Política
VEJA VÍDEO — “A feira morre”: feirantes reclamam de comitivas políticas e miram agendas de JHC em Alagoas
Para quem vive da feira, a presença de políticos com comitivas gera aglomeração, espanta consumidores e prejudica o sustento do dia
A feira livre, espaço tradicional de trabalho, venda e sobrevivência de milhares de famílias em Alagoas, virou também cenário de pré-campanha. Mas o que para políticos rende imagem, aperto de mão, vídeo para redes sociais e discurso de aproximação com o povo, para muitos feirantes tem significado tumulto, corredor bloqueado, cliente afastado e prejuízo no fim da manhã.
O Jornal Tribuna do Sertão foi às ruas ouvir trabalhadores sobre a presença de políticos nas feiras livres. A pergunta foi simples: feira é lugar de político?
A resposta dos entrevistados foi quase unânime: atrapalha.
Os depoimentos fazem parte de um vídeo produzido pela Tribuna do Sertão, com entrevistas feitas in loco com feirantes. O vídeo ficará disponível no final desta matéria.
Nas falas colhidas pela reportagem, os trabalhadores reclamam que as comitivas que acompanham políticos dificultam a circulação dos consumidores, impedem o acesso às barracas e interrompem o ritmo normal da feira.
“Às vezes o cliente quer chegar no negócio da gente, mas por causa daquela turma que anda com o político não tem como. Quando ele faz aquela parada, demora cinco minutos ou mais, e a gente fica esperando o cliente se aproximar”, disse um feirante.
Outro entrevistado reforçou o incômodo: “Quando está aquele monte de gente, muita gente quer passar, quer vir escolher a mercadoria e não tem como, porque tem muita gente”.
A crítica ficou ainda mais dura em outro depoimento. Para um dos trabalhadores ouvidos, a presença de político com grupo grande transforma a feira em “bagunça” e derruba o movimento.
“No momento em que eles passam, atrapalha. Atrapalha até demais. O pessoal para de andar e muita gente passa acompanhando a turma deles. A gente só volta a negociar melhorzinho depois que termina toda a bagunça da feira. Político na feira é uma bagunça”, afirmou.
A reclamação ocorre justamente no momento em que o período pré-eleitoral avança em Alagoas e pré-candidatos intensificam agendas pelo interior. Entre os nomes que mais têm explorado publicamente esse modelo de caminhada em feiras livres e mercados públicos está o ex-prefeito de Maceió e pré-candidato ao Governo de Alagoas, JHC, do PSDB. A estratégia de JHC em feiras e mercados foi registrada pela imprensa local como parte da tentativa de ampliar sua presença fora da capital e reforçar contato direto com eleitores.
Mas, no chão da feira, a imagem produzida para a política nem sempre combina com a realidade de quem depende das vendas. Para o feirante, a feira não é cenário de campanha. É local de trabalho. O consumidor que vai à feira quer comprar frutas, verduras, carne, roupas, miudezas e produtos do dia a dia. Não quer ter o caminho bloqueado por comitiva, assessor, câmera, apoiador e liderança política.
Um dos entrevistados sugeriu que, se os políticos quiserem visitar a feira, deveriam evitar o horário de maior movimento.
“Ele tem que vir à tardezinha, porque de manhã, quando vem, leva todo mundo com eles. A feira morre. Fica a feira morgada”, disse.
A frase resume o sentimento de quem trabalha no comércio popular. Para o político, a passagem pela feira pode virar conteúdo de campanha. Para o feirante, pode significar menos cliente na banca e menos dinheiro no bolso.
O debate que surge é direto: feira livre é espaço de trabalho ou palanque eleitoral?
Pelos depoimentos colhidos pela Tribuna do Sertão, a resposta dos feirantes é clara. Eles querem vender, atender o freguês e manter o comércio funcionando. Não querem ver a feira parada, bloqueada ou transformada em passarela de pré-campanha.
Em Alagoas, a presença de JHC em feiras livres e mercados públicos virou marca de sua movimentação pré-eleitoral. Agora, os feirantes começam a mostrar o outro lado dessa estratégia: o da banca parada, do cliente impedido de passar e da feira que, nas palavras de quem vive dela, “morre” quando a política chega com comitiva.
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