Política

PSDB quer distância de Lula e Flávio; como JHC conciliará aliança com o PL em Alagoas?

Aécio Neves defende neutralidade tucana na disputa presidencial e prega caminho entre os extremos; resolução nacional do partido determina que alianças estaduais precisam da aprovação da Executiva Nacional

Redação 08/08/2026
PSDB quer distância de Lula e Flávio; como JHC conciliará aliança com o PL em Alagoas?
Aécio Neves e JHC durante articulação que levou o ex-prefeito de Maceió ao PSDB; agora, aliança de JHC com o PL entra em tensão com a estratégia nacional tucana de afastamento da polarização

A aproximação de JHC com o Partido Liberal em Alagoas enfrenta uma questão que vai além da disputa local por vice-governador e vagas ao Senado: como conciliar uma aliança cada vez mais estreita com o PL de Flávio Bolsonaro com a estratégia nacional adotada pelo próprio PSDB?

A pergunta ganhou novo peso depois das atas partidárias registradas nesta semana na Justiça Eleitoral.

A Federação União Progressista e o Partido Liberal condicionaram sua participação na aliança estadual à candidatura de JHC ao Governo e reservaram ao PL a indicação do candidato a vice-governador.

No caso da ata do PL transmitida às 23h58 de quinta-feira (6), a indicação da vice pelo partido aparece como “condição de validade e eficácia” da composição majoritária.
Só que JHC não é mais filiado ao PL.

Desde abril, ele pertence ao PSDB, partido nacionalmente presidido por Aécio Neves e que vem tentando reconstruir sua identidade justamente como uma alternativa à polarização entre o PT e o bolsonarismo.

E esse posicionamento pode agora entrar no centro da negociação alagoana.

AÉCIO: NEM LULA, NEM FLÁVIO


Em julho, Aécio Neves descartou voltar a concorrer à Presidência da República em 2026.

Na mesma entrevista, afirmou que a tendência do PSDB é permanecer neutro numa disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro.

Aécio classificou o cenário político como uma “armadilha da radicalização” e defendeu que o PSDB construa um projeto situado fora dos dois polos que atualmente dominam a disputa presidencial.

Ao tratar do papel do partido, declarou que existe “vida inteligente entre os extremos” e afirmou que pretende conduzir o PSDB na construção desse espaço político.
A posição não surgiu apenas depois da desistência de Aécio.

Em junho, quando ainda discutia uma candidatura própria, o presidente tucano já afirmava que o PSDB precisava despertar um eleitorado que votava em Lula apenas para rejeitar Bolsonaro ou votava no campo bolsonarista apenas para rejeitar Lula.

A proposta, segundo ele, seria oferecer um projeto de “pacificação” e “união nacional”.

O próprio PSDB, em manifestações oficiais, tem se apresentado como legenda de centro democrático e afirmado que o Brasil precisa de uma política que “não se curve aos extremos”.

E É AÍ QUE ENTRA JHC


Em Alagoas, entretanto, JHC caminha para uma composição estadual que tem o PL como um dos seus principais pilares.

Não se trata apenas de o Partido Liberal participar da coligação.

A legenda passou a reivindicar um dos cargos mais importantes da chapa.

A ata registrada às 23h58 determina que JHC seja o candidato ao Governo e estabelece que o candidato a vice-governador será indicado pelo PL.

A União Progressista, comandada em Alagoas por Arthur Lira, apresenta desenho semelhante: JHC no Governo e o PL responsável pela indicação da vice.

A ata do próprio PSDB/Cidadania, entretanto, havia registrado posição diferente.

O documento tucano estabeleceu que a Federação PSDB Cidadania teria candidatos tanto a governador quanto a vice-governador.

Portanto, uma eventual entrega da vice ao PL significará uma mudança no desenho originalmente aprovado pela convenção do partido de JHC.
Mas existe outra questão.

A aliança precisa passar por Brasília.

RESOLUÇÃO NACIONAL EXIGE APROVAÇÃO DE AÉCIO E DA EXECUTIVA


Uma resolução da Comissão Executiva Nacional do PSDB, assinada por Aécio Neves em 29 de abril, determina que todas as decisões estaduais relativas às eleições majoritárias de 2026 sejam previamente submetidas à apreciação, anuência e aprovação da Executiva Nacional.

