RJ em Foco
Supervisor do Shopping Tijuca morreu ao voltar à loja em chamas para tentar salvar brigadista
Emellyn Silva Aguiar estava na equipe de combate ao incêndio e teria desmaiado no estabelecimento; Anderson Aguiar do Prado voltou para ajudar sem equipamentos de proteção
O supervisor do Shopping Tijuca Anderson Aguiar do Prado, de 43 anos, morreu no incêndio ocorrido na última sexta-feira após retornar à loja que já estava em chamas para tentar salvar uma colega. Emellyn Silva Aguiar, de 26 anos, bombeiro civil, integrava a equipe de brigadistas que atuava no combate ao fogo na loja Bell’Art. Segundo uma fonte ouvida pelo GLOBO, as câmeras de segurança mostram que Anderson já havia deixado o interior da loja quando percebeu a ausência da colega. A brigadista teria desmaiado na área mais crítica do estabelecimento em razão da intensa inalação de fumaça. Diante da situação, ele voltou ao local para tentar socorrê-la.
'Se algo acontecer comigo foi ele':
Asssinato de Eliza Samudio:
Por não integrar a equipe de brigadistas, Anderson não utilizava equipamentos de proteção individual. Ele estava vestido com calça preta e sapatos sociais.
A causa das mortes ainda não foi oficialmente divulgada, mas a principal hipótese é de que ambos tenham morrido por asfixia provocada pela inalação de fumaça. No dia do incêndio, militares do Corpo de Bombeiros trabalharam por oito horas nas buscas pela dupla. Emellyn foi encontrada morta no interior da loja. Anderson chegou a ser levado para uma ambulância, onde uma equipe tentou reanimá-lo. Durante o atendimento, amigos cercaram o veículo. Alguns rezavam. Um deles levou as mãos à cabeça, em um gesto silencioso de desespero. Anderson não resistiu.
O início
O fogo começou por volta das 18h. O foco do incêndio estava em uma loja localizada no subsolo do shopping, que naquele momento estava lotado de cariocas e turistas. No mesmo piso funcionam quatro cafeterias, dois restaurantes e um espaço de recreação infantil. A situação foi se agravando, e as pessoas começaram a ser retiradas do shopping. Testemunhas relatam que não ouviram nenhum alarme de incêndio soar, mas foram orientadas por seguranças a deixar o prédio. Imagens gravadas por clientes mostram consumidores descendo as escadas rolantes dos andares superiores visivelmente apreensivos, já cobrindo o nariz e a boca para se proteger da fumaça.
Muitos lojistas e funcionários ainda fecharam as portas antes de evacuar o local. Os passos apressados de parte dos consumidores contrastavam com a aparente calma de funcionários de quiosques, que cobriam as mercadorias nos corredores do shopping.
O resgate
O Corpo de Bombeiros já atuava no combate ao incêndio havia mais de 30 minutos quando teve início uma grande mobilização de funcionários na saída D do shopping, ponto onde os militares estavam concentrados. Rapidamente, uma equipe vestiu os trajes de segurança, com cilindros de oxigênio e máscaras, e correu para o interior do prédio. Foi nesse momento que surgiu o primeiro alerta de que dois integrantes da equipe de brigadistas estavam desaparecidos e, provavelmente, presos na densa fumaça.
Seguiram-se duas horas de extrema tensão. Duas equipes de socorristas do Samu se posicionaram dentro do shopping, prontas para iniciar os primeiros atendimentos às possíveis vítimas. Enquanto isso, bombeiros se revezavam entre o combate às chamas, que ainda persistiam em alguns pontos, e o principal objetivo da operação: a busca pelos dois funcionários.
Com a visibilidade no subsolo reduzida a quase zero, funcionários do shopping se mobilizaram para instalar exaustores nas portas de saída, na tentativa de diminuir a concentração de fumaça. Em meio à correria, bombeiros e funcionários se abraçavam, trocavam palavras de apoio e buscavam forças uns nos outros para seguir com as buscas.
A prece
Duas horas depois, os bombeiros localizaram uma das vítimas: Anderson Aguiar do Prado. Ele foi levado diretamente para uma ambulância do Samu. Os socorristas fecharam o veículo, mas não deixaram o local. Durante cerca de 20 minutos, tentaram reanimá-lo com massagens cardíacas.
Do lado de fora, três colegas do supervisor se revezaram em momentos de oração. Com as mãos estendidas sobre a ambulância, rezaram e pediram a Deus pela vida do companheiro. Ele ainda foi encaminhada ao Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, mas não resistiu.
A exaustão
Extenuados, os bombeiros não desistiram. Os militares se revezavam nas buscas por Emellyn Silva Aguiar. Um deles confidenciou que o calor no subsolo era insuportável, mas que o que mais o angustiava era não conseguir localizar a vítima desaparecida, engolida pela densa fumaça que permanecia concentrada no local.
Em determinado momento, um militar precisou ser socorrido pelos colegas ao chegar correndo ao térreo. Do lado de fora do shopping, era possível ouvir o alarme de oxigênio disparar no volume máximo, sinal de que ele estava prestes a ficar sem ar. O bombeiro foi levado para fora do prédio, onde outros colegas descansavam por alguns minutos sentados na calçada, antes de retomarem as buscas no interior do shopping.
A madrugada parecia não terminar.
O último resgate
Após sete horas de buscas intensas, Emellyn foi encontrada. Ela estava no subsolo, próxima ao foco do incêndio e, assim como Anderson, perdeu a vida tentando combater as chamas e salvar o maior número possível de pessoas.
Com a constatação do óbito, os militares que atuavam nas buscas deixaram o prédio cabisbaixos — a imagem de quem havia perdido a esperança de resgatá-la com vida. A mãe da vítima precisou deixar o local em uma cadeira de rodas, amparada por médicos.
Sobre o incêndio, em nota, o Shopping Tijuca informou que todos os protocolos de emergência foram cumpridos e que a loja foi evacuada em cinco minutos, com os primeiros combates ao fogo já em andamento pela brigada.
Veja a nota
O shopping informa que fez três ligações, a primeira delas foi às 18h12 e a última, às 18h22, conforme os registros do sistema de comunicação. A loja Bell'Art, local do incêndio, foi evacuada em cinco minutos, já com os primeiros combates em andamento pela brigada. O subsolo (área crítica naquele momento, onde se encontrava a referida loja), foi evacuado em doze minutos, antes mesmo da chegada dos bombeiros. A partir disso, os seis pisos superiores começaram a ser evacuados de forma gradual, evitando acidentes que poderiam ser eventualmente causados pelo pânico de uma correria.
Importante ressaltar que as duas únicas vítimas foram nossos funcionários heróis, que permaneceram atuando no primeiro combate. Reforçamos que 7 mil clientes, colaboradores e lojistas foram evacuados em segurança, seguindo as orientações das equipes de segurança, brigadistas, funcionários e bombeiros. Importante ressaltar que não houve tumulto, pisoteamento, empurra-empurra e demais riscos como uma situação tão crítica como essa poderia trazer.
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