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Bloco das Trepadeiras, sem músicos, vence edital de R$ 50 mil do governo do estado e deixa de fora cortejos que têm grupos de percussão

No centro da discussão, desconfianças quanto a critérios de aprovação ou sobre o que pode ou não ser categorizado como bloco de rua elegível a receber verba pública inflaram ânimos

Agência O Globo - 07/02/2026
Bloco das Trepadeiras, sem músicos, vence edital de R$ 50 mil do governo do estado e deixa de fora cortejos que têm grupos de percussão
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Às vésperas da folia, uma polêmica abriu alas para o debate sobre critérios de distribuição de verbas do governo estadual a coletivos que se classificam como blocos de rua. O grito de carnaval foi substituído pela grita depois que o Bloco das Trepadeiras venceu um edital de R$ 50 mil do governo do Estado do Rio, o Folia RJ 2026 — Bloco nas ruas. Representantes de outros cortejos que anualmente se candidatam a iniciativas de fomento ficaram fora e se indignaram na internet, destacando que seus blocos, mesmo com oficinas de percussão reconhecidas e consolidadas, não foram contemplados.

'Não nos cabe analisar enredo':

Carnaval 2026:

No centro da discussão virtual que resvalou nas rodas de conversa fora das telas, desconfianças quanto a critérios de aprovação ou sobre o que pode ou não ser categorizado como bloco de rua elegível a receber verba pública inflaram ânimos.

As Trepadeiras sustentam ter 18 anos de história, mesmo como bloco de performance. No fim dos anos 2000, elas criaram raízes com a proposta de Maria Thalita de Paula de reforçar a liberdade sexual e as lutas feministas.

— Nós somos um bloco. Sei que você vai chegar a esta pergunta — diz ela, em entrevista por telefone, após ser estimulada a contar a história do coletivo.

O edital, publicado em Diário Oficial do Estado, não exige bateria, banda ou instrumentos. A cantora explica que teve a ideia de tentar o fomento após sugestão de dois produtores com quem já trabalhou, Felipe Salgado e Talita Magar, que frisaram que as Trepadeiras se encaixavam nas propostas do edital do governo:

— Como artista, estou sempre atenta a onde meus projetos se enquadram. Neste edital, vi que eles estavam abarcando a história do carnaval de rua: as performances, pessoas “semiorganizadas”, fantasiadas. O bloco está sendo acusado indevidamente. Tem muita gente que não entende de edital, o que nós artistas passamos para entrar. Passou por uma comissão. Não cabe a mim.

Entre as necessidades de coletivos não contemplados, foram citadas verbas para garantir espaços seguros para ensaio de quem tem banda. Muitos deles perderam a autorização da prefeitura para ensaiar em locais públicos como a Praça Paris.

Em resposta por nota, a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa ressalta que o edital faz parte de uma política pública continuada e já acontece há quatro anos. "Sobre o Bloco das Trepadeiras, o mesmo teve deferimento pois o projeto cumpriu integralmente todas as exigências estabelecidas no edital, apresentando atuação comprovada no Carnaval desde 2008", segue o texto, antes de acrescentar: "No edital Bloco nas Ruas, ressaltamos que é considerado 'bloco de carnaval' um conjunto de pessoas que desfila nas ruas durante o período do Carnaval, de forma semi-organizada, cantando e dançando, não sendo obrigatória, para sua caracterização, a existência de bateria ou banda".

‘Lógica burocratizante’

Marina Bay Frydberg, doutora em Antropologia, professora do departamento de arte da UFF e pesquisadora de carnaval dos blocos de rua do Rio desde 2014, defende as políticas de investimento, mas diz que mais importante do que levantar o estandarte do que pode ou não ser considerado bloco, é entender como o estado investe em políticas públicas culturais:

— Esse debate pode ser ampliado para se pensar o papel do estado no financiamento da cultura e do carnaval. Senão a polêmica vai ser sobre quem deveria ganhar mais ou menos, quem é mais legítimo como bloco, e a discussão mais ampla se perde: sobre como é feita pelo governo a manutenção desta festa.

A discussão sobre transparência de políticas públicas e sobre quem tem expertise e dinheiro para contratar especialistas em emplacar editais também ganha coro. A professora da UFF explica:

— As políticas de edital têm uma lógica burocratizante, uma linguagem específica. Com isso, muita gente não consegue chegar a esse financiamento porque não acessa o repertório.

Um desfile do Bloco das Trepadeiras está marcado para amanhã, na Prainha da Glória, às 13h. A assessoria do grupo diz que são “mais de 200 plantas catalogadas” e que cerca de 20 músicos (contratados para este ano) formam a banda.

O Folia RJ distribuiu mais de R$ 24 milhões para manifestações culturais de todo o estado.