A regra alcança expressamente candidaturas a governador, vice-governador, senador, suplências, coligações, alianças políticas e apoios eleitorais.

O motivo também está escrito na resolução: assegurar que as decisões tomadas nos estados estejam alinhadas às “estratégias, diretrizes políticas e interesses nacionais do PSDB”.

A norma vai ainda mais longe.

Ela determina que os diretórios estaduais demonstrem a compatibilidade dos acordos pretendidos com a estratégia nacional do partido e prevê que o descumprimento das diretrizes nacionais poderá resultar em não anuência ou até invalidação da deliberação estadual.

Isso coloca a composição alagoana diante de uma questão que até agora vinha sendo analisada quase exclusivamente sob a ótica local.

A aliança de JHC com PL e União Progressista não depende apenas das negociações realizadas em Alagoas.

Ela também precisa estar em conformidade com as diretrizes nacionais do PSDB.

ALIAR-SE AO PL NÃO SIGNIFICA, SOZINHO, APOIAR FLÁVIO


É necessário fazer uma distinção.

Uma aliança estadual do PSDB com o PL não significa automaticamente apoio de JHC a Flávio Bolsonaro para presidente.

As coligações estaduais e a eleição presidencial são juridicamente distintas.

Também não há, na ata do PL das 23h58, qualquer cláusula determinando que JHC tenha de apoiar Flávio Bolsonaro.

O documento trata da eleição estadual.

Mas o problema político existe porque o próprio PL já vinculou publicamente os dois assuntos.

Em maio, Alfredo Gaspar afirmou que a construção de um acordo eleitoral com JHC passaria pela formação de um palanque forte para Flávio Bolsonaro em Alagoas.
Na ocasião, o então candidato ao Senado afirmou que, se isso não fosse possível, o PL poderia adotar outro caminho eleitoral no Estado.

Posteriormente, quando as negociações avançaram, interlocutores de JHC sustentaram que os entendimentos estaduais ficariam restritos às fronteiras de Alagoas, preservando a autonomia do tucano na disputa nacional.

A questão nunca foi definitivamente encerrada.

Agora ela retorna em condições diferentes.

O PL deixou de ser apenas um partido interessado em participar da aliança.

Passou a exigir a indicação da vice de JHC.

PSDB NACIONAL TERÁ DE SE MANIFESTAR?


Esse poderá ser o próximo capítulo.

Se a resolução nacional do PSDB for aplicada nos termos em que foi escrita, a composição construída por JHC terá de receber a anuência da direção nacional tucana.

E a Executiva será chamada a avaliar uma aliança em que um dos principais parceiros é justamente o partido de Flávio Bolsonaro, enquanto o presidente nacional do PSDB sustenta que a legenda deve se manter independente tanto de Flávio quanto de Lula.

Não existe necessariamente incompatibilidade jurídica entre essas duas situações.

Pode haver uma aliança estadual sem apoio presidencial.

Mas existe uma questão política que precisará ser esclarecida.

O PSDB permitirá que seus candidatos estaduais construam palanques com o PL mantendo neutralidade presidencial?

Permitirá uma aliança com o PL, mas impedirá que ela seja transformada em apoio a Flávio?

Ou cada diretório terá liberdade para definir o seu comportamento nacional?

A resolução assinada por Aécio sugere que a direção nacional pretende exercer controle sobre essas decisões, ao exigir que as alianças estaduais sejam compatíveis com a estratégia nacional.

JHC ENTRE DOIS MOVIMENTOS


A situação torna-se ainda mais emblemática porque a chegada de JHC ao PSDB foi articulada pelo próprio Aécio Neves.

Em abril, o site nacional da legenda apresentou a filiação de JHC, da senadora Eudócia Caldas e de Marina Cândia como parte da estratégia de fortalecimento e reorganização nacional do partido, num movimento conduzido por Aécio e pelo ex-governador Teotônio Vilela Filho.

JHC chegou ao PSDB exatamente quando se afastava do PL.

Quatro meses depois, precisa novamente do Partido Liberal para construir sua coligação ao Governo.

E o PL agora não pede somente espaço na aliança.

Quer indicar seu vice.

No plano nacional, enquanto isso, o partido de JHC afirma querer distância dos dois polos presidenciais.