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'Beija e anda!': A solução para o carnaval de rua é... mais carnaval

Num dia, o clima de resgate do passado com repertório impecável no cortejo da Orquestra da Rua; no outro, a farra dionisíaca do imparável Desce Mas Não Sobe

Agência O Globo - 04/02/2026
'Beija e anda!': A solução para o carnaval de rua é... mais carnaval
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Quatro tubas douradas jaziam na sombra de um prédio, em meio a uma aglomeração de pessoas fantasiadas, abrigadas do sol, bebendo e falando alto na Rua do Livramento, na Gamboa. Inertes e mudos sobre a calçada, os corpos metálicos dos instrumentos refletiam cenas do entorno, exibindo imagens borradas da concentração da Orquestra da Rua, na manhã do último sábado.

Programe-se:

Cuide do celular:

A área em frente à Fundação Darcy Vargas estava tomada pelo aluvião de gente pouco vestida de todas as cores que conversava animada à espera do cortejo, devolvendo o sorriso farto de cada rosto recém-chegado e esvaziando latinhas de cerveja antes de o padre rezar a primeira missa daquele dia na Paróquia Sagrada Família, no quarteirão vizinho. Ninguém lembrava dos pecados nem dos boletos pra pagar.

Na outra margem da rua, grupos de foliões e folionas salpicados com glitter se revezavam fazendo poses atrevidas diante de um sobrado todo pintado com um verde e rosa que gritava rebatendo a luz do sol e servia como pano de fundo irresistível pra dúzias de Stories.

"Eles agem em bandos":

Havia aquela euforia do "vai ser bom". Cerca de 40 Instrumentistas, entre veteranos e novatos na folia aqueciam as ferramentas antes do trajeto pela região conhecida como Pequena África. Pernaltas zanzavam em meio a bonecos gigantes homenageando Cartola, Carmem Miranda e Ari Barroso. Um ar de carnaval retrô, com músicos vestidos de palhaços e bate-bola e até um corpo de dança.

O casal de músicos Marcelo Cebukin e Tatyanne Meyer, dois motores da folia no Rio, criadores do bloco, que está em seu segundo carnaval, exibiram por instantes o filho Tom, de 2 anos, mas logo despacharam a criança e acabaram com toda aquela conversa mole. Hora de abrir os trabalhos.

Carnaval do brilho:

È o que fiz o Google:

Durante o cortejo, cada grupo cumpriu bem o seu papel dentro da cosmologia carnavalesca. A banda enfileirou clássicos do cancioneiro nacional, em momentos encantando e, em outros, riscando ponta de facão no asfalto da Zona Portuária. O público respondeu com farra e pegação, sem comprometer o andamento do desfile. "Beija e anda" virou slogan, com direito a cartaz e perfil no Instagram.

Em sua maioria, os ambulantes guardaram uma distância saudável da banda. Com espaço na rua, o cortejo flui, e aí todo mundo se esbalda, sua e bebe muito mais. "Bagunça com Harmonia", como diz a campanha do Movimento Unido dos Camelôs (Muca) que conscientiza vendedores sobre isso.

Saúde na folia:

Foi um trajeto curto até a Praça da Harmonia, onde a festa continuou no formato de baile a céu aberto, com os músicos de sopro parados diante das partituras. Era uma preocupação do maestro Cebukin com a saúde dos arranjos complexos criados para uma seleção de pérolas de gêneros variados como "Carcará", "Noite dos Mascarados", "Caciqueando", "Frevo Mulher" e "O Mais Belo dos Belos".

"Nos últimos anos, surgiram muitos blocos criados em grupos de WhatsApp de uma hora pra outra. É legal, tem lugar pra tudo, mas queríamos fazer algo mais elaborado", explica Cebukin, que também é regente do bloco Céu na Terra, nativo de Santa Teresa. "Só que algumas músicas ganharam arranjos muito complexos pra tocar andando, então decidimos dividir assim".

Havia certo receio porque folião que se preze gosta mesmo é de cortejo, transe em movimento, mas a turma da percussão sentou o braço, e o povo mandou a poeira do chão para as copas das árvores.

Confusão e spray de pimenta no carnaval

Ao longo do fim de semana, muita gente relembrou o caos do sábado anterior, quando o Boi da Macuca, bloco tradicional de Olinda, reuniu um manguezal de foliões e ambulantes na Praça Mauá, em seu primeiro cortejo no Rio. A banda se esforçou pra lidar com o tumulto, mas teve muita confusão e até gás de pimenta disparado no meio da multidão por ladrões de celular.

Diante de tamanha treta, surgiu uma preocupação que já tinha aparecido em outros pré-carnavais. Será que passou do ponto? Ficou grande e caótico demais pra curtir? Vamos pra BH? Não, calma.

Sábado passado, havia uma profusão de festas dividindo a horda de foliões. Desde o mastodonte Bloco da Gold, , no Circuito Preta Gil, até cortejos menores de blocos piratas como o Amores Líquidos e o Meiota. Com o público diluído em boas doses pra cada lado, ficou mais fácil ser feliz. Ou seja, a saída para o gigantismo do carnaval do Rio é... mais carnaval.

Que o digam os integrantes do Desce Mas Não Sobe, ninho de uma geração de músicos e foliões. O bloco nasceu em 2009 descendo uma ladeira na Glória, mas há anos sai do Mirante do Rato Molhado, mergulhando em Santa Teresa. No domingo, os caras arrastaram uma multidão com seu repertório bombástico que inclui Lulu Santos, Ivete Sangalo, Timbalada e Kid Abelha. Nunca falhou.

"Mulheres vivas":

Ferramenta do GLOBO:

A banda navega sem corda nem nada num mar de foliões e ambulantes, abrindo caminho na base da música e da farra. Só deixam de tocar pra beber cerveja, cumprimentar os amigos e beijar na boca. Ou, como aconteceu no domingo, quando tem um caminhão de luz parado no meio do trajeto. Depois, retomam de onde pararam como se nada tivesse acontecido. Pra baixo, todo santo ajuda.

Mas era muita gente e carrinho de bebida no percurso. Mesmo com a gravidade terrestre a seu favor, o Desce levou cinco horas pra chegar na querida Praça Odilo Costa, última parada do bloco. No trajeto até lá, o cortejo passou diante de um sobrado na Rua Áurea que tinha na fachada uma faixa dizendo: "Repudiamos blocos cibernéticos" (poucos entenderam o que seria um bloco "cibernético"). Mas, logo no imóvel vizinho, outra faixa, toda colorida, berrava: "Viva todos os blocos de carnaval". Sim, viva!