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Para encher o tanque do tráfico: acordo entre CV e PCC para explorar mercado formal no Rio é investigado

Facções trocam rotas de drogas e armas por espaço na economia, com foco em postos de combustíveis

Agência O Globo - 27/10/2025
Para encher o tanque do tráfico: acordo entre CV e PCC para explorar mercado formal no Rio é investigado
- Foto: Depositphotos

Informações de inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio (Sesp) apontam que o Primeiro Comando da Capital (PCC) tem se aliado ao Comando Vermelho (CV) para explorar o mercado formal no estado, principalmente os postos de combustíveis, usados com mais facilidade para lavar dinheiro. Em contrapartida, a facção paulista teria se comprometido a compartilhar com o CV rotas no Brasil utilizadas para o tráfico de armas e drogas.

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Segundo o secretário de Segurança Pública do Rio, Victor Santos, a relação entre as duas facções tem como pano de fundo o vislumbre de uma oportunidade de negócios para a facção paulista.

— O PCC está em um patamar diferente do CV. Ele atua na economia formal, com padrão de máfia. Então, eles veem uma oportunidade de fazer negócios com outras facções que não têm esse tipo de “sofisticação” — explica.

Essas conexões criminosas possibilitaram a expansão do Comando Vermelho para 25 estados e o Distrito Federal, em uma tentativa de fazer frente ao domínio do PCC. As reportagens ainda mostram que os elos firmados pelas facções fluminenses, que inclui o Terceiro Comando Puro (TCP), também disseminaram guerras para outras regiões brasileiras.

Contragolpe sangrento:

Enquanto a abrangência nacional é disputada entre o PCC e o CV, no âmbito local, essas organizações têm estabelecido acordos estratégicos. Informações da Sesp destacam ainda que essas facções não têm interesse na disputa territorial, estando o acordo limitado a parcerias na exploração de negócios formais.

Postos de gasolina fechados em abril

Em abril deste ano, dois postos de gasolina — um em Cascadura, na Zona Norte do Rio, e outro em São Gonçalo, na Região Metropolitana — entraram no radar da Polícia Civil do Rio de Janeiro por suspeita de que os estabelecimentos faziam parte de um esquema de lavagem de dinheiro do PCC.

Os postos funcionavam sem licença da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e comercializavam combustíveis adulterados. A operação também buscou identificar eventuais laranjas, cúmplices e financiadores.

Franquias pelo Brasil:

Segundo policiais, o setor é muito usado pela facção de São Paulo porque costuma movimentar grandes quantias em dinheiro vivo. O ramo também tem um histórico de evasão fiscal, falsificação de notas e adulteração de produtos. A concorrência desleal imposta pelo crime organizado enfraquece empresas legalizadas.

Disputa entre facções não é territorial

Mensagens encontradas no celular do traficante Michael Silva, o Neymar do PCC, mostraram que um integrante da facção conversava com criminosos do Rio sobre negócios a serem implantados na capital. Um comparsa de Neymar, identificado como Orelha, informava que estava escondido no Complexo da Maré, na Zona Norte carioca.

“Já conversei com o amigo do Rio. Estão no aguardo para fazer o remanejamento”, afirmou Orelha em 7 de julho de 2024. O chefe, então, manda que ele converse com “a final”, provável referência à Sintonia Final, formada pela cúpula do PCC. Orelha acata a ordem e termina o diálogo com a frase: “Bora revolucionar o Rio”.

Aterros Rio:

Victor Santos explica que o PCC não disputa venda de produtos nem exploração com o CV por não ter interesse territorial no Rio.

— Eles não querem se estabelecer territorialmente aqui, da mesma forma que o CV não vai exercer domínio lá, como faz em outros estados. O interesse da facção paulista aqui é na economia formal, para lavar dinheiro com combustíveis e empresas, além de estabelecer negócios com as rotas de entrada de drogas e armas.

Igualmente, o CV também se beneficia da aliança com o PCC para, além de acessar novas rotas, lavar o dinheiro obtido com o tráfico. Uma investigação mostrou que a facção carioca movimentou R$ 6 bilhões em um ano, e parte desse dinheiro circulou em contas do banco digital 4TBank, suspeito de ter sido desenvolvido pelo PCC.