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Como é traduzir os sambas-enredo em Libras? Intérpretes que atuam na Sapucaí explicam

Profissionais ficam no setor 13 da Passarela do Samba, que também oferece audiodescrição

Agência O Globo - 17/02/2026
Como é traduzir os sambas-enredo em Libras? Intérpretes que atuam na Sapucaí explicam
Como é traduzir os sambas-enredo em Libras? Intérpretes que atuam na Sapucaí explicam - Foto: Instagram — @alldubestudio

No setor 13 da Marquês de Sapucaí, espaço adaptado para acessibilidade, a intérprete de Libras Adriana Lopes atua em dupla com Natan Santos Da Conceição, ambos da empresa All Dub Estúdio, na missão de traduzir os sambas-enredo para o público surdo durante os desfiles. A complexidade das letras exige preparação antecipada.

— Fazemos um estudo prévio, já que não conhecemos todos os termos. Mesmo palavras de matrizes africanas e de origem iorubá possuem sinais específicos ou correspondentes — explica Adriana, detalhando outra particularidade dos sambas-enredo: — São mais rápidos. É diferente de quando atuamos em shows de pagode, por exemplo. Além disso, não é todo intérprete de Libras que se encaixa nesse perfil, pois, além dos sinais com as mãos, há toda uma expressão corporal envolvida. Nos revezamos a cada 20 minutos, pois o trabalho exige esforço físico e mental, e conversamos para definir os sinais.

Entre os sambas mais desafiadores para traduzir neste ano, Adriana destaca: Beija-Flor, devido aos termos sagrados do candomblé, que não podem ser traduzidos literalmente e requerem sensibilidade cultural; Mangueira, pela mistura de ancestralidade, espiritualidade e natureza, com um tempo não linear; Unidos da Tijuca, pela dificuldade em transmitir a dor e a subjetividade do texto; e Acadêmicos de Niterói, que reúne muita história e política em poucos versos.

Adriana, que atua na Sapucaí pelo segundo ano, relata que a demanda do público é grande e a empolgação com o espetáculo das escolas é evidente.

— Há uma ideia de que surdos não gostam de música, o que não é verdade. Eles sentem a vibração e querem compreender. Quando trazemos o sentido das letras por meio dos sinais, eles fazem conexões. Como o samba se repete durante o desfile, chega um momento em que acabam reproduzindo, como se todos estivessem cantando juntos — conta a intérprete, servidora do Instituto Nacional de Educação de Surdos e filha de pais surdos. — Meus pais se tornaram surdos na infância, um por meningite e outro por acidente com bomba. Filhos de pais surdos acabam se tornando intérpretes por natureza. Hoje, além de atuar no Instituto, o que orgulha meu pai, ex-aluno de lá, também dou aula de Libras na Uerj. Não trocaria minha profissão por nenhuma outra.

'Seios de fora'

No mesmo setor 13, o público cego conta com o serviço de audiodescrição. Ana Motta, CEO da All Dub, atua há oito anos nos desfiles e recorda situações curiosas vividas no local.

— Descrevemos tudo o que acontece. Em um carro alegórico com todas as mulheres com os seios de fora, falamos isso. Alguém bateu na nossa cabine e perguntou: “Dá para descrever como são os peitos?” — relembra, com bom humor.

Como o setor 13 está localizado ao final da Passarela do Samba, muitas vezes as escolas passam apressadas pelo local, preocupadas com o tempo de desfile:

— Se a escola está atrasada, narramos isso e os cegos chegam a se desesperar. Como os componentes passam rapidamente, é fundamental explicar o enredo da escola antes de ela chegar. Antecipamos todas as informações, pois, quando a agremiação está na frente, precisamos narrar rápido. Somos dois audiodescritores, como comentaristas conversando simultaneamente — detalha Ana.