez o que dele se esperava: forneceu depoimentos que devo dizer são absolutamente coerentes com o contexto narrado na ação e prestados em estrita sintonia com os demais elementos de convicção colhidos nos autos”, destacou Hindenburgo.

Essas revelações foram utilizadas para reforçar a tese de que os irmãos Brazão se associaram a grupos de milicianos para atuar no mercado imobiliário irregular, caracterizado por práticas de grilagem e parcelamento ilícito do solo urbano.

Na segunda sessão do julgamento, os advogados de defesa dos réus concentraram esforços em questionar a validade do depoimento de Orlando Curicica. A defesa do delegado Rivaldo Barbosa, da Polícia Civil do Rio de Janeiro, foi a primeira a se manifestar, argumentando que o testemunho do ex-miliciano não possui valor probatório.